
Imaginemos a seguinte cena: chegamos num restaurante, pedimos o cardápio e a carta de vinhos e temos que decidir o que vamos comer e o que vamos beber.
Tem enófilos que sentem prazer nisto; outros acham complicado e desnecessário, levando seus próprios vinhos. Os demais vão ter que enfrentar o desafio, sob a pena de alguém não gostar das escolhas, o que é muito desagradável. Nossa reputação como especialista em vinhos ficará abalada.
Pensando nisto, nos ocorreu a ideia de experimentar o recurso da moda, a Inteligência Artificial, e desafiá-la a encontrar, dentro de certos limites, o vinho que vai harmonizar com o prato escolhido.
Foi necessário estabelecer alguns parâmetros. Selecionamos dois restaurantes, um no Rio de Janeiro e outro em Brasília, ambos focados na culinária italiana. Seus cardápios e cartas de vinhos estão publicados na Internet, o que facilitou esta escolha.
Optamos por pratos mais complexos, o que complica a boa harmonização. Do restaurante da capital, escolhemos o Fagotinne com gorgonzola e figos. Da casa carioca, a opção foi o Gnocchi al pesto.
O fagotinne é recheado com queijo gorgonzola, acompanhado de figos e presunto de Parma, tudo coberto com o molho “cacio e pepe”. Sabores picantes e intensos que, tradicionalmente, são harmonizados com vinhos mais suaves ou doces, como o Vin Santo. Os figos equilibram a paleta de sabores desta receita, acrescentando mais dificuldade.
Tradicionalmente esta delícia é acompanhada por um Moscato d’Asti, um Soave ou um Prosecco Brut.
O gnocchi al pesto é servido com um creme de burrata e raspas de limão siciliano. Além das notas marcantes de manjericão e alho, o toque cítrico é mais um fator complicador.
Esta receita sempre foi desafiante, mesmo para os mais tarimbados. As harmonizações clássicas indicam vinhos brancos das castas Vermentino, Cortese (Gavi) ou Sauvignon Blanc neozelandês.
O desafio foi proposto a três mecanismos de IA: o Gemini, o ChatGPT e o Claude.
Coube a Tomás Pinheiro (qualquer semelhança não é coincidência) conduzir a experiência. Formulou uma questão direta, em linguagem coloquial, e submeteu os respectivos arquivos do cardápio e da carta de vinhos.
Por exemplo: “Estou no restaurante xxx e escolhi o fagottine com gorgonzola e figos. Qual vinho você recomendaria?”
Na carta do restaurante que serve o fagottine não constam os vinhos já mencionados, exceto um Prosecco brasileiro. Igualmente, no caso do outro prato, apenas um Sauvignon Blanc argentino poderia se encaixar na harmonização tradicional.
O Gemini fez análises bem completas, justificando suas escolhas com uma boa descrição do que se espera do prato.
Para o fagotinne, fez três opções:
– Um par perfeito seria um dos dois tintos da casta Primitivo. Frutados e macios;
– Para uma harmonização por contraste, selecionou dois brancos, um encorpado, o Chardonnay chileno de perfil amanteigado, e outro floral, o Torrontés argentino;
– A terceira opção foi um Pinot Noir, da Borgonha, em busca de uma acidez que equilibrasse a gordura do prato.
O ChatGPT navegou por outros caminhos:
– Pinot Griggio do Veneto, por sua ótima acidez e mineralidade;
– Branco do Alentejo, corte das uvas Manteúdo, Perrum e Antão Vaz, mais encorpado que o anterior. Notas de madeira e fruta madura combinariam com o gorgonzola e o molho;
– Para os que preferem um tinto, indicou um Dolcetto, um vinho clássico do Piemonte que entrosaria perfeitamente com gorgonzola, parma e figos.
O Claude foi o mais objetivo dos três, fazendo duas sugestões:
– O mesmo Pinot Noir da Borgonha e o mesmo Chardonnay chileno.
Em notas ao final da resposta, tanto o ChatGPT quanto o Claude sugeriam que se fossem comensais, escolheriam o Pinot Noir.
Para o segundo prato, gnocchi al pesto, temos as seguintes sugestões. (outro restaurante e outra carta)
O Gemini, sempre muito analítico, fez três escolhas:
– Pinot Griggio, seco e refrescante, com notas de maçã verde e limão, combinando com as raspas do limão siciliano;
– Sauvignon Blanc, argentino. Segundo sua análise, esta casta é uma harmonização clássica com o molho pesto.
– Branco duriense, corte de Viosinho, Malvasia Fina e Rabigato.
O ChatGPT, desta vez, ficou com quatro opções:
– O mesmo Pinot Grigio. Chamou de combinação ideal;
– Um excelente, mas caro, Petit Chablis (Chardonnay). Considerou como uma opção refinada.
– Outro branco duriense, da mesma vinícola que o anterior. Desta vez, um corte de Viosinho, Malvasia Fina e Códega do Larinho. Este seria o melhor custo-benefício.
– Por último, um Pinot Noir argentino. Seria leve, elegante e com acidez para não brigar com o pesto.
O Claude, novamente foi o mais sintético, escolhendo dois brancos, já indicados anteriormente:
– Pinot Grigio e Sauvignon Blanc, argentino.
Neste segundo desafio, tanto o Gemini quanto o ChatGPT afirmaram que escolheriam o Pinot Grigio se estivessem no restaurante. O Claude optou pelo Sauvignon Blanc.
Muito interessante este experimento. Nenhuma das sugestões está tecnicamente errada ou certa. Foram escolhas democráticas e bem precisas, dentro dos limites de cada carta. Poucas convergências foram observadas.
Segundo algumas fontes, esta forma de harmonizar vinho e alimentos vem sendo usada com bastante frequência pelas novas gerações.
Saúde!
CRÉDITOS: Imagem criada no ChatGPT Imagens.
Para evitar questionamentos, não estamos publicando os nomes dos restaurantes que gentilmente disponibilizaram seus cardápios “on line”.
Caso algum leitor deseje saber mais, podemos enviar, por mensagem, os respectivos documentos utilizados, inclusive as respostas completas de cada mecanismo de IA.