
Muito antes desta curiosa tendência de criar influenciadores, nascida nas denominadas redes sociais, o mundo do vinho já os tinha.
Foram e continuam sendo muito importantes, sempre gerando novas manias e formas não só de produzir um vinho, como de degustá-lo e harmonizá-lo com as mais diversas formas de alimentos.
Da mesma forma que os atuais “influencers” atuam, o mundo do vinho foi sendo moldado por diversas personalidades, com temas tão profundos que, até hoje, são considerados por produtores e consumidores.
Não temos como precisar quem teria sido a primeira pessoa a ter uma importância tão grande que provocou alguma mudança significativa.
Mas podemos especular.
Vinhos começaram como um produto empírico. As uvas eram colhidas e esmagadas; o sumo fermentaria naturalmente e a bebida resultante, embora fosse satisfatória no paladar, era inegavelmente rústica.
Foram precisas algumas centenas de anos para que isto fosse estudado, compreendido e refinado, tornando possível a produção sistemática de vinhos.
Monges de diversas denominações católicas talvez tenham sido os primeiros influenciadores do vinho, embora a produção do vinho date de cerca de 6 mil anos antes do Cristianismo.
A partir do século XII, na França, as ordens beneditinas e cistercienses foram designadas como custodiantes de todo o conhecimento sobre a elaboração de vinhos da era romana. Duas personalidades se destacariam: São Martinho de Tours, considerado o pai espiritual do vinho francês, e Dom Pérignon, a quem se atribui a descoberta do Champagne.
Ainda na França, outros personagens moldariam, em definitivo, o mundo do vinho: Leonor da Aquitânia, que transformou Bordeaux na maior região produtora e exportadora de vinhos daquele país. Indiretamente, por conta da Guerra dos Cem Anos, criaram-se as condições para Portugal produzir o Vinho do Porto.
Em outra época, Napoleão III classificou os melhores produtores bordaleses, com base no seu gosto pessoal. Isto é de 1855 e vale até hoje.
Notem que este último “proto-influencer” usou a sua preferência e poder para designar o que era bom ou não.
Este fato nos traz de volta ao mundo moderno. Pensem por um instante: como escolhemos nossos vinhos atualmente e quem são os nossos influenciadores?
Famosos enólogos como Émile Peynaud e Michel Roland ou críticos consagrados como Jancis Robinson e Robert Parker vêm moldando o nosso paladar há muito tempo.
Parker talvez tenha exercido a maior influência da era moderna. Sua dobradinha com Rolland criou um estilo de vinho que ficou inconfundível: muita fruta, muita madeira e altos teores alcoólicos.
Passamos a apreciar estes vinhos só porque tinham alta pontuação Parker ou por serem elaborados por Rolland.
Talvez devêssemos nos mirar no exemplo de Napoleão III e impor o nosso gosto.
Existe um fator por trás destas formas de compreender o vinho, que muitos não levam em consideração: o fator cultural.
Parker avaliava os vinhos em função do gosto médio do consumidor de seu país, a América do Norte. Rolland, embora prestasse consultoria em diversos países produtores, também pensava como um francês nos costumes de seu país, criando vinhos que eram verdadeiros “clones”.
As gerações mais novas estão quebrando este paradigma. Vinho, para eles, não precisa mais ter estes parâmetros. Para começar a conversa, menos álcool é o primeiro ponto. Madeira tem que ser muito sutil.
O novo perfil do consumidor pede vinhos leves, frescos, frutados e agradáveis de degustar.
Afinal: aceitamos as influências de hoje ou vamos agir mais como Napoleão III, impondo as nossas preferências?
