Torta Pasqualina–tradição sul-americana e italiana

No Brasil, a Páscoa é sempre associada a chocolates, principalmente ovos de chocolate.

Outra lembrança que esta data nos traz é o bacalhau no domingo. São tradições que tem origem na família católica, que adotavam a abstinência da carne.

Vários símbolos estão ligados a estes ritos que celebram a ressurreição de Jesus. Os ovos, originalmente sem chocolate e pintados de vermelho, representavam o renascimento, o coelho significava a fertilidade e uma nova vida, o cordeiro, mostrava o sacrifício e o círio era a luz que iluminava o mundo.

Esta data é celebrada de diferentes modos por cada povo. Para fugir, um pouquinho, das tradições brasileiras, fomos buscar uma interessante iguaria, típica desta época, na Argentina e no Uruguai.

A Torta Pasqualina é um delicioso prato elaborado com massa folhada, ricota, espinafre ou chicória e ovos. Apesar de muito apreciada por nossos vizinhos, tem origem na Ligúria. Foi trazida e incorporada nas culturas locais pelos imigrantes italianos.

Na sua origem, esta receita é carregada de simbolismos. A massa precisa ter 33 camadas, correspondendo à idade de Cristo. A escolha do recheio de base vegetal é interpretado como a chegada da primavera. Os ovos, obrigatoriamente sete, lembram o triunfo da vida sobre a morte.

As receitas atuais são bem mais simples. Aqui estão dois links para sites de culinária, com ótimas instruções de preparo:

Paola Carosella

Rita Lobo/Panelinha

Qual vinho harmoniza com esta delícia?

A primeira opção são brancos italianos e da Ligúria. Os da casta Vermentino vêm em primeiro lugar. São vinhos com boa tipicidade aromática, corpo médio e um equilíbrio perfeito entre sabores salgados e suavidade que contrabalançam a natural acidez e as notas adocicadas da torta.

Da região do Friuli, selecionamos a casta Ribolla Gialla. Seus vinhos apresentam delicados aromas de frutas e flores brancas, combinando bem com a notas herbáceas da torta. No palato, é refrescante e ajuda a controlar a gordura da ricota.

Roero Arneis é um vinho com denominação DOCG do Piemonte. Famoso por acompanhar pratos de base de vegetal, tal como a nossa torta. Corpo médio, aromas intensos e notas herbáceas, o fazem um par perfeito.

Entre os vinhos internacionais, duas castas se destacam: Sauvignon Blanc e Semillon. São vinhos leves, com boa acidez que equilibram a presença da ricota, realçando o sabor vegetal.

Dois outros vinhos podem ser considerados: um rosê bem seco e um espumante, o eterno “vinho coringa”.

Esta torta pode ser servida quente ou fria. É deliciosa de qualquer forma.

Já o vinho, gelado, por favor. A temperatura ideal fica em torno dos 12 °C.

Vamos trocar o bacalhau este ano?

A Torta Pasqualina é mais saudável tanto para o corpo quanto para o bolso.

Saúde!

CRÉDITOS: imagem de abertura obtida no site NonnaBox.

Dica da Sandra Cordeiro:

Minha indicação hoje será voltada para algumas opções de uvas e vinhos que fazem excelente par com a Torta Pasqualina, tornando a experiência memorável.

Por ser um prato delicado de recheio vegetal e, ao mesmo tempo, cremoso, devemos buscar vinhos leves, de boa acidez e com toque vegetal para equilibrar a cremosidade e o sabor herbáceo do recheio, com cuidado para o vinho não se sobrepor ao prato.

Serão duas opções, uma de espumante e a outra de um vinho tranquilo.

Primeiro o espumante, afinal além de ser perfeito para harmonizar com o prato, trazendo muito frescor, aromas de frutas cítricas, alguma mineralidade e notas de panificação, limpando o palato deixando a boca preparada para a próxima porção da torta. Também harmoniza com o momento de celebração da vida em família ou com os amigos.

Adolfo lona é argentino, mora e atua profissionalmente no Brasil desde 1970, é reconhecido por publicações internacionais e pelos seus colegas de profissão como um dos principais enólogos atuantes no nosso país. Focado na qualidade e na alegria de um bom brinde prepara seus espumantes com muito carinho para nosso deleite.

O Adolfo Lona Brut Charmat é produzido com as castas Chardonnay e Pinot Noir, tem 12% álcool, tem coloração dourado-pálido, no nariz nos traz notas intensas de frutos cítricos, e notas de panificação, trazidas pelo período que permanece em contato com as leveduras, após o término da fermentação. É seco, elegante, equilibrado e fresco, como deve ser um bom espumante.

A outra sugestão, é o Azevedo Loureiro & Alvarinho.

A Quinta de Azevedo é o grande marco da SOGRAPE, maior grupo vitivinícola português, na produção de vinhos de qualidade na Região do Vinho Verde.

Tem como destaque o Solar de Azevedo, construído no século XI, obra arquitetônica fantástica perfeitamente conservada, onde funciona a sala de provas da SOGRAPE no Minho. Porém, foram os 30 hectares de vinhedos das castas Loureiro e Alvarinho e sua moderna cantina, capaz de produzir vinhos frescos, aromáticos com foco na qualidade, excelente drinkability, ou melhor, bebilidade (isto significa o quão agradável é sua degustação), que a tornaram reconhecida por sua capacidade de produzir vinhos de qualidade, mostrando ao mundo o potencial dos grandes vinhos da Região.

O corte da Loureiro com a Alvarinho nos proporciona um vinho fresco e frutado, mas foi um pequeno contato do mosto com as cascas, maceração pré-fermentativa e o período, após o término da fermentação, de estágio de 3 meses com as leveduras e a battonage regular, que proporcionaram cremosidade e complexidade extra enriquecendo o vinho.

Este vinho branco da região do Vinho Verde (Vinho Verde pode ser Branco, Tinto, Rosê ou Espumante) tem em sua composição 70% da casta Loureiro e 30% da Alvarinho acompanha bem comidas leves, frituras, aperitivos, saladas, peixes, carnes brancas, queijos leves. É ótimo sozinho e certamente será um grande rival para os que quiserem fazer par com a nossa vedete, a Torta Pasqualina, enriquecendo a harmonização com suas notas frutadas e herbais, sua sutil e deliciosa cremosidade e seu revigorante frescor.

Dito isto vamos provar?

Aconselho a provar ambos, ainda mais porque eles estão no site da Ocam com desconto especial pela semana do consumidor.

Para adquirir estes vinhos visitem a loja da Ocam Vinhos:

https://ocamvinhos.com.br

Valores promocionais, por tempo limitado:

Espumante Adolfo Lona Brut de R$ 113,00 por R$ 104,00

Azevedo Loureiro & Alvarinho de R$ 141,00 por R$ 113,00

Sua personalidade, seu vinho e “IA”

A informática, como dizem alguns ou a cibernética, como preferem outros, desempenha um papel cada vez mais significativo em nossas vidas.

Com a chegada do se convencionou chamar de “inteligência artificial”, novos campos de atuação estão surgindo, muitos deles jamais sonhados pelo homem que, agora, se torna um verdadeiro “ignorante”.

Nada a temer, entretanto: somos nós que programamos a “IA”.

Entre diversas coisas que estão sendo produzidas com a ajuda desta nova ferramenta, uma chamou a nossa atenção.

Pesquisadores da Universidade Batista Normal de Pequim — Hong Kong encontraram uma curiosa correlação entre os cinco fatores clássicos de personalidade e como estas pessoas escolhem seus estilos de vinho, por exemplo, teor alcoólico, paleta de aromas e sabores, corpo, intensidade e texturas.

Os traços marcantes de personalidade são definidos como, abertos a novas experiências, conscienciosidade, extroversão, instabilidade emocional e amabilidade.

Segundo a pesquisa, analisada com ferramentas de “IA”, cada um destes tipos tende a escolher uma determinada característica mais marcante em seus vinhos.

Alto teor alcoólico agrada tanto aos que tem uma mente aberta quanto aos que são mais amáveis.

Vinhos mais alcoólicos oferecem uma maior complexidade de aromas, sabores e texturas, atraindo, naturalmente estes dois grupos, sempre em busca de novidades.

Já os vinhos com baixo teor alcoólico, que estão na moda, seria a típica escolha dos que têm uma personalidade instável e dos que são extrovertidos. Mas por diferentes motivos.

Os instáveis tendem a querer manter o controle sobre tudo os cercam. Deixar se levar pela bebida seria o mesmo que ir contra a corrente. Já os extrovertidos querem garantir que os bons momentos nunca terminem, o que um eventual excesso de bebida não permitiria.

O fiel da balança, como não poderia deixar de ser, é o grupo da personalidade consciente. Por serem mais rígidos e disciplinados, podem dançar conforme a música, sem problemas.

Sem fazer nenhuma distinção sobre o que vai ser consumido, decidem, apenas, por poucos fatores: se o vinho é bom e o ambiente está segundo os seus objetivos, vamos em frente. Caso contrário, basta uma tacinha e tudo bem.

Como todo estudo apoiado nesta moderna ferramenta, estes resultados, embora façam muito sentido do ponto de vista lógico, estão sujeitos aos erros de sempre.

No momento, servem apenas para refletir e divertir.

Saúde!

Dica da Sandra Cordeiro: TOSCA CHIANTI COLLI SENESI

Continuando a comemorar o dia Internacional da Mulher, hoje a indicação é de um vinho produzido por uma brilhante e renomada enóloga italiana, Míriam Caporali da Tenuta Valdipiatta.

A Tenuta Valdipiatta, foi fundada na década de 1960, e adquirida por Giulio Caporali no início da década de 1980, é uma vinícola da Toscana, mais especificamente no coração de Montepulciano, possui 22 há de vinhedos localizados entre 300 e 350 metros acima do nível do mar.

Minha Shangri-La, era assim que Giulio chamava a propriedade, onde implantou a filosofia da sustentabilidade. Era seu refúgio do caos da cidade grande, onde se dedicava a produzir, para a família em primeiro lugar, o azeite, excelentes vinhos, e os demais frutos da terra e a literatura e a história que eram suas paixões.

Em 2002, Míriam Caporali, sua filha, assumiu a propriedade trocando a agitação de Roma pela tranquilidade da Toscana, e a Economia pela Enologia (se formou em Bordeaux). Dando continuidade à filosofia da sustentabilidade implantada por seu pai, e indo além, converteu todos os vinhedos em orgânicos.

A Tenuta Valdipiatta é reconhecida como um dos produtores históricos do Vino Nobile de Montepulciano, mas hoje nossa sugestão é outra, é o Tosca Chianti Colli Senesi.

Miriam Caporali e Giulio desejavam poder produzir um Chianti até identificarem uma parte do vinhedo que finalmente consideraram adequada. O nome tosca homenageia a Toscana, e a Puccini por sua ópera de mesmo nome. É um Chianti que surpreende pela qualidade, equilíbrio e pela sua capacidade de se desenvolver muito bem com o tempo em garrafa.

TOSCA CHIANTI COLLI SENES é um vinho tinto, seco, de médio corpo, teor alcoólico de 13%, é produzido com as castas Prugnolo Gentile (Sangiovese) e 10% de Canaiolo Nero, passa 3 meses por afinamento em madeira, e pode ser guardado por 4 a 5 anos em adega.

É um vinho vermelho Rubi de média intensidade, muito frutado trazendo nuances de várias frutas vermelhas e negras como cerejas, amoras entre outras, um delicado e bem integrado toque de madeira, e aromas vegetais de ervas aromáticas frescas como tomilho. Na boca se apresenta muito equilibrado, com taninos marcantes e, ao mesmo tempo, macios, acidez vivaz, a fruta abundante, e corpo médio.

Classicamente harmoniza perfeitamente com uma bem-feita e suculenta Bisteca Fiorentina, mas podemos apostar num ravioli de vitela, num frango assado marinado com ervas finas e pimenta-do-reino, e até mesmo com um bom churrasco brasileiro.

Bora provar com churrasco? Eu aposto que vai ficar top.

Para comprar este vinho acesse a loja da OCAM Vinhos.
Valor: R$ 268,00/unidade

CRÉDITOS: imagem de abertura obtida no gerador de imagens do ChatGPT

Fontes:

–  From Personality to Pour: How Consumer Traits Shape Wine Preferences and Alcohol Choices

An AI analyzed wine reviews and found a surprising link to personality

Mitos: Elas e o vinho–Dia Internacional das Mulheres

Muitas vezes imaginamos o que seria do vinho se não fossem as mulheres.

Alguns nomes consagrados vêm logo à mente: Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin, mais conhecida como a Veuve Cliquot; Louise Pommery, outra viúva de Champagne; a Baronesa Philippine de Rothschild, proprietária do Château Mouton Rothschild.

Na América do Sul são destaques a Dr.ᵃ Laura Catena e Susana Balbo, mostrando a força dos vinhos argentinos.

Existem milhares de outros nomes importantes, tantos, que não caberiam aqui.

Mas, nem sempre foi assim.

Imaginem que durante o império grego e no império romano, as mulheres que consumissem vinho eram condenadas à morte.

No antigo Egito, por outro lado, os vinhos produzidos por elas eram valorizados.

Estereótipos a parte, hoje somos bombardeados com uma série de mitos que tratam desta curiosa relação entre o sexo feminino e os vinhos.

Vamos a eles:

— Homens compram ou escolhem o vinho melhor que as mulheres

Ledo engano. Elas são muito mais ousadas. Pesquisas feitas em grandes lojas, físicas ou on-line, demonstram que 65% das compras são feitas por elas.

Isto desmonta a famosa lenda sobre vinhos femininos e masculinos: simplesmente não é verdade.

Elas têm uma maior sensibilidade e sabem o que desejam comprar, escolhendo, conscientemente, região, produtor e estilo.

Os homens são mais conservadores, preferindo se manter em suas zonas de conforto.

— Elas consomem menos vinhos do que eles.

Uma verdade, ainda, mas a margem é pequena. A grande diferença está no fato dos homens serem degustadores mais constantes que as mulheres, que seriam apreciadoras ocasionais.

Estatísticas recentes mostram que entre os consumidores do continente americano, 61% dos homens se consideram como habituais. Entre as mulheres, 56% confirmaram serem consumidoras regulares.

— Brancos, rosados e espumantes são uma preferência feminina.

Não é bem assim. Elas gostam dos tintos quase como os homens gostam, mas com um perfil diferente.

Para conquistar o paladar delas, tintos com baixo teor alcoólico e mais frutados: Pinot, Dolcetto, Barbera, Gamay.

Com relação aos brancos e rosados, tranquilos ou espumantes, é uma preferência mais feminina do que masculina. Mas a diferença não é grande.

Há uma tendência por vinhos menos alcoólicos, 72% das mulheres, enquanto 65% delas preferem um tinto em lugar de um branco ou rosado, num percentual idêntico ao do público masculino.

Esta vocês não esperavam!

— Quem manda neste mundo, afinal?

Não há um nítido predomínio feminino, ainda. Mas, algumas das principais vinícolas do mundo (30%) já são comandadas por grandes mulheres.

— Quem sabe mais, eles ou elas?

Nos cursos de enologia, mundo afora, 40% dos alunos são do sexo feminino.

Este índice chega a 50% nas escolas de formação de Sommeliers, desculpem, Sommelières.

(Aqui, uma pequena confissão: vinhos elaborados por Enólogas me agradam mais do que os de Enólogos.)

Um brinde a elas!

Saúde!

Dica da Sandra Cordeiro:

Olá, querido leitor!

Hoje eu não indicarei um vinho, aproveitando o tema do artigo deste blog, indicarei um evento de vinhos exclusivo para as mulheres. Espero que os homens não fiquem zangados.

O evento é tradicionalmente feito pela ABS-Rio (Associação Brasileira de Sommelier) em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Normalmente as apresentadoras são mulheres, e os vinhos degustados são de vinícolas lideradas por mulheres, ou feito por uma enóloga.

Este ano eu e a minha colega Renata Oliveira, apresentaremos seis vinhos, de seis estilos diferentes, de seis vinícolas e de seis regiões diferentes, todos produzidos por mulheres brilhantes.

O evento acontecerá nas duas unidades da ABS-Rio, unidade. Flamengo (no dia 09/03), e na unidade Barra da Tijuca (no dia10/03) da ABS-Rio.

Vou deixar aqui dois links para vocês se informarem mais sobre o evento, e se inscreverem, mas prestem atenção, um link é da unidade Flamengo, e o outro da unidade Barra.

Então, meninas vamos aproveitar esta oportunidade especial para fazermos um brinde juntas?

Vou adorar saber se alguns de vocês estiverem no evento, então não deixem de me dizer, OK?

No mais vamos comemorar muito nossas vidas, nossas vitórias, nossos desafios e as dificuldades, pois sem elas não há evolução, vitória nem crescimento.

Tim Tim!

Sede no Flamengo:

https://abs-rio.com.br/eventos/degustacao-especial-do-dia-internacional-da-mulher-2026

Sede na Barra:

https://abs-rio.com.br/eventos/degustacao-especial-do-dia-internacional-da-mulher-2026-2

PS: acabei de conseguir um desconto especial de 20% em dois dos vinhos que apresentarei no evento para todos os leitores deste blog, para os rapazes não ficarem zangados comigo.

O desconto valerá entre os dias 09/03/2026 e 12/03/2026 no site da OCAM Vinhos, para os seguintes rótulos:

Quinta dos Carvalhais Colheita Tinto–Quinta dos Carvalhais, Dão, Portugal.

Tosca Chianti Colli Senesi–Tenuta Valdipiatta, Toscana, Itália.

Sandra Cordeiro

CRÉDITOS: Imagem de abertura obtida no Freepik

No princípio, todas eram “Vitis Sylvestris”

A história do vinho é muito antiga e cheia de interessantes capítulos. Começa a mais de 8.000 anos, segundo as pesquisas atuais. Mais antiga do que ela, só a da cerveja, reconhecida como a primeira bebida alcoólica fermentada.

Em comum, apenas o fato que ambas teriam sido descobertas acidentalmente.

Para o vinho existir como ele é hoje, o primeiro passo foi domesticar a uva, que era uma fruta selvagem (Sylvestris). Em termos simples, isto significava compreender o seu ciclo de frutificação, a melhor forma de plantar, reproduzir, selecionar os melhores frutos, enfim, o manejo completo.

Após a descoberta da bebida resultante de uvas naturalmente fermentadas, que haviam sido deixadas ao relento, começou um novo capítulo: o que seria necessário para produzir, de forma sistemática, esta nova delícia?

Parte do conhecimento empírico utilizado na produção da cerveja e do pão certamente colaborou neste segundo passo. A arte da fermentação, não era um mistério.

Uma vez popularizada, era necessário criar um nome para esta nova forma de prazer líquido.

A versão mais aceita atualmente tem origem na Georgia, onde foram encontrados os lagares de vinho mais antigos. Ali produziam o “gvino”, ou simplesmente “bebida fermentada”.

Estudos etimológicos indicam que esta denominação, combinada com uma série de palavras semelhantes usadas em diferentes idiomas comuns na Ásia Menor, acabariam desaguando no Grego (oinos) e no Latim (vinum). Destes surgiram no português o prefixo “eno” e a palavra “vinho”.

Depois desta aventura, que continua desenrolando, a uva deixa de ser “sylvestris” e ganha um novo apelido: “vitis vinifera”, ou as uvas que produziam o vinho.

E isto é muito importante.

Neste ponto desta saga, é necessário estabelecer alguns parâmetros. O continente americano ainda não havia sido descoberto. O mundo conhecido naquele tempo se resumia ao que hoje denominamos Europa e Ásia. Portanto, as “vitis vinifera” seriam, obrigatoriamente, as uvas cultivadas naquelas regiões.

Este vinho foi sendo aprimorado paulatinamente. Algumas castas entregavam melhores resultados, levando os produtores a pesquisarem o que as faziam diferentes. Passaram a buscar características ideais como índices de açúcar, acidez e tanino, além de observar o rendimento no campo. Estava aberto o caminho para um subgrupo hoje denominado “castas nobres”.

Após a descoberta do continente americano e sua colonização, novas “vitis” foram encontradas, ainda selvagens e, novamente, domesticadas. Eram diferentes das nobres “vinifera”. Este novo grupo de espécies foi denominado genericamente como “uvas americanas”. O principal tipo é a “vitis labrusca”.

São muito apreciadas como uvas de mesa ou para a produção de sucos. Mas, para a produção de vinhos, suas características não atingiam os padrões consagrados, exigindo uma série de intervenções exógenas, por exemplo, adição de açúcar (chaptalização), para se obter um teor alcoólico aceitável, entre outras.

Por terem sabores fortes e marcantes, algumas características dos vinhos elaborados com estas castas podem incomodar um enófilo mais dedicado. O retrogosto é um deles, muito intenso e duradouro, dificultando a apreciação de outros vinhos ou alimentos.

Fica a eterna pergunta: podemos chamar de vinho as bebidas elaboradas com estas uvas ou com outras frutas?

Tudo vai depender da legislação de cada país produtor. Na Comunidade Europeia a legislação reconhece o vinho de frutas, mas o consumidor, muito conservador, não aceita facilmente. Aqui no Brasil, podem ser vendidos como “vinho de mesa”.

Nem todos os países produzem uvas. É uma planta que exige algumas condições para o seu cultivo. Mas é possível encontrar vinhos de outras frutas ao redor do mundo: vinho de banana (Tenerife), vinho de maçã ou sidra (vários países), vinho de morango (Andaluzia), vinho de jabuticaba (Brasil), vinho de abacaxi (Nigéria, Havaí e Japão), vinho de ameixa (China e Japão), vinho de cereja (Dinamarca), vinho de framboesa (Canadá) e na Suécia existe o vinho de amora.

A decisão, se essas bebidas são um vinho ou não, cabe ao consumidor, embora exista uma regulação burocrática.

Muitos brasileiros, principalmente as mulheres, tem uma maior dificuldade em apreciar os bons tintos por conta da forma como os primeiros vinhos, de uvas americanas, eram comercializados: Rascante ou Suave.

O tipo suave sempre foi o campeão de vendas, o que pode explicar a tendência dos brasileiros em preferir tintos “demi-sec” e brancos da uva Moscatel.

Algumas curiosidades:

A tentativa de cultivar uvas americanas, na Europa, resultou na famosa praga da Filoxera que dizimou quase todos os vinhedos do velho mundo.

Por outro lado, as raízes das uvas americanas passaram a servir de “cavalo” para a enxertia das uvas viníferas, salvando estas espécies da temível praga. As “americanas” eram mais robustas e imunes ao devastador inseto.

Ainda existem vinhedos em “pé franco” (sem enxertia). Portugal, Chile e Argentina se destacam.

Como não poderia ser de outra forma, no nosso país os vinhos “de mesa” sempre foram os campeões de vendas, mesmo quando criavam nomes para as uvas, como “Bordô”, numa nítida tentativa de vender gato por lebre. Típico…

Para um expressivo grupo de pesquisadores, só existem dois tipos de bebidas alcoólicas: as cervejas e os destilados.

Sendo assim, o nosso querido vinho, seja do que for, se torna mais uma “cerva”.

Saúde!

Dica da Sandra Cordeiro: Mandrarossa Merlot 2021

O vinho da semana é italiano da Sicília, produzido pela Cantine Settesoli, cooperativa fundada em 1958, hoje tem mais de 2000 membros, produz a maior variedade de uvas da Sicília. Possui 36 cultivares que correspondem a 6000 hectares vinhedos, e 7% da área vitivinícola da ilha.

1000 desses hectares são dedicados ao cultivo orgânico, adotando os conceitos de comunidade, união e cooperação, juntamente ao crescimento, uso correto e econômico da energia, preservação da natureza e sustentabilidade.

Em 2014, recebeu o Prêmio Ecofriendly da Vinubuoni d`Italia em colaboração com a Verallia-Saint Gobain pelo compromisso verde.

A Settesoli tem o foco na qualidade dos seus vinhos, e foi uma das pioneiras a investir na própria linha de engarrafamento e exportação, numa época em que a vitivinicultura siciliana era basicamente voltada para a venda de vinho a granel.

O Mandrarossa Merlot, faz parte de um projeto, uma marca de vinho 100% siciliana, que nos proporciona conhecer a expressão autêntica da biodiversidade da ilha. Foi lançada em 1999, após um longo e minucioso estudo de 20 anos, o qual permitiu a identificação das melhores combinações casta/terroir: o habitat ideal onde cada casta consiga exprimir ao máximo todo o seu potencial.

Mandrarossa Merlot DOC é produzido com 100% da casta Merlot que tem origem em Bordeaux, na França. É vinificado em cubas de inox, e ao fim da vinificação descansa por 8 meses também em tanques de inox. Tem coloração vermelho rubi, teor alcoólico de 13,5%, traz aromas intensos e persistentes de frutos vermelhos e negros, como ameixa, amoras, aromas vegetais de ervas aromáticas como tomilho e alecrim, e de aspargos. 

É um vinho seco, apresenta taninos macios, é equilibrado, acidez trazendo frescor na medida certa, e estrutura para conseguir evoluir por mais alguns anos, mas está ótimo para ser bebido agora, na boca é intenso, e persistente. Tem um final de boca longo e saboroso, frutado, e especiado, lembrando amoras, ameixas, alcaçuz e ainda um toque vegetal sutil e agradável.

Combina perfeitamente com queijos de massa dura, sem excesso de sal, massas racheadas com carnes, com molhos vermelhos e molhos de carne, carnes vermelhas, carnes de caça.

Importado e comercializado pela OCAM Vinhos: https://www.ocamvinhos.com.br

@ocamvinhos.com.br

Valor da garrafa em 02/2026 — R$ 158,00

Frete grátis para a cidade do Rio de janeiro para compras acima de R$ 300,00        

Tim Tim     

CRÉDITOS: Foto de abertura por Rohit Tandon no StockSnap

Quem deve provar o vinho: o Sommelier ou você?

O texto da semana passada, A última gota, gerou alguma dúvida sobre quem deveria provar o vinho. Alguns leitores já haviam presenciado outro tipo de rito, onde um Sommelier faz a primeira prova.

Poderia usar um “Taste vin”, como o da foto, sempre de prata, para avaliar a transparência e outras características do vinho a ser servido. Este acessório, embora classudo, não é mais usado, mas quem o exibe é facilmente identificado como o responsável pelos vinhos de uma casa.

Apesar da importância da função de um Sommelier, a decisão final sobre se o vinho escolhido deve ou não ser servido cabe a quem o escolheu.

Vamos começar pela situação mais simples e direta. Uma reunião de amigos acontece em sua residência. Cabe ao anfitrião selecionar o vinho e fazer todo o serviço. Não existe um Sommelier.

Num restaurante, a situação toma outros contornos: há uma reputação em jogo.

Dois cenários são possíveis: alguém traz um vinho de sua adega ou o vinho é escolhido na carta de vinhos do local, muitas vezes sugerido pelo Sommelier.

No primeiro caso, cabe ao Sommelier fazer o serviço e, dependendo do vinho, faz uma primeira prova. Estando tudo certo ou mesmo na pior situação, caso encontre defeitos no que provou, deve fazer uma contraprova com o cliente que trouxe a garrafa.

Na segunda situação, o nome do estabelecimento e sua reputação profissional estão em jogo. Servir um vinho que não está 100% correto pode trazer sérias consequências. O profissional da casa deve estar absolutamente seguro de que seu vinho vai agradar a todos. Só, então, oferece uma prova ao cliente e espera sua aprovação.

Como dizem que o cliente tem sempre razão, logo, a última palavra é dele.

Existem alguns desdobramentos bem interessantes: por exemplo, o que pode acontecer se, neste último cenário, o Sommelier aprova o que vai ser servido, mas o cliente não gosta?

Um ponto que até mesmo enófilos experientes costumam passar por cima é a verdadeira função da prova inicial. Há muitos detalhes que passam despercebidos, quase sempre se resumindo a olfato e paladar e, em menor escala, cor e transparência.

A prova nunca deve ser feita só pelo profissional. O cliente deve ser envolvido desde o início.

Uma situação ideal seria assim: vinho escolhido, o profissional apresenta a garrafa. Nome, produtor e safra devem coincidir com o que foi encomendado.

Mas isto não basta. O nível do líquido na garrafa deve estar em padrões normais, ou seja, no gargalo. Nada de níveis baixos, o que pode indicar uma rolha defeituosa. Neste caso, recuse o vinho.

Estando tudo como se espera, o vinho é aberto, a rolha é oferecida. Este gesto, permite demonstrar que o vinho não está bouchonné (TCA), ou oxidado. Procura-se por defeitos na rolha ou por aromas de papelão molhado, mofo e similares.

Tudo aprovado, o Sommelier faz uma primeira prova e oferece para o cliente, que deve concordar que o vinho está perfeito e pode ser servido.

Esta prova não tem por função indicar se o vinho tem as características organolépticas desejadas pelo comensal. Se ele não gostar do vinho, manda a boa etiqueta que o consuma assim mesmo, e guarde esta experiência para não errar numa nova oportunidade.

Algumas casas aceitam esta devolução, eventualmente, mas não é o padrão.

Saúde!

CRÉDITOS:Tastevin” por Olivier Lemoine (https://Photo-Terroir.fr) está licenciada sob CC BY-SA 3.0.

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