No princípio, todas eram “Vitis Sylvestris”

A história do vinho é muito antiga e cheia de interessantes capítulos. Começa a mais de 8.000 anos, segundo as pesquisas atuais. Mais antiga do que ela, só a da cerveja, reconhecida como a primeira bebida alcoólica fermentada.

Em comum, apenas o fato que ambas teriam sido descobertas acidentalmente.

Para o vinho existir como ele é hoje, o primeiro passo foi domesticar a uva, que era uma fruta selvagem (Sylvestris). Em termos simples, isto significava compreender o seu ciclo de frutificação, a melhor forma de plantar, reproduzir, selecionar os melhores frutos, enfim, o manejo completo.

Após a descoberta da bebida resultante de uvas naturalmente fermentadas, que haviam sido deixadas ao relento, começou um novo capítulo: o que seria necessário para produzir, de forma sistemática, esta nova delícia?

Parte do conhecimento empírico utilizado na produção da cerveja e do pão certamente colaborou neste segundo passo. A arte da fermentação, não era um mistério.

Uma vez popularizada, era necessário criar um nome para esta nova forma de prazer líquido.

A origem mais aceita atualmente tem origem na Georgia, onde foram encontrados os lagares de vinho mais antigos. Ali produziam o “gvino”, ou simplesmente “bebida fermentada”.

Estudos etimológicos indicam que esta denominação, combinada com uma série de palavras semelhantes usadas em diferentes idiomas comuns na Ásia Menor, acabariam desaguando no Grego (oinos) e no Latim (vinum). Destes surgiram no português o prefixo “eno” e a palavra “vinho”.

Depois desta aventura, que continua desenrolando, a uva deixa de ser “sylvestris” e ganha um novo apelido: “vitis vinifera”, ou as uvas que produziam o vinho.

E isto é muito importante.

Neste ponto desta saga, é necessário estabelecer alguns parâmetros. O continente americano ainda não havia sido descoberto. O mundo conhecido naquele tempo se resumia ao que hoje denominamos Europa e Ásia. Portanto, as “vitis vinifera” seriam, obrigatoriamente, as uvas cultivadas naquelas regiões.

Este vinho foi sendo aprimorado paulatinamente. Algumas castas entregavam melhores resultados, levando os produtores a pesquisarem o que as faziam diferentes. Passaram a buscar características ideais como índices de açúcar, acidez e tanino, além de observar o rendimento no campo. Estava aberto o caminho para um subgrupo hoje denominado “castas nobres”.

Após a descoberta do continente americano e sua colonização, novas “vitis” foram encontradas, ainda selvagens e, novamente, domesticadas. Eram diferentes das nobres “vinifera”. Este novo grupo de espécies foi denominado genericamente como “uvas americanas”. O principal tipo é a “vitis labrusca”.

São muito apreciadas como uvas de mesa ou para a produção de sucos. Mas, para a produção de vinhos, suas características não atingiam os padrões consagrados, exigindo uma série de intervenções exógenas, por exemplo, adição de açúcar (chaptalização), para se obter um teor alcoólico aceitável, entre outras.

Por terem sabores fortes e marcantes, algumas características dos vinhos elaborados com estas castas podem incomodar um enófilo mais dedicado. O retrogosto é um deles, muito intenso e duradouro, dificultando a apreciação de outros vinhos ou alimentos.

Fica a eterna pergunta: podemos chamar de vinho as bebidas elaboradas com estas uvas ou com outras frutas?

Tudo vai depender da legislação de cada país produtor. Na Comunidade Europeia a legislação reconhece o vinho de frutas, mas o consumidor, muito conservador, não aceita facilmente. Aqui no Brasil, podem ser vendidos como “vinho de mesa”.

Nem todos os países produzem uvas. É uma planta que exige algumas condições para o seu cultivo. Mas é possível encontrar vinhos de outras frutas ao redor do mundo: vinho de banana (Tenerife), vinho de maçã ou sidra (vários países), vinho de morango (Andaluzia), vinho de jabuticaba (Brasil), vinho de abacaxi (Nigéria, Havaí e Japão), vinho de ameixa (China e Japão), vinho de cereja (Dinamarca), vinho de framboesa (Canadá) e na Suécia existe o vinho de amora.

A decisão, se essas bebidas são um vinho ou não, cabe ao consumidor, embora exista uma regulação burocrática.

Muitos brasileiros, principalmente as mulheres, tem uma maior dificuldade em apreciar os bons tintos por conta da forma como os primeiros vinhos, de uvas americanas, eram comercializados: Rascante ou Suave.

O tipo suave sempre foi o campeão de vendas, o que pode explicar a tendência dos brasileiros em preferir tintos “demi-sec” e brancos da uva Moscatel.

Algumas curiosidades:

A tentativa de cultivar uvas americanas, na Europa, resultou na famosa praga da Filoxera que dizimou quase todos os vinhedos do velho mundo.

Por outro lado, as raízes das uvas americanas passaram a servir de “cavalo” para a enxertia das uvas viníferas, salvando estas espécies da temível praga. As “americanas” eram mais robustas e imunes ao devastador inseto.

Ainda existem vinhedos em “pé franco” (sem enxertia). Portugal, Chile e Argentina se destacam.

Como não poderia ser de outra forma, no nosso país os vinhos “de mesa” sempre foram os campeões de vendas, mesmo quando criavam nomes para as uvas, como “Bordô”, numa nítida tentativa de vender gato por lebre. Típico…

Para um expressivo grupo de pesquisadores, só existem dois tipos de bebidas alcoólicas: as cervejas e os destilados.

Sendo assim, o nosso querido vinho, seja do que for, se torna mais uma “cerva”.

Saúde!

Dica da Sandra Cordeiro: Mandrarossa Merlot 2021

O vinho da semana é italiano da Sicília, produzido pela Cantine Settesoli, cooperativa fundada em 1958, hoje tem mais de 2000 membros, produz a maior variedade de uvas da Sicília. Possui 36 cultivares que correspondem a 6000 hectares vinhedos, e 7% da área vitivinícola da ilha.

1000 desses hectares são dedicados ao cultivo orgânico, adotando os conceitos de comunidade, união e cooperação, juntamente ao crescimento, uso correto e econômico da energia, preservação da natureza e sustentabilidade.

Em 2014, recebeu o Prêmio Ecofriendly da Vinubuoni d`Italia em colaboração com a Verallia-Saint Gobain pelo compromisso verde.

A Settesoli tem o foco na qualidade dos seus vinhos, e foi uma das pioneiras a investir na própria linha de engarrafamento e exportação, numa época em que a vitivinicultura siciliana era basicamente voltada para a venda de vinho a granel.

O Mandrarossa Merlot, faz parte de um projeto, uma marca de vinho 100% siciliana, que nos proporciona conhecer a expressão autêntica da biodiversidade da ilha. Foi lançada em 1999, após um longo e minucioso estudo de 20 anos, o qual permitiu a identificação das melhores combinações casta/terroir: o habitat ideal onde cada casta consiga exprimir ao máximo todo o seu potencial.

Mandrarossa Merlot DOC é produzido com 100% da casta Merlot que tem origem em Bordeaux, na França. É vinificado em cubas de inox, e ao fim da vinificação descansa por 8 meses também em tanques de inox. Tem coloração vermelho rubi, teor alcoólico de 13,5%, traz aromas intensos e persistentes de frutos vermelhos e negros, como ameixa, amoras, aromas vegetais de ervas aromáticas como tomilho e alecrim, e de aspargos. 

É um vinho seco, apresenta taninos macios, é equilibrado, acidez trazendo frescor na medida certa, e estrutura para conseguir evoluir por mais alguns anos, mas está ótimo para ser bebido agora, na boca é intenso, e persistente. Tem um final de boca longo e saboroso, frutado, e especiado, lembrando amoras, ameixas, alcaçuz e ainda um toque vegetal sutil e agradável.

Combina perfeitamente com queijos de massa dura, sem excesso de sal, massas racheadas com carnes, com molhos vermelhos e molhos de carne, carnes vermelhas, carnes de caça.

Importado e comercializado pela OCAM Vinhos: https://www.ocamvinhos.com.br

@ocamvinhos.com.br

Valor da garrafa em 02/2026 — R$ 158,00

Frete grátis para a cidade do Rio de janeiro para compras acima de R$ 300,00        

Tim Tim     

CRÉDITOS: Foto de abertura por Rohit Tandon no StockSnap

Quem deve provar o vinho: o Sommelier ou você?

O texto da semana passada, A última gota, gerou alguma dúvida sobre quem deveria provar o vinho. Alguns leitores já haviam presenciado outro tipo de rito, onde um Sommelier faz a primeira prova.

Poderia usar um “Taste vin”, como o da foto, sempre de prata, para avaliar a transparência e outras características do vinho a ser servido. Este acessório, embora classudo, não é mais usado, mas quem o exibe é facilmente identificado como o responsável pelos vinhos de uma casa.

Apesar da importância da função de um Sommelier, a decisão final sobre se o vinho escolhido deve ou não ser servido cabe a quem o escolheu.

Vamos começar pela situação mais simples e direta. Uma reunião de amigos acontece em sua residência. Cabe ao anfitrião selecionar o vinho e fazer todo o serviço. Não existe um Sommelier.

Num restaurante, a situação toma outros contornos: há uma reputação em jogo.

Dois cenários são possíveis: alguém traz um vinho de sua adega ou o vinho é escolhido na carta de vinhos do local, muitas vezes sugerido pelo Sommelier.

No primeiro caso, cabe ao Sommelier fazer o serviço e, dependendo do vinho, faz uma primeira prova. Estando tudo certo ou mesmo na pior situação, caso encontre defeitos no que provou, deve fazer uma contraprova com o cliente que trouxe a garrafa.

Na segunda situação, o nome do estabelecimento e sua reputação profissional estão em jogo. Servir um vinho que não está 100% correto pode trazer sérias consequências. O profissional da casa deve estar absolutamente seguro de que seu vinho vai agradar a todos. Só, então, oferece uma prova ao cliente e espera sua aprovação.

Como dizem que o cliente tem sempre razão, logo, a última palavra é dele.

Existem alguns desdobramentos bem interessantes: por exemplo, o que pode acontecer se, neste último cenário, o Sommelier aprova o que vai ser servido, mas o cliente não gosta?

Um ponto que até mesmo enófilos experientes costumam passar por cima é a verdadeira função da prova inicial. Há muitos detalhes que passam despercebidos, quase sempre se resumindo a olfato e paladar e, em menor escala, cor e transparência.

A prova nunca deve ser feita só pelo profissional. O cliente deve ser envolvido desde o início.

Uma situação ideal seria assim: vinho escolhido, o profissional apresenta a garrafa. Nome, produtor e safra devem coincidir com o que foi encomendado.

Mas isto não basta. O nível do líquido na garrafa deve estar em padrões normais, ou seja, no gargalo. Nada de níveis baixos, o que pode indicar uma rolha defeituosa. Neste caso, recuse o vinho.

Estando tudo como se espera, o vinho é aberto, a rolha é oferecida. Este gesto, permite demonstrar que o vinho não está bouchonné (TCA), ou oxidado. Procura-se por defeitos na rolha ou por aromas de papelão molhado, mofo e similares.

Tudo aprovado, o Sommelier faz uma primeira prova e oferece para o cliente, que deve concordar que o vinho está perfeito e pode ser servido.

Esta prova não tem por função indicar se o vinho tem as características organolépticas desejadas pelo comensal. Se ele não gostar do vinho, manda a boa etiqueta que o consuma assim mesmo, e guarde esta experiência para não errar numa nova oportunidade.

Algumas casas aceitam esta devolução, eventualmente, mas não é o padrão.

Saúde!

CRÉDITOS:Tastevin” por Olivier Lemoine (https://Photo-Terroir.fr) está licenciada sob CC BY-SA 3.0.

A última gota

Os franceses a denominam “la dernière goutte”, uma gotinha tão preciosa que existe uma série de lendas e superstições sobre ela.

Tudo se resume a um simples gesto, hoje quase uma arte: compartilhar uma garrafa de vinho.

Pode parecer corriqueiro, mas nem sempre dividir uma garrafa, seja entre um casal ou com um grupo de amigos, se resume a tirar a rolha e distribuir o conteúdo igualmente.

A primeira e importante questão, que está na base de tudo, é: quantas pessoas são servidas com uma garrafa?

Considerando-se que o volume tradicional de uma taça de vinho gira em torno de 150 ml e lembrando que não deve preenchida totalmente, e a capacidade de uma garrafa é de 750 ml, podemos estimar que entre 6 a 7 pessoas poderão ser servidas numa rodada.

Se for uma refeição longa, mais garrafas serão necessárias para não faltar vinho. Este cálculo pode variar para espumantes ou vinhos de sobremesa.

A questão seguinte impõe uma condição: onde será esta degustação. Se for num restaurante, devemos pensar em levar o vinho ou comprar na carta do local.

Cada uma destas opções carrega um simbolismo. Levar um vinho demonstra quem você é: um apreciador que vai compartilhar algo muito especial, da sua adega, com pessoas que merecem e sabem apreciar esta distinção.

Selecionar um vinho na carta sugere que todos estão no mesmo pé de igualdade. Façam uma escolha que eleve o nível deste encontro, evitando os vinhos mais caros. Pode parecer puro exibicionismo.

Os próximos passos, abrir, provar e servir, são fundamentais para que esta partilha do vinho seja um sucesso. Novamente, o local escolhido vai ditar como estas etapas serão cumpridas. Se for na sua residência, a questão perde sentido e a resposta é automática.

Já num restaurante, principalmente se for um encontro a dois, tudo muda de figura.

Obviamente, o gesto de sacar a rolha caberá a um Sommelier ou Garçom. A prova deve ser feita por quem trouxe ou escolheu o vinho. A aprovação, pode ser sinalizada com um sutil movimento da cabeça ou com um gesto da mão, indicando o início do serviço.

Este deve ser feito seguindo o sentido horário. As mulheres devem ser servidas primeiro e, por último, quem provou o vinho, não importando se for um homem ou uma mulher.

A partir desta primeira rodada, o Garçom pode continuar servindo, sempre que uma taça esvaziar, ou esta função pode ser assumida por quem trouxe, ou escolheu o vinho.

Isto terá uma maior importância se for num encontro a dois: nem sempre a presença do Garçom é desejada.

No Japão, a cultura local entende que a amizade é uma forma de compartilhamento, logo, num encontro mano a mano, deve-se servir o seu par que, por sua vez, vai lhe servir retribuindo a gentileza. Nunca preencha a sua própria taça, pode parecer grosseiro.

Ao chegar no fim da garrafa, mais um dilema: para quem servimos “la dernière goutte”?

A lenda mais conhecia afirma que aquele que a receber se casará em breve.

Em algumas culturas, a última gota não deve ser consumida. Melhor deixar uma pequena quantidade na taça, demonstrando que o convidado não é uma pessoa ávida.

Existem países onde esta última gota nunca é servida: seria uma descortesia.

Se estiverem na Itália, acompanhados por uma bela ragazza, a coisa pode ficar bem estranha. Este charmoso gesto é malvisto e considerado um sinal de azar: caso a moça for solteira, pode nunca encontrar o seu par…

Saúde!

Dica de Vinho: agora a cargo da Sommelière Sandra Cordeiro, formada e homologada pela Associação Brasileira de Sommelier Rio de Janeiro.

“Comecei a estudar vinho por curiosidade, sempre gostei de vinhos e queria conhecer um pouco sobre o assunto, porém no decorrer do curso eu me apaixonei mais a cada dia, ao ponto de abandonar a minha profissão que me trouxe muitas alegrias (sou professora de Educação Física), para trabalhar com vinho, hoje além de dar aulas na ABS-Rio, sou analista de negócios na OCAM Vinhos (Importadora e Distribuidora de vinhos), dou consultorias para montagem de cartas de restaurantes, palestras, guio jantares harmonizados, e agora darei dicas de vinhos neste blog.”

O vinho de hoje é o Aliança Tannat, da Nova Aliança, vinícola cooperativa com 97 anos de existência, que, na verdade, é o resultado da união de 5 cooperativas tradicionais do Rio grande do Sul, com mais de 600 famílias em seu quadro de cooperados.

Esta história de tradição e inovação começou com a Cooperativa Vinícola São Victor, fundada em novembro de 1929, em Caxias do Sul, depois veio a São Pedro de Flores da Cunha em 1930, a Linha Jacinto de Farroupilha, a Aliança de Caxias do Sul em1931, juntamente com a Santo Antônio, de Nova Pádua, também em 1931. Esta união formou uma grande comunidade, ou melhor, uma grande família com valores, e muitas histórias da imigração italiana e sua descendência, coragem e espírito de cooperação que culmina na produção de excelência.

Com sede em Flores da Cunha, hoje conta com vários terroirs na Serra e na Campanha Gaúcha, e duas marcas que englobam várias linhas de produtos.

O nosso vinho, está na marca Nova Vinhos e Espumantes, que tem em seu escopo as seguintes linhas: Wave, Santa Colina, Aliança, Nova e Cerro da Cruz, cada uma oferecendo uma bela variedade de produtos.

Então, vamos ao vinho?

O Aliança Tannat 2023, da Nova Aliança Vinhos e espumantes, é um belo exemplar da qualidade da Tannat na Campanha Gaúcha, e da qualidade crescente dos vinhos brasileiros.

É produzido 100% com a Tannat, as uvas são colhidas manualmente, desengaçadas, teor alcoólico de 13,9%, e em seu processo de amadurecimento estagia por 3 meses em barricas de carvalho americano de tosta média e de segundo uso, aqui o objetivo é o afinamento do vinho e a manutenção dos aromas e sabores da fruta. 

Tem coloração vibrante com nuances violáceas, aromas intensos de frutos negros bem maduros, com destaque a amoras em geleia, especiarias doces como baunilha e um sutil toque de café. 

Apresenta bom volume em boca, com taninos macios, e boa estrutura e boa persistência, proporcionando um final prolongado e frutado. 

Acompanha muito bem carnes vermelhas assadas, e se for uma carne de sabor mais intenso como a de cordeiro pode ser até grelhada (eu particularmente degustei com uma bela picanha de cordeiro grelhada, e ficou ótimo), vai bem também com massas com molhos vermelhos, e queijos maduros.

PS: Em 2024 recebeu a medalha de ouro no concurso Vinus na Argentina.

Para adquirir este vinho: Custo em 02/26 — R$ 79,00.

Pedidos pelo WhatsApp:

(21) 97290-2700

(21) 99032-4279

CRÉDITOS: Imagem de María Ferntanda Pérez por Pixabay

O vinho muda conforme a geração?

O vinho enfrenta uma crise de consumo em todo o mundo. Segundo os especialistas, as novas gerações, como a do Milênio (1981 – 1996) ou a Geração Z (1997 – 2010), não são grandes consumidores como eram os “Baby boomers” (1946 – 1964) ou os da Geração X (1965 – 1980).

Nós, os avós de hoje, degustávamos uma taça de vinho, ou outras bebidas alcoólicas, quase como um ritual. Celebrava o final de um dia de intenso trabalho, o conquistar de uma meta, o crescimento da família ou da fortuna.

As novas gerações têm outras preocupações. Ao que tudo indica, não consomem só por prazer, há outras implicações embutidas: quem produziu, onde produziu e como produziu.

Para comprar uma garrafa, é preciso mais que um rótulo bonito. É quase uma obrigação se certificarem de que as rígidas regras de preservação ambiental foram seguidas durante o cultivo das uvas.

A vinificação deve ser isenta de químicos exógenos, as barricas de carvalho só podem vir de florestas sustentáveis e as garrafas e outras embalagens precisam ser produzidas com materiais 100% recicláveis ou a partir deles.

Vender uma garrafa de vinho virou uma tarefa complexa.

Como se isto não fosse bastante complicado, esta nova turma de apreciadores é avessa ao que se convencionou chamar de “tradições”. Desta forma, enxergam determinadas castas, regiões e produtores consagrados como algo ultrapassado. Estão em busca do novo, do desconhecido, do não experimentado.

É nesta onda que aparecem, com força, os vinhos “naturais” ou de pouca intervenção, que se contrapõem aos tradicionais que, dentro desta filosofia, seriam “manipulados” para obterem bons resultados.

Castas como as clássicas Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Chardonnay e Sauvignon Blanc, deixam de ser o “mainstream” e, nos seus lugares, surgem Chenin Blanc, Alvarinho, Dethorna, Anglianico, Primitivo ou Petit Syrah.

Outro ponto de vital importância para estes jovens consumidores é o teor alcoólico: tem que ser drasticamente menor que os valores atuais.

Nada de bombas calóricas e encorpadas. A preferência atual são vinhos leves, muito aromáticos e frutados. A maior preocupação é com saúde e bem-estar. Querem saber, em detalhes, tudo que será absorvido por seus organismos.

Cada geração tem um propósito de vida. Enquanto os “Baby Boomers” tinham como pano de fundo o fim da guerra, o que se traduzia em uma forte preocupação com segurança e sobrevivência, a “Geração Z” está preocupada com a saúde mental e estabilidade climática.

Para cada época um vinho de cabeceira significante: cortes bordaleses, cabernet do novo mundo, Chianti, Barolo, vinhos do leste europeu e, por que não, vinhos asiáticos, que podem ser um novo trend.

Para os verdadeiros enófilos, o leque ampliou e muita coisa boa surgiu no horizonte.

Resta saber se os produtores entenderam a mensagem. Há espaço para tudo isto.

Saúde!

CRÉDITOS: Imagem de starline no Freepik

Pontos ou notas de degustação: qual é a sua?

Escolher um vinho, principalmente quando é uma novidade ou um rótulo que nunca experimentamos, nos leva a uma encruzilhada clássica: confiamos nos pontos atribuídos por nosso crítico favorito ou acreditamos nas bem escritas notas de degustação, muitas vezes exibidas nos contrarrótulos?

Robert Parker, talvez o crítico de vinhos mais conhecido e respeitado, foi o grande divulgador do sistema de 100 pontos. Não foi o criador, mas o utilizou com tal maestria que, atualmente, um vinho de 100 pontos ferve a imaginação de qualquer um.

Curiosamente, esta escala tem um limite: não existe nota menor que 50 pontos, o equivalente a um vinho sofrível.

Existem outros sistemas, de 20, 10 e até 5 pontos, como o utilizado pelo popular Vivino.

Seria isto suficiente para escolhermos a nossa próxima garrafa?

Uma das grandes decepções para um enófilo é abrir um destes super rótulos e não gostar. Não era o vinho que o nosso paladar esperava.

Talvez seja um preço caro, que se paga por confiar, apenas, nos pontos. Precisamos de mais informações que auxiliem nesta tomada de decisão.

Não sei quem cunhou esta máxima, mas cabe perfeitamente nesta situação: “Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo.”

Notas de degustação, quando deixam de ser enigmáticas e escritas de forma clara e direta, são, quase sempre, “a frase certa”. O busílis é quem as redigiu.

Aqui está um bom exemplo, as notas do clássico Quinta do Vale Meão, sempre com altíssimas pontuações:

“Visual rubi escuro, intenso e profundo. No olfato, é complexo e elegante, com destaque para frutas pretas maduras, toques balsâmicos, especiarias e nuances de carvalho, chocolate e tabaco. O paladar se apresenta encorpado, rico e denso, com taninos aveludados e presentes, acidez equilibrada e final longo, complexo e mineral.”

Esta descrição consta da ficha técnica elaborada pela vinícola. Uma redação bem elaborada, focada em consumidores que “já sabem do que se trata”.

Para os iniciantes, “notas balsâmicas” e “nuances de carvalho, chocolate e tabaco” são descritivos um tanto enigmáticos, que nada auxiliam na hora de decidir.

Será que conseguiriam perceber estes descritores?

Existem outras expressões, largamente utilizadas nestas notas, como “chão de bosque”, “pedra molhada”, “xixi de gato” e outras pérolas que nos deixam em dúvida se o real propósito é nos fazer rir ou chorar, em vez de comprar o vinho.

Mesmo degustadores experimentados nem sempre conseguem perceber estas nuances descritas, sejam por críticos renomados, enólogos das grandes vinícolas ou por jornalistas especializados.

Cada uma destas versões vai traduzir o que cada um experimentou. Não se pode universalizar estas opiniões.

Obviamente, os descritores mais intensos são mais fáceis de serem percebidos, mas algo como “a sombra da lua no bosque adormecido” é melhor descartar.

Assim como o gosto de cada um, que é particular e único, as notas de degustação, soltas e sem a companhia de uma nota ou pontuação, também se tornam únicas, quando deveriam ser mais universais.

A única recomendação viável é: sejam fiéis a uma mesma fonte de informação. Habituem-se a compará-las com as suas próprias observações, criando um marco para ser usado em outras ocasiões.

Saúde!

CRÉDITOS: Imagem de Artur Shamsutdinov por Pixabay

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