A coluna desta semana

Eufemismos e Metáforas no Mundo do Vinho

8 de outubro de 2026 · por Tuty · Comente

Descrever um vinho não é tarefa fácil — nem mesmo para os profissionais. Dos nossos cinco sentidos, dois são naturalmente menos desenvolvidos: olfato e paladar. Essa limitação biológica nos obriga a “emprestar” adjetivos de outras áreas, criando um vocabulário repleto de metáforas e eufemismos.

O resultado? Um universo de termos que, embora úteis, muitas vezes confundem mais do que esclarecem.

Quando um crítico menciona aromas de cereja em um vinho, não significa que a fruta tenha sido adicionada à bebida. Na verdade, esses descritores são associações mentais provocadas por compostos químicos presentes no vinho, como ésteres (responsáveis por notas frutadas), terpenos (aromas florais) ou pirazinas (notas herbáceas). O cérebro humano, treinado ou não, faz conexões entre esses compostos e memórias olfativas — daí surgem as metáforas.

O problema é quando essas descrições ultrapassam o limite do compreensível e beiram o exagero. Um exemplo clássico é a resenha do Orchis 2010, da Tribouley:

“Desde que o Orchis 2010 de Tribouley foi cortado, como de costume, já na época da colheita (field blend); depois estava contido em apenas dois demi-muids e uma única barrique; e como havia completado há muito tempo sua fermentação maloláctica, não foi difícil obter uma perspectiva clara sobre esse vinho jovem. Além disso, o conjunto resultante era impressionante demais para não ser compartilhado!

Sândalo, canela, bergamota e uma evocação fumegante de pedra esmagada tingem o concentrado doce de framboesa preta no nariz; em seguida, seguem em um paladar de riqueza textural já aveludada, mas com intensidade vibratória e uma refrescância primária positivamente revigorante. Notas de iodo, acelga, casca de camarão e sal, juntamente com um sentido inefável de impacto mineral cristalino, adicionam indução de saliva e uma interação complexa deslumbrante ao final soberbamente longo. Espere pelo menos uma dúzia de anos de fascínio.” (*)

O texto, embora tecnicamente detalhado, soa pretensioso e quase anedótico. Para leigos, pode parecer uma linguagem inacessível; para iniciados, um exercício de erudição desnecessária. O desafio está em equilibrar precisão e clareza — algo nem sempre alcançado.

Alguns termos se tornaram tão populares que viraram um código entre os amantes do vinho. Selecionamos alguns dos mais curiosos, explicando o que realmente significam:

Defeitos (ou não)

Aromas e texturas

Estados do vinho

O risco de utilizar estes códigos, porém, é alienar quem está começando. Um iniciante pode se sentir intimidado ao ouvir que um vinho tem “notas de casca de camarão” ou “toques de iodo”.

A solução?

Equilíbrio: usar metáforas com moderação e sempre explicar o que elas significam.

O mundo do vinho está cheio de expressões curiosas. Se você conhece outras — ou já se deparou com descrições que mais confundiram do que ajudaram —, compartilhe com a gente!

Saúde!

CRÉDITOS: imagem obtida no ChatGPT imagens

(*) Texto original neste link: Wine Library

Edições anteriores

Uma nova crônica toda semana, desde 2011.

Desvendando o jargão dos enófilos

Quem escreve sobre vinhos inevitavelmente recorre a termos técnicos — o chamado ‘jargão enológico’. Essa linguagem própria não é exclusiva do universo do vinho: advogados, médicos e até…

Ler a coluna →

Compreendendo a denominação VDF (Vin de France)

Que o mundo em que vivemos está passando por profundas mudanças, ninguém pode negar. O clima talvez seja a maior delas, trazendo, como consequência, uma série de implicações…

Ler a coluna →

Usando IA como Sommelier

Imaginemos a seguinte cena: chegamos num restaurante, pedimos o cardápio e a carta de vinhos e temos que decidir o que vamos comer e o que vamos beber.…

Ler a coluna →

Escolher um vinho intimida?

Comprar um vinho, seja no mercado, numa loja especializada ou mesmo escolher um rótulo que vai acompanhar sua refeição no restaurante, pode trazer arrepios aos menos preparados. Também…

Ler a coluna →

Receba o Boletim em seu e-mail

Toda semana, a nova coluna chega até você. Sem custo, sem propaganda — apenas boas histórias de vinho.

Você pode cancelar quando quiser.

Retrato de Tuty, autor do Boletim do Vinho

Quem escreve

João Carlos Pinheiro, o Tuty

Enófilo estudioso e Barista, Tuty expandiu seus conhecimentos nos principais polos produtores do mundo. Dá aulas, palestras e organiza almoços e jantares harmonizados.

Conheça o autor