
Os franceses a denominam “la dernière goutte”, uma gotinha tão preciosa que existe uma série de lendas e superstições sobre ela.
Tudo se resume a um simples gesto, hoje quase uma arte: compartilhar uma garrafa de vinho.
Pode parecer corriqueiro, mas nem sempre dividir uma garrafa, seja entre um casal ou com um grupo de amigos, se resume a tirar a rolha e distribuir o conteúdo igualmente.
A primeira e importante questão, que está na base de tudo, é: quantas pessoas são servidas com uma garrafa?
Considerando-se que o volume tradicional de uma taça de vinho gira em torno de 150 ml e lembrando que não deve preenchida totalmente, e a capacidade de uma garrafa é de 750 ml, podemos estimar que entre 6 a 7 pessoas poderão ser servidas numa rodada.
Se for uma refeição longa, mais garrafas serão necessárias para não faltar vinho. Este cálculo pode variar para espumantes ou vinhos de sobremesa.
A questão seguinte impõe uma condição: onde será esta degustação. Se for num restaurante, devemos pensar em levar o vinho ou comprar na carta do local.
Cada uma destas opções carrega um simbolismo. Levar um vinho demonstra quem você é: um apreciador que vai compartilhar algo muito especial, da sua adega, com pessoas que merecem e sabem apreciar esta distinção.
Selecionar um vinho na carta sugere que todos estão no mesmo pé de igualdade. Façam uma escolha que eleve o nível deste encontro, evitando os vinhos mais caros. Pode parecer puro exibicionismo.
Os próximos passos, abrir, provar e servir, são fundamentais para que esta partilha do vinho seja um sucesso. Novamente, o local escolhido vai ditar como estas etapas serão cumpridas. Se for na sua residência, a questão perde sentido e a resposta é automática.
Já num restaurante, principalmente se for um encontro a dois, tudo muda de figura.
Obviamente, o gesto de sacar a rolha caberá a um Sommelier ou Garçom. A prova deve ser feita por quem trouxe ou escolheu o vinho. A aprovação, pode ser sinalizada com um sutil movimento da cabeça ou com um gesto da mão, indicando o início do serviço.
Este deve ser feito seguindo o sentido horário. As mulheres devem ser servidas primeiro e, por último, quem provou o vinho, não importando se for um homem ou uma mulher.
A partir desta primeira rodada, o Garçom pode continuar servindo, sempre que uma taça esvaziar, ou esta função pode ser assumida por quem trouxe, ou escolheu o vinho.
Isto terá uma maior importância se for num encontro a dois: nem sempre a presença do Garçom é desejada.
No Japão, a cultura local entende que a amizade é uma forma de compartilhamento, logo, num encontro mano a mano, deve-se servir o seu par que, por sua vez, vai lhe servir retribuindo a gentileza. Nunca preencha a sua própria taça, pode parecer grosseiro.
Ao chegar no fim da garrafa, mais um dilema: para quem servimos “la dernière goutte”?
A lenda mais conhecia afirma que aquele que a receber se casará em breve.
Em algumas culturas, a última gota não deve ser consumida. Melhor deixar uma pequena quantidade na taça, demonstrando que o convidado não é uma pessoa ávida.
Existem países onde esta última gota nunca é servida: seria uma descortesia.
Se estiverem na Itália, acompanhados por uma bela ragazza, a coisa pode ficar bem estranha. Este charmoso gesto é malvisto e considerado um sinal de azar: caso a moça for solteira, pode nunca encontrar o seu par…
Saúde!
CRÉDITOS: Imagem de María Ferntanda Pérez por Pixabay







