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Uma casta, um vinho – Mencía

Não se pode falar sobre essa varietal sem associar uma região da Espanha, Bierzo, e um produtor, Alvaro Palácios, a quem coube elevar os vinhos elaborados com essa uva a uma outra categoria.

Não é exclusiva nem de um e nem de outro: é uma casta ibérica. Diversos autores e pesquisadores divergem, muito, sobre suas origens.

Durante muitos anos acreditou-se que era uma casta clone da Cabernet Franc, surgida na Espanha. Mais tarde, já com o auxílio de análises por DNA, conclui-se que era a mesma casta conhecida por Jaén, na região do Dão, Portugal. Especulava-se que peregrinos, retornando de Santiago de Compostela, a teriam plantado em território português.

A descoberta mais recente, com o auxílio de moderníssimas técnicas de análise do perfil genético das plantas, concluiu que é uma casta portuguesa, com certeza, surgida através do cruzamento, natural, das uvas Alfrocheiro e Patorra, típicas da região do Dão.

A área plantada, somando os dois países, alcança 11.600 hectares. A maior concentração está em Bierzo. Sempre foi usada na elaboração de vinhos de mesa até que Alvaro Palacios redescobriu alguns antigos vinhedos de altitude. Aplicou métodos de vinificação atuais e obteve pequenas joias.

Críticos colocam os vinhos desta casta entre um Pinot Noir e um Syrah. Apresentam um corpo médio a encorpado, com características florais e de frutas vermelhas como Romã, Ginja e Framboesa. Os taninos estão presentes, sempre muito suaves e domados. Amadurece com grande dignidade.

Por ser um vinho bem gastronômico, a paleta de harmonizações é ampla incluindo variados pratos de carne, bovina, suína, ovina, aves e caça, elaboradas de diversas maneiras; queijos amarelos duros, como o Manchego ou macios como o Serra da Estrela e Azeitão.

Especiarias também não são problemas para este versátil vinho: pimenta negra, cravo, anis, cardamomo, alecrim, alho, cebola e muito mais. No capítulo dos vegetais enfrenta até uma difícil alcachofra.

É pau para toda obra!

Escolhemos um vinho espanhol para representar esta interessante casta:

Pétalos del Bierzo, da vinícola Descendientes de J. Palacios.

Elaborado com 100% Mencía por Alvaro Palcios e seu primo Ricardo Peréz, é uma delícia para ser degustado. Potente, encorpado e muito elegante, recebeu 92 pontos do crítico Antonio Galloni, na safra de 2015. Um dos melhores “best buys” da Espanha.

Saúde e bons vinhos!

Créditos: foto de abertura – https://glossary.wein.plus/mencia

Repensando as harmonizações

Combinar vinhos e alimentos ou harmonizar, como preferem alguns Sommeliers e Enófilos mais dedicados, é quase considerado como uma arte, para este grupo. Por outro lado, há quem entenda que embora haja o vinho envolvido, essas combinações pertencem muito mais ao mundo da restauração do que ao universo da vinificação.

Eis alguns fatos para serem avaliados:

– O cultivo de vinhas e a produção de vinhos é uma atividade muito antiga. Arqueólogos já demonstraram que uvas eram plantadas há cerca de 6.000 anos a.C.;

– Os restos do que seria uma primeira vinícola foram datados como sendo de 4.100 anos a.C.;

– As primeiras notícias sobre tentativas de combinar pratos de um restaurante com um vinho específico vem da França, no século XIX, quando os serviços de restauração se tornaram populares;

– A primeira regra de harmonização e mãe de muitas outras é a que estipulava: “vinho e comida combinam se tiverem a mesma origem”.

Era uma regra bem rígida e limitada que impunha uma regionalização, quem sabe, inevitável para aquela época. De certa forma, seria impensável juntar os clássicos pratos da culinária francesa com nobres vinhos italianos, por exemplo.

Esticando um pouquinho esse conceito, vamos entender a origem da segunda regra mais comum: carnes com tintos e peixes com brancos. Novamente, preceitos que impunham uma rígida restrição.

A Europa ainda se considerava o centro cultural e até mesmo gastronômico do mundo. Podia ditar suas vontades e costumes.

Nos dias de hoje, até mesmo um observador desatento vai constatar que tanto a gastronomia quanto a enologia evoluíram de uma maneira incrível, abrangendo outras culturas e trazendo novos alimentos, novas técnicas, novas castas para serem vinificadas e, o mais importante, novos “terroirs”, nos obrigando a uma releitura da regra original.

Como reescrevê-la para incluir a culinária fusion, por exemplo, que propositadamente mistura, numa mesma refeição, alimentos e técnicas de diversos lugares? Talvez seja melhor não pensar mais nela. Como alternativa, vamos usar estas regras clássicas como se fossem nada mais que uma “vaga ideia”.

Abre-se um campo para novas combinações que vão incluir os novos estilos de vinificação, que já dominam o mercado, como os vinhos naturais, os vin jaune, rótulos de países que nunca foram considerados nos concursos e análises de críticos ou que apenas ficaram esquecidos, como a Grécia, Croácia, Eslovênia e muitos outros.

Há muito o que descobrir e inovar.

Os melhores e mais atuais restaurantes do mundo romperam com quase todas as tradições do ramo. Toalhas e guardanapos de linho branco, impecáveis, foram substituídas por jogos americanos de papel e descartáveis. Talheres de prata deixaram de existir, usa-se aço inoxidável ou madeira.

Pratos de porcelana?

Para quê?

Em seu lugar, materiais inovadores e formatos absolutamente inesperados, isso quando não lhe servirem a refeição diretamente no tampo da mesa e sugerirem que se usem os dedos da mão…

Faz sentido harmonizar ou regras de harmonização?

Entretanto, a busca por uma maior satisfação nas refeições continua e a cada momento novas formas de entreter olfato e paladar são criadas.

Para desfrutar o nosso vinho teremos que abandonar as regras mais rígidas e aceitar essas novas formas de desafiar os nosso sentidos. É um caminho sem volta.

Saúde e bons vinhos, harmonizados na moda antiga ou simplesmente livres e soltos.

Créditos: Foto de abertura por Creative Vix no Pexels

O vinho pode combater a COVID?

É quase inacreditável que, ao mesmo tempo em que estamos num período da história onde a alta tecnologia é a grande estrela, tenhamos nos tornados reféns da desinformação.

A situação é tão grave que já há pesquisadores que cunharam a frase “era da desinformação” para que os futuros historiadores classifiquem e comparem com outros períodos da vida humana, como os da era Mesozoica: Triássico, Jurássico e Cretáceo. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

A tecnologia tem sua parcela de culpa nisso tudo, afinal, a busca por uma maior facilidade e velocidade para resolver as tarefas do dia a dia foi a grande impulsionadora das chamadas “redes sociais”, um tipo de mal necessário que acabou com o nosso bom senso e a capacidade fazermos uma análise crítica do que nos é oferecido ali.

Há pessoas que acreditam, piamente, que só nestes ambientes é que se encontra a verdade, como um certo Dignitário, lá no Planalto Central: o resto é lixo!

Por ser considerado um especialista quando o assunto é vinho, fui bombardeado com mais de uma centena de cópias, de uma mesma mensagem, junto com as mais curiosas manifestações de aprovação: a de que “consumir vinhos combateria a epidemia de COVID”.

Tudo bem que este “oba oba” certamente proporcionou alguns instantes de pura felicidade para esses leitores. Só que nenhum deles passou da manchete sensacionalista. Ninguém se preocupou em buscar uma fonte original para, pelo menos, ter uma ideia do que se estava falando.

Pior, não deram importância para uma conjugação do verbo poder, na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo: PODE.

Copiado de um dicionário da nossa língua:” Ação de poder, de ter capacidade, direito ou autoridade para conseguir ou para realizar alguma coisa”.

Perfeito! Creio que ficou claro, para nossos leitores, que PODE não significa que VAI, não é uma CERTEZA: tem a capacidade, mas outras condições são necessárias.

Esta pesquisa, que começou em 2003, quando da epidemia de SARS, descobriu que, em laboratório, o ácido tânico tinha capacidade para inibir duas enzimas importantes do coronavírus da SARS.

A epidemia passou e a pesquisa foi abandonada.

Recentemente, pesquisadores de um centro médico em Taiwan retomaram esses estudos e confirmaram que o ácido, em questão, agia igualmente no coronavírus da COVID, nas condições obtidas em laboratório.

Aqui começa a confusão que tentarei esclarecer:

– O ácido tânico e taninos não são a mesma coisa;

– Taninos são polifenóis, um composto de origem vegetal que pode ser encontrado em diversos alimentos como nas cascas da banana, caqui, maçã, uva, em sementes como nozes e castanhas e em algumas bebidas como chá e o vinho;

– Taninos contêm quantidades variáveis de ácido tânico e nem todos os taninos são iguais. No caso do vinho, tudo dependerá da casta vinificada, da forma de elaboração, principalmente do tipo e tempo de maceração empregada e, até mesmo, do famoso terroir;

– Inferir que os taninos do vinho PODEM combater a COVID é uma afirmativa, no mínimo, imprecisa;

– Em tese, sabendo que há um pouco de ácido tânico nos vinhos, seria viável supor que um consumo controlado da nossa bebida favorita teria algum efeito terapêutico.

Mas…

1 – Segundo alguns pesquisadores que tentaram responder a essa questão, a quantidade mínima de vinho, altamente tânico, que uma pessoa, com boa taxa de absorção de taninos (varia muito), deveria consumir para obter algum efeito terapêutico seria 1 litro por dia!

Se optarem por esse caminho, aconselho ter, sempre à mão, o endereço da reunião do AA mais próxima de suas residências.

2 – Isso tudo só faria sentido se você estivesse CONTAMINADO – o que não é desejado em nenhuma hipótese. A pesquisa afirma, categoricamente, que “não existe efeito preventivo no consumo desta substância”.

Resumindo: se você desenvolver os temidos e mortais sintomas vai degustar, na veia, uma grande coquetel de medicamentos, mas vinho não será um deles…

Como diz aquele velho jargão, “Melhor prevenir do que remediar”!

Aqui vão os conselhos de sempre:

– Protejam-se – usem máscaras, mantenham um saudável distanciamento, higienizem mãos e objetos que precisem manusear;

– Escolham outras desculpas para degustar vinhos, há uma infinidade delas: tristeza, alegria, boa comida, comida ruim, boas companhias (devidamente distantes) e até mesmo péssimas companhias – troque-as por uma boa taça!

Opções não faltam. Combater o vírus não é uma delas.

Saúde e bons vinhos!

Imagem de abertura: “Ácido Tânico” por Michał Sobkowski sob licença CC BY-SA 4.0

Quingentésima Coluna

Poderia abrir esta coluna desfiando um rosário de sinônimos para marcar bem esta efeméride. Nem eu acredito – meio milheiro – seria a expressão perfeita, num linguajar menos sofisticado. Nosso rico idioma nos permite quase infinitas variações sobe um mesmo tema. Lembra Paganini e seu Capricho nº 24: além do compositor ter feito variações em cima da partitura original, foi seguido por Liszt, Schumann, Brahms e Rachmaninov.

Quem me dera que alguém “variasse” sobre qualquer dos meus textos. Curiosamente, já fui citado por outros autores.

Também posso comemorar, nesta próxima 5ª feira, 11/02/2021, dez anos de atividade no site O Boletim, do Valter Bernat, que teve a coragem de me convidar para colaborar, escrevendo duas colunas: uma sobre tecnologia e outra sobre vinhos. No meio do caminho, abandonei o tema tecnologia ficando exclusivo com os vinhos.

Por falta de espaço no servidor que originalmente hospedava o site, as colunas mais antigas teriam que ser “sacrificadas”, o que me deixou um pouco triste. Era um bom material que deveria estar sempre disponível.

Entrou em cena o meu filho, Tomás, que providenciou o meu site pessoal, “O Boletim do Vinho”, onde meus leitores podem encontrar todo o material que já publiquei. Valeu, filho!

O nome do meu site é, declaradamente, uma homenagem ao Valter. Reconheço que é uma cópia, sem nenhuma cerimônia, do título de seu site, adaptada ao meu tema.

Obrigado amigo!

A primeira coluna, “Vamos beber um vinho”, era como um cartão de visita. O texto já mostrava uma tendência que se consolidou ao longo desses anos: gosto de desmistificar o vinho. (nunca revisei esse texto e deve estar bem desatualizado)

Durante muito tempo as minhas matérias eram muito comentadas por diversos leitores. Renderam boas trocas de mensagens. A partir de um momento simplesmente desapareceram. Talvez tenham cansado ou já se sentem seguros para interpretar as sempre presentes entrelinhas nos meus escritos ou, quem sabe, se aborreceram com alguma diatribe – nem sempre o vinho foi o tema focal…

Ei! Comentaristas de plantão, reapareçam, nem que seja para reclamar. Estou com saudades.

Vocês sabem qual a coluna de maior sucesso? (medida no meu site, OK?)

Aqui está ela: Qual a taça ideal para Vinho do Porto?

Muito curioso, Vinho do Porto não é uma unanimidade no Brasil, país onde tenho mais leitores, seguido de Portugal e Suíça.

Originalmente a coluna terminava com a indicação de um vinho: a Dica da Semana, que depois foi rebatizada como Vinho da Semana.

Honestamente, era trabalhoso selecionar um vinho com boa relação custo x benefício e passível de ser adquirido, pelo menos, nas grandes cidades brasileiras. Optei por acabar com as indicações, apesar de ter sido a única característica que já foi patrocinada no site. O parceiro era a boa loja de vinhos de BH, Casa Rio Verde/Vinho Clube. O pagamento era em garrafas de vinho.

Bons tempos!

Para matar as saudades aqui vai um Vinho da Semana comemorativo:

Quinta da Aveleda Alvarinho Branco 2019 – $$

Apresenta típica coloração amarelo palha com toque esverdeado, límpida e brilhante. No nariz é fresco e frutado, com notas cítricas e de frutas exóticas. Na boca é muito fresco, macio e ligeiramente mineral. Ideal para substituir a cerveja no Carnaval da pandemia.

Rumo aos 1000 textos!

Saúde e bons vinhos.

Foto de abertura por Justin Little para Unsplash

Bordeaux aprova o uso de novas castas

Em 2019, produtores bordaleses solicitaram ao INAO (Institut National de l’Origine et de la Qualité) a inclusão de 7 novas castas que poderiam ser vinificadas na região. Tudo em nome das alterações climáticas e a eterna preocupação de manter a reconhecida qualidade superior dos vinhos de Bordeaux. (veja nossa coluna: Novas castas Bordalesas)

As pesquisas já estavam sendo feitas há cerca de 10 anos, incluindo plantio e vinificações experimentais. Este processo seletivo, que teria começado com mais de 50 castas, concluiu que apenas cinco uvas tintas e duas brancas eram adequadas. Faltava a aprovação dos órgãos de controle.

Não foi uma decisão fácil para o respeitado INAO, afinal, o seu OK a este ambicioso projeto significava, também, a quebra de uma tradição secular: o mais que famoso “corte bordalês”, elaborado com as nobres Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec e Carménère. Teria que ser repensado e, quem sabe, ganhar uma nova denominação. A decisão foi embasada pelo Conselho de vinhos de Bordeaux (CIVB).

Das sete castas propostas, uma não passou no crivo, a branca Petit Manseng. Apesar de se adaptar perfeitamente ao novo terroir e permitir cortes brancos perfeitos, a razão pela que não teria sido aceita não tem nada de técnica ou científica: é a casta icônica do sudoeste francês (Cahors, Bergerac, Buzet and Gaillac). Seria um grande problema alterar esse “status quo”.

Há algumas curiosidades no grupo aprovado.

As tintas Arinarnoa e Marsellan são uvas criadas através de cruzamentos controlados. A primeira entre a Cabernet Sauvignon e a Tannat (1956) e a segunda entre a Cabernet Sauvignon e a Grenache (1961).

A terceira casta tinta aprovada se chama Castets. É nativa na região e mais conhecida por ser uma casta bordalesa quase esquecida. Ou seja, estava por ali e ninguém se interessava por ela…

A grande novidade é a quarta uva tinta, importada de Portugal, a Touriga Nacional, uma das grandes castas lusitanas.

No capítulo das brancas, aparece outra casta ibérica e também muito importante no cenário de Portugal, a Alvarinho ou Albarinho, na Espanha.

A última casta aprovada, branca, se chama Liliorila. Novamente, é um cruzamento entre a Chardonnay e a Baroque, outra casta do sudoeste francês que andou muito desprestigiada por longo tempo.

As regras de utilização

Por enquanto essas novas castas não serão as protagonistas, sendo colocadas num 3º time ou reservas, para usar uma linguagem bem popular. Antes delas estão as principais (Cabernet, Merlot…) e as secundárias (Malbec, Carménère…). Este critério será revisto a cada 10 anos.

Com relação à área plantada, limitaram a 5% do vinhedo total. Na elaboração do corte, estipularam um máximo de 10% do volume.

Isto implica que, de acordo com a legislação vigente, não é obrigatório citar as novas castas nos rótulos.

As pesquisas para encontrar soluções que ajudem aos produtores se adequarem as mudanças climáticas continuam em várias outras frentes, que incluem até o manejo das parreiras, seja com podas mas precisas, mudanças na chamada área coberta, altura das plantas e colheitas em diferentes pontos de maturação.

Fazendo um paralelo, pesquisas brasileiras desenvolveram a poda invertida, mudando a época de frutificação das uvas para um período de clima mais ameno no nosso país.

Esta técnica é um enorme sucesso que permitiu ampliar a nossas regiões produtoras e a utilização de novas castas que não se davam bem por aqui.

O resultado final são alguns vinhos tranquilos muito bons que já estão chamando a atenção de críticos e consumidores internacionais.

Sinal que os caminhos bordaleses têm tudo para dar certo.

Saúde e bons vinhos!

Créditos: Imagem de alohamalakhov por Pixabay

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