
Existem inúmeras destas regrinhas, muitas se misturam com lendas e outras até que têm sua lógica ou origem bem confirmada.
São tantas que acabaram criando outra categoria de enófilo, aquele que tenta desesperadamente cumprir estes protocolos e criar alguns outros, vulgarmente conhecidos como “enochatos”.
As mais conhecidas giram em torno de temperaturas de serviço, harmonizações, serviço do vinho e outras particularidades.
Não há mal nenhum em segui-las, afinal, estão sendo ensinadas desde que a Sé de Braga foi erguida.
Vale aquele ditado: “O seguro morreu de velho”.
No mundo do vinho, curiosamente, quem decide ir por este caminho fica, automaticamente, condenado a beber sempre o mesmo vinho, harmonizar com os mesmos pratos, provavelmente alguns clássicos da gastronomia mundial, e a servir o vinho da forma mais pomposa e circunstancial que for possível.
Com o devido pedido de desculpas, pela sinceridade: isto é a extrema enochatice.
Este excesso de formalidade talvez seja uma das razões que afastam as novas gerações deste nosso pequeno universo. Degustar um vinho não precisa ser assim.
Para começo de conversa, para apreciar um bom vinho não precisamos, nem mesmo, de uma cultura muito profunda do assunto. Em tese, basta saber que foi produzido a partir de uvas, uma só ou muitas. Não importa, é um vinho.
Com certeza, todo aquele rito que começa na observação do rótulo em busca da safra e outras informações, depois examina a rolha e faz a primeira prova após conferir a cor, transparência, aromas e sabores, impressiona qualquer leigo.
Em seguida, vem o uso do jargão. Palavras tão misteriosas e, para muitos, quase sem sentido: “taninos educados”; “sus-bois”; “fond de bois”, acidez marcante e muitos outros.
Mas, mesmo sem saber o que pode significar isto tudo, vamos ser servidos igualmente. A coisa pode complicar se nos solicitarem uma opinião.
Não precisamos ficar inquietos ou nervosos. Basta lembrar que “em boca fechada não entra mosca”. Se gostamos ou não do vinho, um gesto com a mão basta para expressar o nosso sentimento. Se preferirem, um “ótimo” e nada mais, resolve o problema.
Como já citamos dois velhos e conhecidos provérbios, aqui vai mais um para fazer jus ao título da coluna: “quem não arrisca, não petisca”.
Este é o grande paredão do mundo do vinho que precisamos escalar ou mesmo derrubar: talvez o “jardim do vizinho seja mais verde que o nosso”.
Ficaram tentados a fazer esta aventura?
Aqui estão algumas regrinhas para vocês começarem a questionar:
1 – Os vinhos mais caros são melhores.
Nem sempre. A grande aventura é enveredar por pequenos produtores e castas pouco comuns. Comecem por Portugal, Espanha e Itália e suas uvas autóctones. Depois, dediquem-se à Grécia, Geórgia, Croácia e outros menos famosos;
2 – Carnes com tintos e peixes com brancos.
Esta deve ser a mais popular regrinha de harmonização. Não está errada, mas é extremamente limitada.
Grandes mestres dos vinhos fazem elaboradas explicações sobre gorduras e taninos e como a acidez limpa o paladar.
Esqueçam isto. No próximo churrasco, experimentem combinar uma costela assada com um Riesling maduro ou mesmo um Chardonnay que passou por madeira e já tenha uns anos de garrafa.
A acidez equilibra muito melhor as gorduras do que os taninos de um tinto…
3 – Vinho tem uma temperatura de serviço exata.
Não é bem assim. Ninguém nega que a bebida muito fria inibe o paladar ou, se muito quente, fica com sabor alcoólico. O grande problema é a tal “temperatura ambiente”.
Vamos simplificar: nada de extremos. Prove, e se estiver agradável ao seu paladar, sirva seus convidados. Caso contrário, corrija a temperatura.
4 – Vinhos de safras antigas devem ser decantados.
Antes de se dedicarem a esta outra arte do nosso mundinho, pensem no seguinte: abram a garrafa, talvez seja necessário um saca-rolhas de lâminas paralelas para não esfacelar a rolha, e depois a deixem quieta por uns 30 minutos antes de servir. Pode cobrir o gargalo com um paninho.
Vinhos antigos são muito delicados. Uma decantação malfeita pode tirar todas as características de vinho evoluído que estamos buscando.
Ao servir, deixe o vinho verter lentamente, evitando que borras caiam nas taças.
Estas são algumas ideias para os leitores começarem a se rebelar contra algumas destas regrinhas. Há mais coisas que poderíamos questionar, como as taças, por exemplo.
O grande segredo é encontrar um equilíbrio.
Arrisquem.
Saúde!
CRÉDITOS: Imagem de krakenimages.com no Magnific.
As dicas da Sommelier Sandra Cordeiro vão entrar num compasso de espera.
Como já perceberam, nosso site está sendo reformulado.
Em breve uma nova forma de apresentar as boas dicas da Sandra.