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Fugindo da mesmice

Estamos vivendo tempos estranhos, mesmo desde antes da pandemia. Há uma grande radicalização que abrange todas as facetas da sociedade moderna. São muitos os exemplos, algo como “ou você é isto ou é aquilo”. Ninguém se lembra mais do purgatório, agora, é céu ou inferno e ponto.

Tudo e todos recebem rótulos que, em tese, refletem nossas opiniões individuais, baseados na mais conhecida das pseudociências, a “Achologia”, amplamente difundida nas denominadas “redes sociais”.

Neste mundo “fake” onde só existe o preto e o branco, a esquerda e a direita etc., repleto de gente que consegue seus 15 minutos de fama, preconizados por Warhol lá em 1968, ninguém se lembra mais do “inconformismo”, uma atitude que explica o comportamento de determinados indivíduos ou grupos que estão cansados do “status quo”, da mesmice, simplesmente.

Exemplos não faltam, sejam nas artes plásticas, na música, na filosofia, na culinária e em muitas outras coisas. Dois eventos marcaram a memória de muitos: o movimento hippie e o festival de Woodstock. Foram taxados de tudo, podem escolher os mais pesados adjetivos. Poucos se deram conta do real motivo: a necessidade de efetuar algumas mudanças ou, para ser mais realista, permitir que elas acontecessem…

“Let the sun shine”, deixe o sol brilhar era o mote na Califórnia. “Lucy in the Sky with Diamonds”, cantariam os Beatles, no que os críticos afirmavam ser uma apologia a um alucinógeno.

Não importa. Os inconformistas continuam no nosso meio e devemos a eles uma grande quantidade de novidades que, atualmente, já estão entranhadas no nosso tecido social.

E se vocês acham que não conhecem nenhum tipo como este, permitam me apresentar: eu sou um deles, no mundo dos vinhos.

Por que beber Cabernet se posso provar um Mencia. Que tal trocar Chardonnay e Sauvignon Blanc por Verdejo ou Arinto?

Ah! Vocês não conhecem ou nunca ouviram falar de outras uvas que não as “nobres” …

Seguem as opções: vinhos rosé, laranja, naturais/orgânicos, frisantes, Pet-Nat, enfim, poderíamos listar mais sugestões.

A verdade é que somos inclementemente bombardeados por campanhas publicitárias que nos deixam cheios de dúvidas sobre o que degustar. Se colocarmos na ponta do lápis, todos são “os melhores”.

Meu pai adorava contar uma anedota, baseada em fatos, sobre um velho pelicano que seguia com seu dever de alimentar os filhotes: na falta de um bom alimento, arrancava parte de suas entranhas e lhes dava o que comer (sei vero). Um dia, já sem forças para voar e com pouquíssimas chances de encontrar algo melhor, repete o trágico ritual. Uma vozinha do ninho se manifesta: “tripa todo dia também não!”

A ideia de escrever este texto veio de um pequeno comentário no último almoço de uma das confrarias a que pertenço. O restaurante era calcado em coisas do mar e as minhas opções de vinho estavam um pouco fora deste contexto. Lembrei de uma garrafa que havia comprado numa inesperada oferta de uma das melhores lojas deste ramo.

Era um Vermentino elaborado por Michel Chapoutier. Uma casta italiana nas mãos de produtor francês. As garrafas estavam meio escondidas, num canto da loja e só as descobri quando resolvi passear pelas prateleiras em busca de vinhos fora do lugar comum. Quando perguntei o preço fiquei surpreso, era ridículo. Levei as garrafas que estavam no estoque.

No nosso almoço, todos elogiaram o vinho. A safra era 2015 e a tampa de rosca. Estava ótimo, aos 7 anos de idade, que para um branco é uma eternidade.

Honestamente, algum leitor arriscaria uma compra semelhante?

Esta é a vantagem de ser um “inconformista”. Somei a reputação da loja, muitas vezes considerada como a melhor do país, o talento do vinhateiro, o inusitado de encontrar um Vermentino francês e um preço “imperdível”.

Como esta, tenho em minha adega outras garrafas fora do que se conhece como “main stream”. Cada uma é a certeza de que terei uma ótima experiência para dividir com os amigos.

Que tal saírem da mesmice?

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto de abertura por Tormius para Unsplash

Uma casta , um vinho – Baga

Existem as uvas nobres, as icônicas, as emblemáticas e as complicadas: a Baga é uma delas!

Faz parte de um especialíssimo grupo ao qual se juntam a Nebbiolo e a Pinot Noir, considerada como a mais difícil uva para ser cultivada e vinificada. A Baga não fica muito atrás não…

Sua origem mais provável é a região do Dão, Portugal, de onde se espalhou para a vizinha Bairrada, seu local de excelência. Vinhedos menores podem ser encontrados em outras regiões portugueses e até mesmo na vizinha Espanha. Dados de um censo realizado em 2016 estimam uma área plantada de 6.800 hectares.

Como de costume nas terras lusitanas, a Baga tem uma grande variedade de denominações regionais, algumas bem curiosas como “Paga Dívida”. Sua relação com os produtores é de amor e ódio, simultaneamente. Se bem tratada, pode produzir vinhos maravilhosos e longevos ou, se maltratada, não produz nada que preste. Totalmente temperamental!

Seu principal problema é o lento amadurecimento. Na maioria das vezes, o momento de ser colhida coincide com a estação chuvosa, aumentado a possibilidade de apodrecimento (botrytis) e perda dos cachos.

A Baga, bem cultivada e vinificada, entrega bons tintos, encorpados, alcoólicos e tânicos. Apresentam aromas de ameixas, ervas, azeitonas, cassis e tabaco. Não são vinhos para serem consumidos jovens, há que dar tempo ao tempo: 15 ou 20 anos de guarda…

Espumantes e rosados são dois outros vinhos que podem ser elaborados com esta casta. Ambos têm ótima reputação no mercado português. Geralmente os frutos serão colhidos um pouco mais cedo, garantido uma boa acidez e perlage consistente.

Luís Pato (Bairrada) é considerado como o grande “domador” desta instável casta e uma referência entre os grandes produtores portugueses. Um dos seus vinhedos, a Quinta do Ribeirinho, foi plantada em pé franco, num solo arenoso, conseguindo reproduzir as condições pré-filoxera. Foram mais de 20 anos de espera até a primeira colheita em 1995. Para os especialistas, este é o melhor tinto do país.

Outros produtores que elaboram deliciosos vinhos com esta uva são: Campolargo, Casa de Saima, Caves São João, Adega Cooperativa de Cantanhede, Dulcinea dos Santos Ferreira e Kompassus.

Uma curiosidade: A Baga é a principal casta no corte elaborado para a produção do famoso Mateus Rosé, junto com a Rufete, Tinta Barroca e Touriga Franca.

Para representar esta casta, selecionamos um vinho da Bairrada e de seu mais famoso produtor, Luís Pato:

Vinha Pan 2013

Um vinho português clássico, de vinhedo único e minúscula produção. Elaborado utilizando rendimentos muito baixos. Um vinho refinado e potente, apresentando um bouquet muito complexo e deliciosa textura do palato. Maturado em barricas de Carvalho, pode ser guardado por mais de 15 anos. Nesta safra recebeu 90 pontos de Robert Parker e 16,5/20 de Jancis Robinson.

Harmoniza com pato e com carnes vermelhas.

Saúde e bons vinhos!

Macabeo, Xarel-lo, Parellada

Estas três uvas brancas fazem um “blend” notável, digno de figurar em qualquer enciclopédia sobre vinhos no capítulo dos espumantes. Para quem aprecia, este particular tipo de vinho, o Cava, produzido originalmente na região de Penedés, Catalunha, rivaliza em qualidade com o Prosecco e com o Champagne, inclusive.

Deve ser elaborado pelo método tradicional, ou Champenoise, unicamente dentro das regiões de origem controlada, D.O, específicas, seguindo rígidas normas de produção. São 4 formas de classificação ou categorias:

Cava – mínimo de 9 meses de maturação;

Cava Reserva – mínimo de 18 meses de maturação;

Cava Gran Reserva – mínimo de 30 meses de maturação;

Cava de Paraje Calificado – são vinhos produzidos em locais considerados de excelência. Mínimo de 36 meses de maturação.

Dentro de cada uma destas classificações, podem ser comercializados 7 tipos diferentes, conforme o teor de açúcar residual: Brut Nature, Extra Brut, Brut, Extra Seco, Seco, Semi Seco e Dulce.

Segundo as normas espanholas, além das castas citadas, podem ser usadas estas outras: Chardonnay, Subirat Parent, e as tintas Garnacha, Trepat, Monastrell e Pinot Noir. Além das versões em branco, existe um delicioso Cava Rosé.

Um vinho muito versátil que é capaz de harmonizar com um infinidade de alimentos. Combina magistralmente com a culinária típica de alguns países, como Peru, México e Japão, além dos vizinhos do Mediterrâneo.

As marcas Codorníu e Freixenet  talvez sejam as mais conhecidas. Enfrentam uma dura concorrência com vinhateiros tradicionais e de alta qualidade como Juvé y Camps, Gramona, Guliera, Pere Ventura, Segura Viudas, entre outros. São quase 3.000 produtores!

O nosso destaque vai para esta curiosa garrafa da vinícola Agustí Torelló Mata:

Este Cava, Kripta, é considerado como o melhor da Espanha. Foi elaborado pela 1ª vez em 1978, com o tradicional corte das uvas Macabeo, Xarel-lo e Parellada, cada uma vinda de vinhedos antigos e únicos. Matura por 7 longos anos.

É um Brut Nature orgânico e sua produção está limitada a 15 mil unidades. No seu país de origem pode ser encontrado em lojas especializadas por cerca de 70 euros (R$ 350,00 aprox.) o que não é nenhum absurdo.

A garrafa em forma de ânfora é uma homenagem à Roma antiga. O rótulo, um design de Rafael Bartolozzi, evoca o mar Mediterrâneo, a vinha e a oliveira, como se fossem uma trilogia.

Desde o seu primeiro prêmio em 1984, ganha novos lauréis a cada safra.

Saúde e bons vinhos!

Vinhos de corte – de volta ao básico

Vinho de corte, blend, assemblage ou coupage são diferentes denominações para um mesmo produto: um vinho produzido com mais de uma casta.

Alguns dos vinhos mais famosos do mundo são elaborados assim. Um leitor mais atento vai lembrar do onipresente corte bordalês, que produz joias como Chateau Ausone, Chateau Cheval Blanc, Chateau Margaux, entre outros. Sempre uma composição entre Cabernet Sauvignon, Merlot e mais alguma outra entre limitadas e permitidas opções.

Curiosamente, quase nunca nos damos conta que existem outros vinhos, tão ou mais famosos que os de Bordeaux, que são elaborados “blends”. O Champagne é um deles. Tradicionalmente é vinificado a partir de um corte de Pinot Noir, Chardonnay e Pinot Meunier. Outros dois ícones do mundo do vinho que seguem este estilo são o Porto e o Madeira.

O objetivo de cortar um vinho é fazê-lo melhor. A cada safra, as uvas mudam algumas de suas características básicas, como teor de açúcar, presença de polifenóis etc. que influenciam diretamente no produto da vinificação. Uma das mais poderosas ferramentas que um enólogo dispõe para contornar estas variações é misturar ou cruzar, com outras outras vinificações, corrigindo acidez, taninos, aromas, sabores e até mesmo teor alcoólico.

Vários tipos e corte são possíveis, desde uma simples mistura de diferentes castas vinificadas separadamente, a combinação de vinhos de diferentes safras, de uma mesma casta ou de várias e, ainda, a cofermentação, onde várias uvas são processadas ao mesmo tempo.

Em Portugal vamos encontrar vinhedos com várias castas plantadas juntas, num arranjo chamado de “field blend” ou corte do campo. Este conceito pode ser estendido para o uso de frutos de diferentes vinhedos ou mesmo de parcelas de diferentes áreas. As possibilidades de combinações são múltiplas.

As proporções entre cada casta num corte ficam por conta do Enólogo. Durante o processo serão realizadas diversas provas que vão definir as dosagens de cada vinho. Apenas no caso dos “field blend” a proporção já vem definida.

Além dos cortes citados, alguns outros se destacam neste nosso universo vínico:

– GSM – iniciais de Grenache, Syrah e Mouverdre. Típico da região do Rhone, França. Um destaque vai para o Châteauneuf-du-Pape, que pode receber até 14 tipos de uvas na sua elaboração;

– Chianti – o típico vinho da Toscana, em sua versão original, é um corte entre Sangiovese (70% no mínimo), Canaiolo, Colorino, Ciliegiolo, Mammolo e a branca Trebbiano. Atualmente estas castas estão sendo pouco usadas e deram lugar a outras, mais europeias, como Cabernet e Merlot, originando os “supertoscanos”. A legislação mudou para aceitar estas uvas no corte deste clássico vinho;

– Na Austrália há um corte muito comum e bem aceito pelo mercado – Cabernet Sauvignon e Shiraz (Syrah). Alguns autores já apelidaram de “corte australiano”;

– Na Califórnia, alguns produtores se dedicaram a encontrar um vinho de corte que tipificasse a região e fosse uma alternativa aos varietais. Um vinhateiro, Dave Phinney, com o seu “The Prisoner”, estabeleceu uma tendência, pelo menos. Um complicado corte entre as duas mais famosas uvas da região, Cabernet Sauvignon e Zinfandel, com coadjuvantes como Charbono (Bonarda), Syrah e Petit Syrah, algumas delas plantadas num “field blend”.

Para finalizar, um lembrete: tecnicamente um vinho de corte é um produto de melhor qualidade, desde que bem elaborado. Existe outro tipo de “corte”, assim mesmo, entre aspas, aquele em que um produtor inescrupuloso estica sua litragem produzida misturando, sabe-se lá o que, no seu vinho base.

Seu objetivo?

Aumentar o faturamento…

Saúde e bons vinhos!

Imagem de nattynati por Pixabay 

Vinhos do velho e do novo mundo

Este tema é uma questão fundamental para aqueles que realmente desejam compreender o mundo dos vinhos. Uma simples divisão entre dois continentes, inicialmente, que mais tarde foi ampliada para outras regiões, formou legiões de apreciadores e/ou detratores de um estilo “europeu”, caracterizado pelo “corte bordalês”, ou de um estilo “americano”, caracterizado pelos vinhos varietais.

No final das contas, todos são vinhos, foram elaborados a partir das mesmas castas e, em alguns casos, vinificados pelas mesmas pessoas. Muda, apenas, o endereço ou, no nosso jargão, o terroir. Ainda assim, não é explicação suficiente, dúvidas persistem, algumas muito diretas como “este vinho é melhor que o outro” que, na verdade, se resume a uma questão de gosto pessoal.

Um ponto muito importante nesta discussão é compreender as diferenças entre as diversas normas de elaboração dos vinhos em cada país produtor. Saber ler e interpretar um rótulo é a chave para esclarecer muitas destas dúvidas.

Na França, os vinhos são comercializados enfatizando em seus rótulos as regiões produtoras. As castas utilizadas nem sempre são citadas, cabendo ao consumidor saber, por exemplo, que um Pouilly-Fuissé é um Chardonnay da Borgonha, enquanto um Pouilly-Fumé é um Sauvignon Blanc do Vale do Loire.

Neste link da Wikipedia, há uma extensa lista, em inglês, das regiões que podem aparecer nos rótulos dos vinhos franceses. Ainda assim, é necessário um conhecimento mais detalhado para alguns casos. Bordeaux é o melhor exemplo: são várias sub-regiões, as mais famosas estão nas margens esquerda e direita do rio Garonne. São terroirs bem característicos distribuídos ao longo delas. No caso dos tintos, cada Chateau tem seu corte próprio com as conhecidas castas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec e, eventualmente, Carménère. Nada mais é permitido!

Em 1976, um evento ocorrido em Paris chamou a atenção para os vinhos elaborados na Norte América, até então pouco conhecidos na Europa. O chamado “Julgamento de Paris” foi uma belíssima degustação comparativa entre vinhos dos dois países, com um amplo domínio dos americanos, que se apresentavam de forma direta, sem rodeios: nos rótulos estavam destacadas as castas utilizadas, quase sempre, uma só. Um dos vencedores foi o Chardonnay do Chateau Montelena. Vejam a foto a seguir:

Novamente, as normas de elaboração de vinhos têm papel preponderante no que pode ou deve aparecer nos rótulos. Atualmente, nos EUA, basta que o vinho tenha 75% de uma casta dominante para ser considerado um “varietal” …

Fica fácil entender a razão dos atuais vinhos 100% de uma só casta.

São dois estilos de vinhos muito mais calcados no binômio clima e terreno do que em simplificações como cortes e varietais. Em ambos os continentes, os consumidores se cansaram das tipicidades tradicionais ou dos altos preços de alguns vinhos icônicos. Nas Américas, os cortes estão ficando mais populares, com misturas muito inovadoras que cruzam diversas influências. Na Europa, principalmente na França, os caríssimos vinhos bordaleses e similares vão ganhando novos companheiros, menos sisudos e mais palatáveis no bolso. Até mesmo a rígida regra das “castas permitidas” aqui e acolá está sendo dobrada.

Antigos e tradicionais países produtores no Velho Continente, que caíram no ostracismo, estão sendo redescobertos trazendo de volta alguns prazeres quase esquecidos. São antigas uvas dadas como extintas, técnicas de produção milenares que estavam abandonadas que, agora, estão sendo atualizadas e novas formas de embalar e de consumir a nossa bebida favorita.

No Novo Mundo, as inovações que sempre caracterizaram o estilo de vinhos continuam evoluindo, não esquecendo as inspirações vindas do outro continente. Novos países produtores se valem destas técnicas para trazer ou reviver novas castas e técnicas que resultam em vinhos surpreendentes.

As diferenças são menores a cada nova safra. Quem ganha é o consumidor que souber “ler” corretamente o que tem em mãos: novo mundo é velho mundo e vice-versa.

Saúde e bons vinhos!

Créditos:

Mapa mundi – Imagem criada por macrovetor para Freepik

Chateau Montelena – foto por ayako – Flickr: a bottle from my birth year, CC BY 2.0

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