Natal é, basicamente, uma festa de clima frio. Basta olhar a roupa do querido Papai Noel para entender isto.
A imagem que ilustra este texto mostra um Feuerzangenbowle, tradição
germânica de final de ano, onde um torrão de açúcar é encharcado com Rum
e flambado, sendo apoiado sobre um rechaud com vinho quente. O caramelo
resultante da queima fica pingando sobre o vinho, conferindo um
especial sabor. O torrão é constantemente molhado com o destilado até
que se dissolva por completo.
Mesmo no sul do Brasil, ou nas nossas regiões mais altas, não haveria
clima suficientemente frio para experimentar este ‘aquecedor’ líquido.
Talvez com um bom ar condicionado ligado na potência máxima…
Não temos uma tradição natalina tipicamente brasileira. No máximo
copiamos e adaptamos receitas dos diversos povos que nos colonizaram,
com uma ênfase nos portugueses, pelo menos aqui no Sudeste.
Presunto, Peru e Bacalhau são as estrelas nas mesas de fim de ano,
com certas variações como os Salpicões e pratos de massa. No capítulo
dos doces o índice glicêmico vai às alturas, com destaque para as
lusitanas Rabanadas, sejam elas regadas com Porto, cobertas com sorvete,
ou ambos…
Uma coisa é certa: não pode faltar um vinho, preferencialmente um bom espumante.
A ordem do dia são os brancos e os rosados. Gelados, ‘comme il faut’.
Se guardaram aquele tinto, super especial, para esta data, talvez não
seja ainda o momento ideal, a menos que o seu microclima residencial
garanta temperaturas próximas às do hemisfério norte.
Quer fazer uma surpresa para todos, invista num Champagne ou num dos nossos espumantes top.
Por favor, vamos relaxar as regras de harmonização. Neste fim de ano, tudo se permite, com moderação.
Sem querer ser professor de ninguém, aqui vão algumas recomendações:
– Prefira vinhos jovens e leves, bem frutados e com boa acidez;
– Se a opção for só Espumantes, além dos nacionais pensem nos Proseccos e Cavas;
– Embora menos indicados, tintos leves que podem ser bebidos na
temperatura dos brancos, como o Beaujolais Noveau, que aparece em
novembro. Combinam muito bem com os assados deste período;
– No capítulo dos doces, os vinhos generosos reinam sozinhos. Porto,
Madeira, Moscatel de Setúbal, entre outros, são as principais sugestões.
Geladinhos, por favor.
Desde que começamos a publicar nossas matérias sobre vinhos, num já longínquo 2011, textos sobre as diversas castas usadas neste universo sempre estiveram presentes. Neste site, um leitor mais curioso pode pesquisar pelo nome de uma casta e encontrar alguns resultados interessantes.
Voltar a um tema tão básico como este, discorrer sobre a matéria-prima dos vinhos, é sempre uma forma de obter novos conhecimentos.
Um vinho, brasileiro, elaborado com esta nobre casta branca, recentemente degustado, foi o moto para este texto.
Vamos conhecer um pouco sobre a Sauvignon Blanc e depois comentamos o vinho.
Apesar de ser uma das grandes uvas brancas, ao lado da Chardonnay e Riesling, é mais conhecida por seu um dos pais da Cabernet Sauvignon e por uma característica muito caricata de seus vinhos: o aroma de “pipi de gato”.
Sua origem é controversa. Os estudos mais recentes (*) sugerem o Vale do Loire, França, como seu berço. Uma citação de 1534, no livro Gargantua, de Rabelais, menciona algumas uvas, entre elas a Fiers, como sendo o acompanhamento perfeito para uma pâtisserie local chamada Fouace.
Fiers, Blanc Fumé, Muskat-Silvaner e Savagnou, são alguns dos muitos sinônimos pelos quais é conhecida.
Modernas análises de DNA demonstraram que há um conflito genético com a casta Savagnin, razão pela qual são constantemente confundidas. O mais provável é que seja uma descendente desta última, e meia-irmã de outras espécies como Grüner Veltliner, Petit Manseng, Silvaner e Verdelho.
Este tipo de investigação mostrou mais um dado surpreendente: seria uma neta da Pinot Noir. Por outro lado, pode ser considerada como irmã da Chenin Blanc, a mais importante uva do Vale do Loire.
Por meios naturais, propagou até a região do rio Gironde, onde cruzou, espontaneamente, com a Cabernet Franc, originando a afamada Cabernet Sauvignon.
Existem duas mutações desta casta: Sauvignon Gris e Sauvignon Rouge.
A origem de sua denominação é controversa. A hipótese mais aceita nos remete à Gália Romana, onde existiria uma localidade chamada Sauvagnon (região de Bearn), nome por sua vez derivado de um prenome: Salvinius ou Salvanius.
Sendo uma planta muito vigorosa, exige solos mais pobres para que possa entregar frutos adequados para a vinificação. Está plantada em quase todos os países produtores. Seus vinhos são de grande acidez, com uma gama de aromas que enfatizam os herbáceos: grama, folhas, etc…
“Pipi de Gato num arbusto de groselha” é um dos descritores mais usados, principalmente se os frutos foram colhidos precocemente. Durante a fermentação, alguns tipos de enzimas e leveduras utilizadas podem reagir com os compostos tiólicos, aumentando o leque de aromas, onde podem ser percebidos, maracujá, toranja e algo defumado, além do citado inicialmente.
É a 3ª uva branca mais cultivada no mundo. Os melhores vinhos elaborados com ela vêm da França: Sancerre e Pouilly-Fumé.
O Chile e a Nova Zelândia são dois países onde esta uva se destaca.
Atualmente os vinhos “kiwi” são considerados muito superiores aos demais, principalmente os elaborados pela vinícola Cloudy Bay.
No Brasil não é uma das cepas mais populares, mas um excelente vinho nacional foi quem motivou este artigo: Vinhética Sauvignon Blanc Barrica Brasileira 2018.
Este produtor segue os moldes dos famosos negociantes franceses. Comandada por Gaspar Desurmont, um agrônomo francês de alma brasileira, escolhe criteriosamente produtores para cultivar as uvas que serão transformadas em vinho e engarrafados com seu rótulo.
A matéria-prima deste vinho veio de Santa Catarina, que tem ótimos terroirs para o plantio desta casta. A novidade mais interessante está na barrica: foi montada com algumas aduelas de madeiras brasileiras, como Grápia e Jequitibá Rosa.
Posso garantir que o resultado é excelente. O contrarrótulo diz tudo:
“A linha de varietais da Vinhética é o nosso maior laboratório de experimentações com cepas de diferentes terroirs, estilos de vinificação e tipos de madeira, inclusive brasileiras.
Neste Sauvignon Blanc, a elegância da uva branca do Planalto Catarinense, terroir de altitude, é aliada à passagem por barricas de madeiras brasileiras como a Grápia e Jequitibá Rosa. O resultado é um vinho singular e marcante, com notas frutadas (limão Siciliano e outros cítricos), macio e com ótima persistência. Harmoniza com queijos macios e semiduros com alto teor de gordura, aves e molhos à base de leite ou manteiga e com um toque de ervas aromáticas”.
Saúde e bons vinhos!
(*) Wine Grapes: A Complete Guide to 1,368 Vine Varieties, Including Their Origins and Flavours, por Jancis Robinson, Julia Harding, Jose Vouillamoz.
O ano vai terminando e a listas de melhores isto ou aquilo vão surgindo nas publicações especializadas.
A revista Wine Enthusiast, embora menos influente que a Wine Spectator, tem como público alvo o grupo de apreciadores que consomem vinho diariamente e buscam comprar suas garrafas com olho na famosa relação custo x benefício, algo bastante questionado nesta área.
O primeiro gráfico apresentado mostra a variação dos preços, do mais barato ao mais caro, de cada uma destas listas: (mercado dos EUA)
A diferença é significativa.
Este fato também explica o resultado dos Top 10, onde o melhor vinho de 2019 é um Prosecco Brut, o espumante italiano elaborado com a casta Glera, que conquistou o mundo.
A listagem, completa, pode ser acessada neste site:
O quadro, abaixo, demonstra o caráter mais universal das escolhas feitas por esta revista, embora ainda haja um predomínio dos rótulos americanos. Há muito mais países contemplados do que na listagem da semana passada.
Uma das curiosidades fica por conta de um vinho da Geórgia, um corte branco das castas Rkatsiteli e Mtsvane (50/50), elaborado nos famosos Kvevri ou ânforas de barro.
Com relação à tipicidade, os tintos dominam com 55%, seguido dos brancos com 36%. O restante é composto por 5 espumantes, 3 rosados e 1 frisante. Não há nenhum vinho generoso.
Através da mesma metodologia utilizada na coluna anterior, apresentamos um gráfico e uma tabela sugerindo o que pode estar à venda no nosso país.
Atenção para as recomendações sobre a tabela:
1 – Na maioria dos resultados pesquisados, as safras oferecidas são mais antigas do que a da listagem;
2 – Nos casos em que o produto correspondia exatamente ao da relação, o preço aproximado está indicado;
3 – Podem haver diferenças entre os resultados apresentados por conta de denominações imperfeitas;
4 – O preço em US$ é para o mercado americano, serve como comparação e referência dos impostos que incidem sobre o vinho importado, no Brasil.
Há menos opções à venda, por aqui, do que as da Wine Spectator. Em compensação o 1º da lista está disponível, por módicos 161,00.
É uma ótima oportunidade para fazer a “prova dos nove” e se certificar, ou não, que estas listas são confiáveis.
Uma última curiosidade: apenas 4 vinhos estão presentes nas duas relações:
Roar Pinot Noir Santa Lucia Highlands Sierra Mar Vineyard;
Renato Ratti Barolo Marcenasco;
Quinta do Vale Meão Douro;
Bernhard Ott Niederösterreich Am Berg, safra 2017 na WS e 2018 na WE.
Tão certo quanto as festas de natal, a mítica relação dos melhores
vinhos, publicada no final de cada ano pela respeitada revista norte
americana, Wine Spectator, é um dos eventos mais esperados no mundo da
enofilia.
O melhor de 2019 foi um vinho francês, o bordalês Château Léoville
Barton, St.-Julien. A França emplacou outros dois vinhos no topo da
lista o Château de Beaucastel Châteauneuf-du-Pape na 6ª posição e outro
Bordeaux, o Château Pichon Baron, Pauillac em 8º. Completam os Top 10
quatro vinhos dos EUA, um italiano, um australiano e um chileno, o
excelente Almaviva.
Os tintos predominaram ocupando 8 posições. Um branco e um espumante completam a relação.
Uma análise mais detalhada desta lista nos leva a interessantes conclusões.
O primeiro ponto a ser observado é uma grande regionalidade neste
resultado por conta do que é ofertado no mercado norte-americano. Muitos
destes vinhos nunca chegarão às nossas prateleiras. Nesta mesma linha,
fica fácil perceber a influência cultural do paladar e do poder
aquisitivo daquele país. Não é uma lista universal, embora seja um
indicador bastante seguro do que está bom, mas nem sempre acessível.
O quadro, acima, é uma prova da influência cultural neste resultado:
os vinhos ‘made in USA’ dominaram o cenário. França e Itália completam o
pódio, com pequena diferença entre eles.
Com relação à tipicidade não há nenhuma surpresa. Vejam o gráfico a seguir:
Amplo domínio dos tintos, representando 72% do total. 21% são brancos, 5% espumantes e 1 rosado e 1 generoso.
Usando o Google como ferramenta de pesquisa e validando os resultados
que incluíam somente comerciantes de vinhos, foi possível obter um
quadro do que é vendido no nosso país.
Apresentamos, a seguir, um quadro com estes vinhos que,
hipoteticamente, podem estar à venda no nosso mercado. Várias
observações se fazem necessárias:
1 – Na maioria dos resultados pesquisados, as safras oferecidas são mais antigas do que a da listagem;
2 – Nos casos em que o produto correspondia exatamente ao da relação, o preço aproximado está indicado;
3 – Podem haver diferenças entre os resultados apresentados por conta de denominações imperfeitas;
4 – O preço em US$ é para o mercado americano, serve como comparação e
referência dos impostos que incidem sobre o vinho importado, no Brasil.
Para os que sonham em degustar um destes vinhos, há opções palatáveis, entre elas um ótimo Cabernet chileno.
Na próxima coluna vamos fazer a mesma análise para outra relação de 100 melhores vinhos, desta vez da Wine Enthusiast.
Anualmente a Winifera organiza uma degustação com os principais enólogos argentinos, para selecionar os melhores vinhos do ano.
A edição de 2019 avaliou, por seus próprios produtores, cerca de 40
vinhos de diferentes regiões: Mendoza, San Juan, Rio Negro e Chubut.
Eis a lista dos 10 melhores:
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(*) da região de Los Sauces, próxima a Tunuyán
Como está chegando o Black Friday e a maioria das lojas de vinhos vão
oferecer bons descontos, esta relação pode ser uma grande ajuda para os
apreciadores dos caldos argentinos. Mas algumas considerações se fazem
necessárias:
1 – Antes de comprar, anotem, desde já, os preços atuais para terem
certeza que não estão comprando nenhum produto pela “metade do dobro”;
2 – Nem todos os vinhos desta degustação já estão sendo comercializados;
3 – No nosso país, o mais provável é encontrar alguns destes rótulos
de outras safras. Por exemplo, o ótimo Kaiken Ultra que está sendo
comercializado aqui é o de 2016.
4 – Além deste, os seguintes rótulos estão à venda em lojas nacionais:
João Carlos Pinheiro ou Tuty como é chamado pelos amigos e pela família, é um Enófilo estudioso e Barista. Teve a oportunidade de expandir seus conhecimentos nos principais polos produtores do mundo. Tuty dá aulas, palestras e organiza almoços ou jantares harmonizados e outros eventos.