Autor: Tuty (Page 123 of 154)

O que (realmente) há dentro de uma garrafa de vinho?

Este é um tema que provavelmente vai deixar muita gente boquiaberta:
 
– Vinho, em tese, deveria ser apenas suco de uva fermentado e nada mais. Mas as diversas técnicas de elaboração, além de algumas regras oficiais de ordem sanitária impõem a adição de outros produtos além da uva.
 
Vamos esclarecer um pouco deste mistério.
 
Resultado de: Uva + Vinificação + Guarda
 
– Este dado já foi mencionado em outras colunas anteriores: 85% do volume em uma garrafa é composto por água, a nossa velha e conhecida H2O.
 
– Entre 10% e 14% do volume vamos encontrar a parte alcoólica, basicamente Etanol. Além deste estão presentes Glicerol numa proporção que varia de 5g/l a 15g/l e outros álcoois como propanol, metanol, isobutanol, sorbitol etc, numa quantidade que pode chegar a 1g/l.
 
– Ácidos decorrentes do processo: tartárico que vem da uva, succínico que vem das leveduras da fermentação e acético que é um subproduto da vinificação cuja concentração deve ficar entre 0,15 até 0,60 gramas por litro sob pena de alterar o sabor para “avinagrado”.
 
– Sais minerais que potencializam os sabores: cloretos, fosfatos, sulfatos, bromo, iodo, flúor, tartaratos, potássio, ferro, magnésio, cálcio, sódio, entre outros. De 2 a 4 gramas por litro.
 
– Açúcar residual que não foi convertido em álcool: 2,5 g/l
 
– Compostos fenólicos responsáveis pela cor e adstringência na proporção de 3 gramas por litro: antocianos, flavonas, taninos e o ácido fenólico. Esta é a alma do vinho tinto…
 
– compostos voláteis responsáveis pelos aromas: ésteres, aldeídos, etc.
 
 
Esta extensa relação deveria ser tudo, mas hoje em dia muito mais é “acrescentado” ao vinho em produção para garantir qualidade e durabilidade, principalmente quando as características descritas acima não atingem os valores esperados.
 
O acréscimo de Dióxido de Enxofre, ou outros sulfitos, têm como finalidade promover a eliminação de bactérias indesejáveis. Preserva e protege o produto final. Sorbato de Potássio, muito usado na indústria de laticínios para produzir iogurte, costuma ser acrescentado com a mesma finalidade.
 
Tanino em pó, uma substância obtida a partir das cascas e sementas da uva, é um recurso utilizado quando o vinho não tem a adstringência necessária. O Mega Purple, já descrito em outra coluna (A Poção Mágica) como um ultraconcentrado suco de uva, é usado para corrigir defeitos na coloração e de doçura. Outras técnicas artificiais de ajustes incluem a adição de água, enzimas e açúcar, esta última muito regulada por diversas legislações (Chaptalização).
 
Algumas adições têm origem no alto custo de itens de produção, como os barris de carvalho. Produtores, notadamente do Novo Mundo, desenvolveram técnicas para obter quase os mesmos resultados a um custo bem menor. Usam lascas de carvalho, serragem e até mesmo pequenas aduelas ou estacas imersas nos tanques de aço inox.
 
Obviamente são filtrados antes de engarrafar o vinho, o que nos leva à próxima categoria de agentes externos: estabilizantes e coagulantes.
 
Estas substâncias vão aglutinar todas as partículas em suspensão, que não foram separadas por filtração, deixando o vinho com uma aparência límpida. A mais tradicional e conhecida é a clara de ovo além da gelatina e da caseína, uma proteína do leite.
 
Ictiocola (Isinglass) uma substância obtidas a partir de bexigas de peixe, é muito eficientes na correção dos taninos acentuados, assim como a lama Bentonita que reduz a adstringência. Compostos plásticos (nada mais artificial) como o PVPP (polivinilpolipiltolidona) são empregados como eficientes estabilizadores.
 
Para finalizar esta relação de acréscimos, não podemos deixar de fora as leveduras utilizadas na fermentação. São responsáveis diretas por algumas sensações percebidas no palato e olfato. Mas para que elas cumpram sua função de converter o açúcar da fruta em álcool, pode ser necessária a adição de nutrientes específicos, evitando-se colocar mais açúcar o que poderia ir contra alguma norma de produção.
 
O equilíbrio dos diversos ácidos decorrentes da vinificação, Tartárico, Málico, Lático, Cítrico costuma ser corrigido quando determinados parâmetros não atingem o esperado. Se for necessário acrescenta-se o que falta e se for o caso oposto empregam-se antiácidos como carbonato de cálcio.
 
Nem sempre estas adições estão declaradas em rótulos e contra rótulos.
 
Encontrar um vinho que tenha passado por todas estas correções seria um caso em milhões. Estas modificações são pontuais e, na maioria das vezes, os grandes produtores vão evitar estes procedimentos. Alguns nem vão colocar seus vinhos no mercado zelando por sua boa marca. Por outro lado, os vinificadores que atendem o segmento de vinhos por atacado quase que dependem destas técnicas para oferecer um produto apenas aceitável.
 
Uma das pegadinhas de 1º de abril mais curiosa deste ano foi o anúncio, nos EUA, de uma revolucionária máquina, denominada Miracle Machine (Máquina Milagrosa) que transformava água em vinho.
 
Qualquer hora a gente chega lá…
 
 
Dica da Semana:  um vinho da Francônia muito apreciado pelos Bávaros. Raro aqui no Brasil. A casta Sylvaner é plantada no território alemão há mais de 350 anos.
 

Horst Sauer Escherndorfer Lump Silvaner Kabinett Trocken 2010 
Coloração palha com reflexos verdeais. No olfato traz fruta cítrica e tropical, sobre tons anisados e esfumaçados. Elegante no palato com excelente densidade, mineral e muito longo.

Vinho na Semana Santa

Por ser um país de raízes católicas, a maioria dos brasileiros respeita a tradição da abstinência na Sexta Feira Santa: não se consome carne ou seus derivados. Entram em cena os tradicionais frutos do mar e o bacalhau costuma ser a estrela do cardápio. Mas existem opções interessantes.
 
Vamos lembrar um pouco da história deste período. Tudo começa no Domingo de Ramos, celebrando a chegada de Jesus em Jerusalém e termina no Domingo de Páscoa comemorando sua ressureição. O ponto culminante desta celebração é marcado pela Santa Ceia ou Última Ceia, que ocorre na quinta-feira. As cenas pintadas pelos mais famosos artistas mostram que o vinho estava presenta nesta mesa.
 
O dia seguinte, sexta-feira, é um dia de pesar e lamento pela morte de Cristo. Antigamente se observava o jejum além da abstinência, as cozinhas não funcionavam e não se trabalhava.
 
No Sábado de Aleluia aguarda-se a ressureição. Um dos ritos mais curiosos deste dia é “malhar o Judas”, tradição mantida em muitos lugares.
 
O grande dia festivo é o Domingo de Páscoa comemorando a Ressureição. É o dia do grande banquete, dos ovos de chocolate e de muita alegria. Nos costumes brasileiros, herança de nossos descobridores portugueses, praticamente só se consome peixes, entre eles o bacalhau, e os frutos do mar. Mas em outras culturas há o hábito de assar um caprino ou ovino (cordeiro, cabrito, ovelha) que é servido ao fim do dia. Porco e coelho (lebre) também são comuns.
 
Apenas como uma curiosidade, naquela época era mais seguro beber vinho do que água, mesmo que a nossa bebida favorita já tivesse se convertido em vinagre. Por esta razão, o vinho não era um símbolo de comemoração, mas uma necessidade. Ao longo dos anos, com as descobertas de filtração e esterilização da água, o vinho paulatinamente tornou-se um artigo de exceção, só usado em ocasiões especiais. A Semana Santa é uma data muito particular para todos os cristãos.
 
Tomar um cálice de vinho na Quinta-Feira Santa é uma bela maneira de homenagear a Santa Ceia. Mas nada de exageros. É um vinho de reflexão, de comunhão, sem nenhuma extravagância gastronômica. Para combinar com este momento tem que ser algo de solene, com textura aveludada, cor fechada e belos aromas. Um vinho ao estilo Bordalês seria boa opção. No momento que escrevo imagino um Miguel Escorihuela Gascon, um corte de Malbec, Cabernet Sauvignon e Syrah elaborado em Mendoza.
 
 
Na Sexta-feira da Paixão, em algumas casas brasileiras, é dia de peixe. Todos conhecemos a harmonização clássica com vinhos brancos, mas isto não é uma regra fixa.
 
Tintos jovens e frutados ou Rosés podem se tornar escolhas interessantes valorizando a receita escolhida. Para não errar lembrem-se:
 
– pratos mais gordurosos pedem vinhos com mais acidez e algum tanino. Um tinto leve (Pinot ou Gamay) tem seu lugar;
 
– molhos salgados ou alimentos defumados casam melhor com vinhos jovens e frutados;
 
– espumantes quase sempre são coringas, mas neste dia…
 
Bacalhau, também consumido no Domingo de Páscoa, mereceria um capítulo inteiro. Vem de Portugal a combinação de tintos encorpados com este prato. Mas não é para qualquer receita: tem que ser um Bacalhau com Natas ou um Zé do Pipo. Precisa haver uma boa quantidade de gordura para enfrentar o turbilhão de taninos e acidez dos tintos da terrinha.
 
Obviamente, se a receita for de origem espanhola, nada melhor que um Tempranillo, que vai ficar perfeito, também, com uma Paella. Para preparações mais leves um Chardonnay que tenha passado por madeira e fermentação malolática é perfeito.
 
 
Na era da globalização o salmão virou boa opção. Não é difícil combiná-lo com vinhos: tintos leves como um Pinot ou mesmo um Syrah australiano dão conta do recado.
 
Uma saborosa combinação pode ser obtida com pratos mais leves como peixes cozidos no limão ou com molhos salgados como alcaparras e azeitonas – o sal excessivo pode ser equilibrado com um bom fortificado como o Jerez, o Porto branco ou o rosé, todos gelados.
 
Carne de caprino ou ovino no domingo de Páscoa é a grande pedida para quem gosta de bons vinhos e boa harmonização, embora não seja uma presença habitual nas mesas brasileiras. As opções são múltiplas, todas deliciosas, um casamento quase sagrado. Alguns autores afirmam que nada combina melhor com os grandes vinhos do mundo do que uma paleta de cordeiro assada ou mesmo as deliciosas costeletas. Estamos falando de Vega Sicilia, Petrus, Penfolds Grange, Don Melchor ou Catena Malbec Argentino. Todos “monstros sagrados” do mundo dos vinhos.
 
 
Mas não precisamos gastar muito, há muitas opções com excelente relação custo x benefício. Particularmente gosto dos vinhos em que a Syrah é a casta predominante. Cabernet americanos, chilenos e argentinos casam perfeitamente com este tipo de carne. Para fugir um pouco do habitual, há bons Tannat uruguaios, os vinhos portugueses sempre se saem bem assim como os Merlot produzidos por aqui. (vejam a dica da semana)
 
A sobremesa!
 
Para a turma que quer manter o peso e a silhueta a coisa fica difícil: chocolate, chocolate e mais chocolate. Infinitas variações!
A combinação tradicional sugere Vinho do Porto, Banyuls, Vin Santo, Ice Wines e outros de colheita tardia, todos doces ou muito doces.
 
Entretanto há exceções. Que tal harmonizar com um belo tinto seco, tal e qual ao usado no cordeiro?
 
É perfeitamente possível, mas para isto dar certo temos que escolher o chocolate adequado: esqueçam os Ovos de Páscoa, bombons e as barras de chocolate ao leite tão comuns. A combinação ideal seria um chocolate amargo com 75% de cacau ou mais – quanto maior for esta porcentagem melhor. Quem vai brilhar aqui será um bom e encorpado Cabernet, Merlot ou Syrah. Não tenham medo.

Dica da Semana:  
um belo e elegante tinto que pode ser servido com o cordeiro e o chocolate.
 
 

La Flor de Pulenta Cabernet Sauvignon 2011 
Vermelho profundo, seus aromas lembram pimentão e especiarias, com notas de baunilha e tabaco provenientes do carvalho.
Na boca apresenta boa concentração e taninos suaves que lhe conferem uma estrutura volumosa.
Seu final elegante e longo fazem dele um grande vinho.

Organizando uma reunião com vinhos

Com o fim do verão já podemos imaginar um clima mais ameno e propício a beber aqueles vinhos que estão na adega aguardando uma ocasião adequada. Mas vocês sabem organizar uma reunião de amigos para apreciar a nossa bebida favorita?
 
A maioria já deve estar imaginando o tradicionalíssimo “Queijos e Vinhos”, que é uma espécie de porto seguro e simples de organizar. Mas a coluna desta semana quer ir além, que tal dar uma incrementada nesta reunião de modo a torná-la inesquecível?
 
Existem diversos caminhos para serem explorados e as sugestões que serão apresentadas podem ser aproveitadas em qualquer destes caminhos.
 
Para evitar surpresas de última hora, precisamos estar minimamente equipados:
 
– taças de espumante e vinhos (branco e tinto) em número suficiente para todos os convidados;
 
– saca-rolhas, decantador ou aerador, termômetro, entre outros acessórios;
 
– tomem por base uma quantidade de aproximadamente 1/2 garrafa de vinho por participante. Por exemplo: para um grupo de 8 pessoas o ideal seriam 5 garrafas de vinho;
 
– observe a seguinte ordem para servir os vinhos:
 
. Espumantes
 
. Vinhos Brancos leves (Sauvignon Blanc, Alvarinho)
 
. Vinhos Brancos encorpados (Chardonnay, madeirados)
 
. Rosados
 
. Tintos leves (Gamay, Pinot Noir)
 
. Tintos encorpados ou alcoólicos (Cabernet, Syrah)
 
. Vinhos de Sobremesa ou Fortificados
 
Simplificações podem ser feitas. Hoje é bastante comum usar um único tipo de taça para todos os vinhos. Escolha um tamanho entre a clássica para vinhos brancos e as maiores para vinhos tintos. Prefira as de cristal ou meio-cristal, perfeitamente transparentes. Pode parecer uma mania boba, mas bordas “finas” são fundamentais.
 
Que tal um jantar informal ou suas variações?
 
Apesar do título pomposo, isto nada mais é do que um prato quente oferecido em algum momento da noite. Algumas coisas devem ser decididas de antemão, por exemplo, o que vai ser servido? Isto implicará no que vai harmonizar com o prato.
 
Outro ponto que achamos importante considerar é o custo da brincadeira.
 
Lembrem-se que um jantar num bom restaurante, com 1 ou 2 garrafas de vinho não sai por menos que 180,00 ou 200,00 reais por cabeça. Em casa podemos preparar uma bela festa gastando muito menos que isto. Não se acanhem em rachar a despesa. Uma forma que vai fazer com que todos participem é pedir aos convidados que contribuam, seja com os vinhos, previamente definidos, a sobremesa ou mesmo os pães e salgadinhos. O anfitrião entra com a casa e o prato principal.
 
Na semana passada organizamos uma reunião como esta aqui em casa.
 
Inicialmente seria servido um Arroz de Lula, mas descobrimos que um dos casais convidados tinha problemas com frutos do mar. Mudamos para um Escondidinho de Carne Seca, que acabou sendo um sucesso. Os acompanhamentos eram Arroz de Jasmim e Salada.
 
Para abrir os trabalhos havia um bloco de patê acompanhado de geleia de frutas vermelhas e uma forma de queijo Camembert. Torradinhas, Nachos e outros salgadinhos completavam o quadro.
 
Para preparar o paladar foram derrubadas duas garrafas de espumante, um Cave Pericó Champenoise Nature, de Santa Catarina, excelente por sinal, seguido de um Cave Geisse Brut, velho conhecido nosso. Tudo servido em longas flûtes e num ritmo lento e gostoso.
 
 
O Escondidinho foi servido por volta das 22:00. Estava tudo previamente montado restando apenas colocar no forno por alguns minutos e levar para os convivas.
 
Para harmonizar com o prato quente selecionamos um Inominable Lote III, interessante corte de diversas safras e castas (5 pelo menos) elaborado pela vinícola Villagio Grando, que estava guardado há algum tempo. Foi decantado no final da tarde repousando até o momento de degustar.
 
Para provocar os nossos amigos, deixamos a garrafa à vista já sabendo que todos só olhavam para o decantador.
 
Não deu outra, ninguém descobriu qual era o vinho…
 
Uma segundo vinho foi aberto, o Lagarde Guarda, corte de Malbec, Cabernet Sauvignon e outras castas, servido através de um aerador. Ficou bem interessante a comparação com a preferência dividida entre o Nacional e o Argentino.
 
 
Para encerrar a noite sorvete de baunilha e biscoitos de chocolate acompanhados de uma tacinha de Licor de Tannat, uma especialidade uruguaia. Já passava da meia-noite quando todos se despediram.
 
 
Não fizemos as contas, mas ficou infinitamente mais barato do que se gastaria na noite carioca, sem falar que o ambiente era insuperável. Um único e óbvio senão foi arrumar a casa no sábado de manhã…
 
Existem diversos desdobramentos possíveis nesta linha:
 
. Vinhos de uma determinada região e a culinária correspondente;
 
. Vinhos de uma mesma casta elaborado em diferentes regiões;
 
. Novo Mundo x Velho Mundo – esta é clássica e bem fácil de organizar;
 
. Vinhos de uma mesma faixa de preço. Muito interessante, fixe o valor e o tipo (branco ou tinto) e deixe que cada um escolha o que vai trazer. Divertido!
 
Para reuniões mais sofisticadas é perfeitamente possível fazer comparações de grandes vinhos, safras e até mesmo vinhos “elegantes” ou “icônicos”.

Dica da Semana:  um vinhaço lá da Califórnia. Escolhido recentemente como o melhor do Encontro de Vinhos 2014 no Rio de Janeiro
 

Mettler – Old Vines Zinfandel Epicenter

No nariz, aromas de ameixa, morangos e baunilha seguidos de um quê de anis.Na boca, complexos sabores de ameixa, cerejas negras, frutas do bosque escuras e tabaco.Tudo equilibrado com chocolate amargo que envolve o pálato.Taninos aveludados são mantidos em vibrante suco com acidez presente.
Harmoniza com carnes vermelhas, embutidos e massas com molho vermelho.

Como se degusta um vinho

A propósito da coluna da semana passada, uma das perguntas que recebi por e-mail questionava se haveriam diferenças de opinião entre os diversos críticos com relação a um mesmo vinho.
 
Resultados de uma prova de vinhos são subjetivos e cada pessoa vai reagir de modo diferente à aquilo que experimentou. No caso dos críticos profissionais, eles seguem um ritual que começa na observação da cor, passa pelos aromas, pelas texturas e finalmente pelo sabor.
 
Neste grupo de degustadores há pessoas de várias origens e formações, Chefs de Cozinha, Sommeliers, Engenheiros, Médicos, Advogados (Robert Parker), etc. Cada um com seus registros de memória gustativa e olfativa, o que significa que a probabilidade de resultados idênticos é muito pequena. Vamos conhecer um pouco mais desta rotina.
 
1ª passo – exame da coloração
 
Quando comecei a escrever para o Boletim fiz uma coluna sobre as diversas possibilidades de coloração num vinho, branco ou tinto. A cor pode nos dizer muito, mas para aprendermos os truques é necessária muita disciplina e organização. Para olhos bem treinados a cor pode indicar o tipo de uva, idade e até mesmo a origem.
 
Os profissionais usam uma taça padronizada, denominada ISO, mas podemos usar as nossas taças domésticas sem problemas. Basta que sejam de boa qualidade, sem coloração e bem transparentes. O ideal é examinar com luz natural ou em um local com boa iluminação branca de modo a não introduzir cores externas.
 
Inclina-se a taça sobre uma superfície branca examinando o corpo do líquido e a borda de contato. Procura-se por tons, variações, turbidez, transparência, etc.
 
 
Com treino seremos capazes de perceber diferenças entre um Merlot e um Cabernet, ou qualquer outra cepa, com facilidade.
 
2ª passo – aromas
 
Esta etapa geralmente é dividida em 2 partes. Logo após o 1º passo, trazemos a taça junto ao nariz e fazemos a primeira prova de aromas. Em seguida, giramos com alguma energia o vinho na taça, para que sofra uma rápida aeração e libere o máximo de aromas.
 
Fazemos a segunda prova de aromas.
 
O importante é perceber a maior quantidade de aromas possíveis e anotar que diferenças houve entre a 1ª e a 2ª prova. Isto mostra como o vinho pode evoluir. Para os menos experientes apenas os aromas mais marcantes serão percebidos, sempre lembrando que isto será limitado pelo nosso universo de conhecimento.
 
Os mais comuns são os aromas característicos de flores e frutas. Mas podemos aprender mais com esta análise. Os narizes bem treinados são capazes de determinar se o vinho passou por madeira, o tipo de terreno onde foi plantada a uva e, principalmente, determinar se a bebida está apta para consumo: os defeitos são facilmente percebidos nesta etapa. Há quem cheire a rolha em busca de defeitos.
 
 
Uma análise importante neste ponto é procurar pelas “lágrimas” nas laterais da taça. São bons indicadores de teor alcoólico e do corpo do vinho.
 
3º passo – em busca de texturas
 
Nesta fase vamos apenas molhar a língua com um pequeno gole.
 
Deixe o vinho por alguns segundos em contato e tente perceber os seguintes pontos:
 
na ponta da língua – sabores adocicados;
 
nas laterais – sabores ácidos;
 
no fundo – sabores amargos;
 
Desta forma podemos determinar se estamos provando um vinho leve, suave ou encorpado, a quantidade de taninos e se estão bem vinificados (fundo da língua), e se é um vinho mais seco ou mais doce. Um ótimo teste para taninos é passar a língua no céu da boca. Se estiver áspero, os taninos são mais intensos o que pode indicar um vinho mais jovem. O ideal é que o vinho passe uma sensação aveludada e de dulçor moderado.
 

 
4º passo – no palato
 
Nesta última etapa vamos confirmar, ou não, tudo que descobrimos nos passos anteriores. É a hora de deixar o vinho em contato com toda a boca e tentarmos encontrar os sabores correspondentes aos aromas que foram percebidos, confirmamos o corpo do vinho e registramos uma impressão final do conjunto. A intensidade de cada item descrito anteriormente é avaliada neste ponto e como cada um se destaca no conjunto. Os profissionais não consomem o vinho provado, o descartam num recipiente próprio para isto.
 

 
Conclusão
 
Cada crítico tem um método próprio de avaliação usando estes quatro passos. Alguns vão valorizar mais a intensidade de sabores, outros preferem enfatizar o conjunto, enfim, múltiplas possibilidades. A nota, seja nas escalas de 100, 20, 10 pontos ou apenas “*” como adota Hugh Johnson, é atribuída através de uma ponderação cujos pesos, para cada passo, são diferentes na opinião dos diversos avaliadores.
 
As principais publicações especializadas e a maioria dos guias regionais de vinhos, na busca por resultados mais homogêneos, promovem painéis de degustadores publicando um resultado que é a média geral de todas as notas obtidas.
 
Nesta seara, bastante subjetiva, uma unanimidade é rara assim como uma total disparidade. Uma boa técnica para tirarmos proveito destas críticas é simplesmente focarmos no “grupo do meio” desprezando as pontas. São vinhos muito bons e com preços competitivos. Os produtos que aparecem na ponta são mais caros e difíceis de serem encontrados. Na melhor hipótese vamos em busca de uma 2ª linha da mesma vinícola, o que pode nos trazer gratas surpresas.

Dica da Semana:  Um vinho branco elaborado com a casta Albariño da região de Rias Baixas, Espanha.

 

Paco & Lola Albariño 
Harmonioso e muito expressivo, com aromas sutis de frutas cítricas, maçã verde, pera e notas herbáceas sobre um fundo floral que se destacam no palato. Muito refrescante.

Consumir com Sushi, pescados, aperitivos, Paella, carnes brancas e mariscos.

Uma aula de Robert Parker

Parker foi um dos convidados a ministrar uma palestra no Simpósio dos Escritores especializados em Vinhos, de 2014, realizado em Napa Valley. Num auditório lotado, um dos presentes tentou colocar Parker numa “saia justa” ao perguntar:
 
O que é um vinho “parkerizado”?
 
Este termo vem sendo usado, de forma negativa, para depreciar uma improvável influência das notas deste respeitado crítico na maneira como alguns produtores elaboram seus vinhos. Algo como prepará-los para ganhar a nota máxima. A resposta foi uma aula de como deve ser ‘um bom vinho’.
 
Respondeu Robert Parker: (traduzida, adaptada e comentada)
 
 
” – Talvez um de vocês possa me dizer o que é!
 
Na década de 60, em Bordéus, o mais famoso enólogo era o Sr. Émile Peynaud. Ele tinha numerosos clientes e foi o primeiro que, de certa forma, começou a defender a utilização de alguns métodos mais radicais que não estavam sendo empregados e a usar processos mais seletivos na elaboração de melhores vinhos. Alguns de seus críticos começaram a usar o termo “Peynaudizado”, porque achavam que todos os vinhos (assim produzidos) tinham o mesmo gosto.
 
Eu acho que “Parkerização” é um derivado disso. Acredito que tenha sido cunhado por pessoas que não leem a Wine Advocate (publicação onde escreve Parker), que não veem a amplitude e a diversidade de vinhos que nós cobrimos. Provam, por exemplo, um Shiraz australiano ao qual eu atribuí uma alta pontuação e dizem “Parker gosta dessas intensas bombas de frutas, isto foi parkerizado – este vinho não vale mais nada”.
 
Repito: isto é apenas uma espécie de reação, instintiva e simplificada, que tenta confinar o meu paladar num cubículo ou defini-lo em termos de preto e branco. Todos sabem que eu espero que um dia este termo se torne um verbete no Dicionário Webster, mas até agora isso não aconteceu! As pessoas que me conhecem ficam chocadas com algumas das coisas que leem a meu respeito ou sobre o que eu, supostamente, estaria degustando.
 
Quando julgo vinhos acredito que a intensidade de sabor é fundamental. Estou olhando para os vinhos que eu quero que evoluam na garrafa e sejam melhores do que são hoje em cinco ou dez anos. Não se pode selecionar um vinho que está sendo produzido de uma forma rala e diluída e chamá-lo de elegante e feminino, ou o que seja, e esperar que este vinho faça qualquer coisa na garrafa. Ele só vai piorar porque, para começar, não há nada lá. Precisa de alguma força, precisa de alguma riqueza, precisa de alguma intensidade.
 
Há poucos dias abrimos uma última garrafa de um Chappellet 1969. (excelente Cabernet norte-americano produzido em 1969, ano de Woodstock)
 
 
Lembro-me de ter entrevistado o enólogo Philip Togni, que fez o vinho. Ele afirmou que (este) era o melhor Cabernet que já fizera.
 
Eu ponderei: “vamos lá, Phil, melhor do que qualquer um dos vinhos que você fez em sua adega de Spring Mountain?”.
 
Ele respondeu: “Sim, é o melhor de todos os vinhos.”.
 
Um dos meus mais antigos colegas, Dr. Jay Miller, encontrou (este vinho) em oferta num leilão e acabou comprando todo o lote, que eu acho que era de quatro caixas, por US$ 35.00 a garrafa. E nós degustamos este vinho – envelhecido por 45 anos- e ele era brilhante, poderoso, rico, algumas nuances mal começaram a desenvolver, e que poderia aguentar outros 45, ou 50 anos, se corretamente armazenado. Tem que haver substância, tem de haver intensidade.
 
Lembro-me de outra conversa, desta vez com o grande enólogo de Hermitage, Gerard Chave, sobre o seu 2003, que, como vocês sabem, não tinha nenhuma acidez nele.
Quero dizer, literalmente. O pH era acima de quatro. (Um dos grandes Syrah do mundo. 2003 foi um ano muito quente o que resultou em vinhos de baixa acidez e muito frutados, quase geleias).
 
 
Perguntei: “você vai engarrafar este vinho achando que vai envelhecer?”.
 
Ele respondeu: “Sim, porque é exatamente como o meu pai disse que fora o de 1929. Porque tem tanto extrato seco, tantas frutas e concentração, que ele vai sobreviver com tudo isto”.
 
Agora, obviamente, 11 anos depois, ainda é um pouco cedo demais para dizer se ele estava certo ou errado, mas eu aposto que ele está certo. Eles fazem vinhos desde 1481 e, geralmente, acertam…”
 
Fica fácil perceber as razões que tornaram Robert Parker a celebridade global de hoje. Recentemente o Hermitage 2003 foi degustado por um painel de experts recebendo, nada mais, nada menos, que os almejados 100 pontos.
 
Segundo RP, ainda não está pronto…

Dica da Semana:  já pensando no bacalhau da semana santa, uma aposta diferente para harmonização.

 

El Bosque Syrah

País: Chile
Uva: Syrah
Safra: 2011
Produtor: Viña Casablanca
Rico em especiarias, excelente para acompanhar um bom bacalhau com natas, que pedem por um vinho com mais taninos para equilibrar o creme de leite. Bom ajuste de intensidades em uma ótima harmonização.
« Older posts Newer posts »

© 2026 O Boletim do Vinho

Theme by Anders NorenUp ↑