Autor: Tuty (Page 42 of 154)

A Copa Jonia

O recipiente apresentado na foto é uma reprodução da “taça” de vinho usada no século VI aC. Foi presentada aos assinantes de um clube de vinhos europeu e a história por trás deste brinde é muito interessante.

A próxima foto mostra uma peça original que está no Museu de Huelva, na Andaluzia.

Eram produzidas na cidade grega de Ionia e comercializadas em diversos entrepostos do Mediterrâneo. Pesquisas arqueológicas recentes, encontraram peças como estas na região de espanhola de Jaen, alta Andaluzia, o que acabou inspirando alguns ceramistas, entre eles, Joan Carles Llarch, autor da peça moderna.

Llarch foi além. Produz as novamente famosas ânforas, garrafas, copas e fermenta o seu próprio vinho.

A argila branca utilizada vem do leito do Rio Llobregat, próximo a Barcelona. O design atual é mais liso e menos decorado que o original. A borda foi suavizada para facilitar o contato com os lábios na degustação.

Na hora de beber um vinho, a copa deve ser segurada com as duas mãos. Para manter sua coloração original, o artista aconselha que só seja usada para os vinhos brancos.

Quanta diferença para os dias de hoje!

O que mais chama a atenção é o modo de empunhar a taça. Partimos de uma composição de utensílios e movimentos que seria mais adequada para consumir um alimento e chegamos nas elegantes e refinadas taças de cristal, que se dão ao luxo de terem formatos estudados para cada tipo de vinho com finas e delicadas hastes que mantem nossas mãos, supostas fontes de calor, a uma distância segura do precioso líquido que está no bojo…

Dava para escrever um tratado sobre isso. Séculos atrás não existia refrigeração, a cor do vinho não era ponto de discussão entre os degustadores, a temperatura de serviço era a “do dia” e, imaginem só, os vinhos eram bem rudimentares, não tinham nenhum tipo de conservante e estragavam rapidamente. Não estaríamos errados afirmando que eram consumidos, no máximo, em 1 ou 2 dias após ficarem prontos. Depois, viravam vinagre… (e alguns consumiam mesmo assim)

A história do vinho acompanhou o desenvolvimento das “boas maneiras” da sociedade. Na mesma proporção que as diferentes culturas foram ficando mais civilizadas, utilizando um termo bem atual, o serviço do vinho foi se sofisticando. Em alguns casos ficou irritantemente complicado e isso fez com que a nossa bebida predileta recebesse a pecha de “esnobe”.

A Copa Jonia é a prova que o vinho era uma bebida descompromissada, sem as complicadas etiquetas. O que se buscava era ter uma alegria, um momento de pequeno prazer. Ninguém se incomodava de bebê-lo numa cumbuca de cerâmica, segurando com as duas mãos. Nenhuma preocupação com ritos de abrir a garrafa, servir, aerar, observar cor, aromas, retrogosto, ou saber qual era a casta, safra, produtor etc.

Beber um vinho era uma coisa mundana. Pensem nisso antes de degustar a próxima taça.

Saúde e bons vinhos!

Créditos:

Foto de abertura e da taça de cristal por Tomás Pinheiro;

Foto da Copa original obtida no site do Museu de Huelva;

Foto do ceramista Carles Llarch obtida no site de Linda Silva.

Girar a taça é importante?

Observar, girar, cheirar, provar e saborear é uma forma, simplificada, de traduzir e adaptar uma expressão usada em países de língua inglesa, “five S”, que funciona como uma regra de ouro para degustar um vinho: See; Swirl; Smell, Sip; Savor.

Não é muito diferente do que o rito usado por aqui, geralmente associado aos cinco sentidos: visão, olfato, paladar, tato e audição. Em 2011, publicamos duas colunas sobre o assunto com o título, “O vinho e nossos sentidos”: parte1 e parte 2. (nunca foram revisadas e o formato do texto pode parecer estranho).

Um ponto interessante na regra dos “5 S” é incluir o “swirl”, que conhecemos como “girar a taça”. Será que é tão importante assim?

Há vários aspectos a serem considerados. O primeiro deles, e talvez pouco relevante, é identificar quem sabe apreciar um bom vinho. Profissionais e Enófilos usam este truque habitualmente: vinho servido, uma primeira olhada, taça levada até o nariz seguida de leve e constante agitação. O ciclo se repete um par de vezes. Claro, tem gente que faz isto só para fingir que entende alguma coisa de vinhos. Por outro lado, este pequeno rito tem facetas que são pouco conhecidas até por experimentados aficionados.

A grande maioria usa este movimento de turbilhonar o vinho na taça para “abri-lo”, ou seja, para que ele apresente os melhores aromas e sabores que podem ser proporcionados naquele momento. Oxigenar o vinho, dizem uns, aerar, preferem outros.

Do ponto de vista técnico, ao agitar a taça, estamos introduzindo mais oxigênio, despertando odores e sabores e provocando a evaporação de um pouco de álcool que vai carregar alguns destes aromas, facilitando a nossa percepção. Outra característica que vai se beneficiar são os taninos. Com esta oxigenação tendem a ficar menos ásperos e mais sedosos.

Qualquer vinho vai se beneficiar deste movimento: tintos, brancos, rosados e generosos. Os mais jovens ou encorpados vão precisar de mais energia enquanto os vinhos mais maduros precisam de delicadeza.

Eliminar odores estranhos é outra função pouco percebida. Os sulfitos, que ocorrem naturalmente na vinificação, são os responsáveis por cheiros como fósforo queimado, ovo estragado e alguns outros. Nada que um pouco de agitação não faça sumir rapidamente.

Girar o vinho também é importante para realçar sua cor, facilitando a nossa observação. Quem controla bem a arte de trabalhar a taça, consegue que o líquido percorra toda a parede do recipiente. “Girar alto”, no jargão, provoca as “lágrimas” e traz algumas interessantes nuances na coloração.

Não é difícil dominar esta técnica. Para maior segurança e evitar desperdícios e acidentes, sempre apoiem a taça numa superfície plana. Só depois de algum treino será seguro elevar a taça, agitar, e não espirrar vinho em nada ou ninguém.

Comecem lentamente, com delicadeza. Procurem manter um movimento contínuo. Não se estendam. Agitar demais pode estragar tudo. Prefiram taças com mais área no bojo e haste longa. Facilitam muito. Com treino, será possível inclinar levemente a taça para que o vinho passeie por toda a superfície.

O tempo de agitação pode variar desde uns poucos segundos até 1 minuto, no máximo. Todo o cuidado será pouco com vinhos antigos. O ideal é dividir este tempo entre duas ou três sessões: agite, sinta os aromas, agite novamente …

Uma ótima alternativa, e bem mais segura para todos, é usar um decantador. A técnica é basicamente a mesma e, ao contrário de beneficiar somente o que está na taça, todo o conteúdo da garrafa é contemplado.

Há mais uma alternativa que reúne uma boa quantidade de críticas a favor e contra: um aerador. Gostamos desta opção, mas não é um solução universal. Na nossa experiência, vinhos tintos são mais indicados para usar este acessório do que os brancos e rosados.

Nada impede, entretanto, que se agite a taça após sermos servidos com um vinho que passou por qualquer destas duas técnicas finais.

Por último, um conselho óbvio: espumantes não se agitam, decantam ou aeram.

Saúde e bons vinhos!

Créditos: Foto por Terry Vlisidis para Unsplash

Termos vínicos portugueses

Mario Prata publicou em 1994 um divertido livro, “Schifaizfavoire – Dicionário de Português”, onde ressalta as diferenças linguísticas entre o idioma português falado no Brasil e o falado na Europa. Viveu cerca de dois anos em Portugal onde passou por diversas situações que deixariam qualquer um confuso. “Premir o autoclismo” é apenas uma delas. Há passagens impagáveis.

Da mesma forma, um grande amigo e colaborador eventual destas páginas, Ronald Sharp Jr., passou por alguns apertos durante seu recente passeio pela terrinha, onde teve oportunidade de visitar algumas ótimas vinícolas e conversar com diversos vinhateiros.

“Este vinho tem alguma frescura e é pouco taninoso”.

Não é difícil entender a frase acima, mas soa estranha em nossos ouvidos. Ronald elaborou um pequeno glossário com o que aprendeu neste passeio. Aqui está ele, com alguns comentários nossos:

Adega = Cantina, termo brasileiro para o local onde os vinhos são elaborados;

Cave = Adega, no nosso país. O local onde guardamos os vinhos. Lá preferem o galicismo;

Copo = é a nossa taça de vinho. Cuidado! Taça, por lá, é a nossa xícara;

Frapé = Balde de gelo para resfriar o vinho. Mudando o acento temos Frapê, que é uma bebida com gelo picado, uma granita;

Frescura = Frescor, característica de vinhos com boa acidez que nos passam esta sensação. Atenção: fresco significa gelado. Não estranhe, portanto, “água fresca”;

Taninoso = Tânico. Vinhos que passam a sensação de adstringência.

Libertação (dos aromas) = Liberação;

Película = Casca da uva;

Grainha = Semente

Aguardentação = Adição de aguardente vínico, na elaboração de vinhos generosos. O Porto é um deles.

Gostei tanto que, não só, resolvi escrever sobre o tema como fiz algumas pesquisas e encontrei mais diferenças curiosas.

Aqui estão mais algumas delas, em ordem aleatória. Passear em Portugal vai ficar mais fácil…

Escanção = é o nosso Sommelier. Para entender as origens de ambos os termos é só ler está antiga publicação – “Sommelier, Escanção”;

Maridagem = o mesmo que harmonização, que também é usado lá;

Colheita = Safra.

Garrafeira = tem vários significados. Pode ser um vinho reserva, tinto ou branco, que atende a determinada norma de elaboração; uma loja especializada em vinhos; local de guarda dos vinhos em nossas casas (adega);

Tambor = barrica;

Vinha = vinhedo;

Abafado = vinho que recebeu uma aguardentação para interromper a fermentação;

Adamado = o equivalente a classificação “meio-seco” (máximo de 45g de açúcar por litro);

Agulha ou Pico = Sensação efervescente comum em alguns vinhos como os vinhos verdes e os espumantes;

Perlante = Vinho com agulha.

Capitoso = vinho com elevado teor alcoólico

Escolha = Classificação prevista na lei, reservada a vinhos com Denominação de Origem e Indicação Geográfica, que apresentem características organolépticas destacadas.

Não esgotamos o assunto, há muito mais termos pouco usuais para os brasileiros.

Saúde e bons vinhos!

Foto de Jimmy Chan no Pexels

Ucrânia: Vinhateiros unidos jamais serão vencidos

A foto, obtida no site Wines of Ukraine, mostra a vinícola Chateau Chizay, em Boregovo. Embora a produção vinícola ucraniana não seja tão conhecida como a de outros países, existe uma tradição que ficou escondida por muito tempo e só foi renascer depois do fim do regime totalitário da antiga União Soviética.

Há registros de produção vinícola desde o século IV a.C, na região da Crimeia, hoje separada da Ucrânia. A maior região produtora atual, Odessa, conta com 52.000ha de vinhedos. Somem-se as regiões de Kherson, Mykolaiv e Transcarpathia. Ao todo são mais de cinquenta vinícolas que vinificam desde tradicionais castas europeias como Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Riesling, até as autóctones Telti Kuyruk, Odessa Negra e a branca Sukhyi Liman. Ao todo são 180 diferentes castas em produção.

Mas…

Tudo pode ser perdido neste insano momento em que uma inexplicável guerra pode colocar um triste fim nesta bonita história.

Vinhateiros ucranianos ainda não “engoliram” a separação da Crimeia, originalmente sua maior área de produção. A principal vinícola, Massandra, teve o seu diretor demitido e outro foi colocado para ser um capacho dos russos. O grande temor por trás disto tudo é ter que voltar a produzir ridículos vinhos adocicados em larga escala.

Os produtores ucranianos organizaram um movimento aberto de resistência e não pretendem vender barato um eventual derrota. Já se ofereceram para pegar em armas, inclusive.

Isto tudo nos leva a uma extensa reflexão sobre a palavra “democracia” e suas diversa interpretações mundo afora. Etimologicamente, significa o exercício do poder pelo povo ou por seus representantes eleitos. Apesar desta clareza, muitos ditos “representantes do povo” se esmeram em distorcer esses conceitos, moldando-os de modo que justifiquem suas mais desprezíveis ideias.

Esta ocupação russa da Ucrânia é, apenas, mais uma delas. Toda forma de resistência por parte dos vinhateiros, ou de quaisquer outros grupos será sempre apoiada por nós.

A democracia moderna está apoiada em alguns firmes pilares:

– A garantia da liberdade individual;

– A liberdade de opinião e expressão;

– A liberdade de eleger seus representantes, independente do regime político (presidencialista, parlamentarista, etc.);

– A igualdade de condições, direitos políticos e oportunidades favoráveis entre os indivíduos;

No entanto, estamos cansados de ver atentados diários a qualquer destes pilares, em várias “democracias” do mundo, inclusive no nosso país.

Vinho, no Brasil, ainda é visto como um item elitista, restrito aos mais favorecidos, não só financeiramente, mas, sobretudo, culturalmente. Para apreciar um bom vinho é preciso entendê-lo desde as suas origens. É uma viagem cultural acima de tudo.

Há gente que ainda acredita em mitos e nem foram capazes de abrir um bom dicionário e procurar uma definição. Eis alguns sinônimos que podem ajudar: alegoria, crença, fantasia, história, legenda, lenda, metáfora, mitologia, narrativa, quimera, utopia.

Apenas 1 comentário: zero, pelo conjunto da “obra” …

Saúde e bons vinhos, enquanto podemos…

PS: existem alguns vinhos ucranianos à venda no Brasil. Uma pesquisa no seu mecanismo de busca predileto pode revelar alguns achados. Infelizmente a maioria está indisponível. Creio que uma reposição, por enquanto, está fora de cogitação.

“Enfrentando” uma carta de vinhos

Este é um dos mais belos ritos de passagem para quem se insere no mundo dos vinhos. Um momento esperado e ao mesmo tempo temido até por Enófilos experientes: selecionar um vinho no restaurante.

Há vários caminhos a serem considerados nesse momento: os preços, o tipo de comida que será servida, a variedade de opções e muito mais. O que vai estar em jogo, definitivamente, é a reputação de bom conhecedor de assuntos enológicos. E isto não é pouco.

O preço costuma ser um fator dominante, principalmente por estas bandas onde os impostos sobre vinhos importados são altíssimos. Some-se a isto, a necessidade de lucro de alguns restaurantes que não hesitam em colocar sobrepreços abusivos. Honestamente, seria melhor, para estes, não gastar o seu capital em vinhos, mas aplicá-lo na Bolsa…

A nossa defesa é um movimento clássico: o vinho mais barato ou o segundo mais barato e pronto. Nem sempre é o ideal.

Numa boa casa, a carta de vinhos chega pelas mãos de um Sommelier. Uma conversa franca com ele pode ajudar muito. Perguntar sobre vinhos em promoção é o primeiro caminho. Estoques têm que ser renovados e, por esta razão, alguns vinhos que ficaram meio esquecidos nas adegas são oferecidos, fora da carta, a preços convidativos.

Outro aspecto a ser conversado com o Sommelier é estabelecer um limite de preço: pretendo gastar até esta quantia no vinho, o que você tem a oferecer?

Se nenhum destes aspectos é significativo, podemos usar esta situação para aprimorar nossos conhecimentos. Que tal buscar por um vinho que ainda não conhecemos?

Cartas bem elaboradas trazem descrições confiáveis sobre cada rótulo oferecido. Com isto em mente, é a hora certa para provar um vinho de origem pouco comum ou mesmo de pequenos produtores que nunca chegam nas prateleiras de mercados ou lojas especializadas. Rótulos de produção orgânica, biodinâmica e outros desta mesma linha, estão cada vez mais presentes nestas listagens.

Não é difícil encontrar uma destas preciosidades, mas é preciso dedicar algum tempo e atenção na leitura da carta. O ideal é explorar da primeira até a última página. Surgiram dúvidas? O Sommelier está ali para isto.

Uma última ferramenta, que quase todos nós carregamos no bolso, o celular tipo smartphone, pode ser outra boa fonte de informação. Aqui vai uma regrinha básica: antes de escolher um vinho, perguntem se há uma rede “wi-fi” disponível. Acessem e peçam ajuda a aplicativos como Vivino, Cellar Tracker, Google ou outro mecanismo de pesquisa.

Recentemente esbarramos com um vinho esloveno elaborado com a casta “Sivi Pinot”. Obviamente, quem elaborou a carta apenas reproduziu o conteúdo do contrarrótulo e não se preocupou com maiores esclarecimentos. Uma rápida consulta a um mecanismo de busca logo esclareceu: Pinot Gris.

Saúde e bons vinhos!

Foto: de Georgia Pictures no Pixabay

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