Autor: Tuty (Page 43 of 153)

Bacalhau, peru, presunto, frutos do mar e doces…

Sommelier, Consultor, Wine Writer ou um Enófilo dedicado, todos recebem a mesma questão quando se aproximam as comemorações de fim de ano:

Que vinho eu sirvo?

Não existe uma resposta, mas várias. São tantos detalhes envolvidos que é quase uma missão impossível cravar este ou aquele vinho como a melhor escolha. A condição ideal seria ter mais de uma opção, pelo menos um vinho de sobremesa para harmonizar com rabanadas e tortas ao final da refeição.

Historicamente, seguimos as tradições portuguesas. Bacalhau é quase que obrigatório, mesmo que o preço ande nas alturas. O peru há muito tempo foi substituído pelo Chester. Presunto tender é outra presença habitual, servido com rodelas de abacaxi em conserva, pelo menos. Casas mais modernas optam por receitas mais sofisticadas onde camarão, polvo e outras delícias do mar são os protagonistas.

Algumas ideias.

Uma das soluções é servir um bom espumante do começo ao fim. Funcionam como verdadeiros coringas. Por conta de sua boa acidez, são capazes de harmonizar até com carnes defumadas, o que não é exatamente um cardápio natalino. Na hora das sobremesas abram um espumante de Moscatel. Os produzidos no Brasil são considerados os melhores do mundo.

Bacalhau pode ser acompanhado com um tinto ou um branco, tudo vai depender da receita e do grau de harmonização desejado. Aposta certa são os Vinhos Verdes de boa qualidade. Alvarinho, Loureiro, Trajadura e a tinta Vinhão (Souzão) são escolhas seguras. Bebem-se frios, gelados.

Se o prato principal for camarão, os brancos já citados também podem ser servidos. A essa relação podem ser acrescidos os famosos Sauvignon Blanc sul-americanos, são perfeitos.

Polvo assado ou grelhado pode ser harmonizado com um tinto de boa cepa, como um Malbec argentino. Na gama de brancos, acrescentem o Chardonnay e o Semillon, só para ficar nas castas habituais.

O tender casa bem com um tinto mais leve como um bom Merlot. Os produzidos aqui, no Vale dos Vinhedos, tem ótima relação custo x benefício. Se quiserem ousar, sirvam um Gewürztraminer ou um Viognier.

A macias e brancas carnes, do peru ou do frango, combinam bem com brancos de personalidade e acidez média: Chenin Blanc sul africano ou o versátil Chardonnay são boas opções. Entre os tintos, prefiram os de corpo médio, o já citado Merlot, um Garnacha ou um Sangiovese. Vinhos rosados, uma tendência em todo o mundo, completam esta lista.

No capítulo das sobremesas as possibilidades se multiplicam.

Para as Rabanadas é só preparar a famosa calda de Vinho do Porto (*). Vinhos de sobremesa começam nos bons colheitas tardias brasileiros, argentinos, chilenos e uruguaios, como o famoso Licor de Tannat. Passam pelo Moscatel de Setúbal, encontram os Sauternes bordaleses e chegam na Itália, seja na siciliana ilha de Pantelleria com seus Passitos ou na Toscana e seu Vin Santo.

Recomendações finais

Não é a hora de economizar na bebida. Procurem nas boas lojas e mercados, produtores como Valduga, Ponto Nero, Salton, Chandon, Alma Única, Perrini e muitos outros.

Se a opção for por vinhos importados, os elaborados em Portugal, Itália, França, Argentina e Chile são os mais comuns em nosso mercado. Há mais opções, tudo depende do orçamento de cada um.

Nas lojas especializadas, não hesitem em pedir ajuda.

Saúde, bons vinhos e boas festas!

Estaremos de recesso até Janeiro de 2022.

Foto de abertura:Natal” criado por Timolina para Freepik

(*) Calda de Vinho do Porto para as Rabanadas 

Ingredientes: 
500 g de açúcar 
300 ml de água 
Casca de uma laranja 
1/2 cálice de vinho do Porto 

Preparo
Misture o açúcar e a água com a casca de laranja. Leve ao fogo e ferva por uns 3 minutos. Acrescente o vinho do Porto, espere ferver até o ponto de fio fino. Espere esfriar. 

Hábito, lenda ou mito?

A notícia não é nova: algumas garrafas do famoso Château Petrus foram passar uma temporada no espaço e já retornaram, até onde se sabe, sem problemas. O que há de novo é a volta de uma velha discussão, sobre os efeitos de uma longa viagem nas garrafas de vinhos transportadas.

A recomendação é antiga: deixe repousar as garrafas que viajaram com você antes de degustá-las. A ideia seria permitir que os eventuais sedimentos, revolvidos durante o transporte, decantem naturalmente para o fundo da garrafa ou para um lado, no caso de deixá-las repousando na horizontal.

Como em qualquer outra disputa, lados se formam e defendem seus pontos. Há quem afirme que é possível identificar alterações em várias características como taninos mais agressivos, aromas e sabores fechados e até efeitos sobre o teor alcoólico. No outro lado do ringue está a turma que apenas diz: “isso não passa de sua imaginação” …

Do ponto de vista da ciência, pouca coisa foi estudada até agora. Uma das experiências mais completas trabalhou com 3 grupos de amostras de um mesmo vinho. Uma parte permaneceu fixa, para servir de referência. As outras duas viajaram uma longa distância, por avião ou transporte rodoviário.

Reunidas, foram avaliadas por uma painel de especialistas que não foi capaz de identificar nenhuma diferença que justificasse um alerta, pelo menos. As análises laboratoriais mostram variações, pouco significativas, nos níveis de SO2 e na coloração, principalmente no grupo que viajou de avião, o que implicaria numa maior absorção de oxigênio pelas rolhas.

A viagem e estadia espacial das garrafas do “São Pedro” trazem novas evidências para o debate. Passaram por condições extremas, repousaram um ano em gravidade zero e retornaram em nova e violenta reentrada na atmosfera terrestre.

A experiência tinha outro objetivo, estudar os efeitos da microgravidade nas propriedades químicas e biológicas do vinho. Tudo foi feito dentro de rígidos e extensos protocolos, entre eles, um período de dois meses de readaptação antes de abrir algumas garrafas para uma degustação.

Curiosos com o resultado?

O grupo de especialistas que participou desta prova, às cegas, foi unânime: a única diferença perceptível era um aumento na intensidade das notas florais. Nenhum defeito foi notado.

Será que mais um mito foi detonado?

Cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém, diz a sabedoria popular. Se vocês leram direitinho o texto, perceberam que o nosso vinho astronauta descansou um par de meses antes de ter sua rolha sacada…

Por outro lado, se as forças gravitacionais extremas, velocidade de 30.000 Km/h além vibrações e impactos brutais, não conseguiram estragar um vinho excepcional, por que deveríamos nos preocupar?

As garrafas que eu trouxe da minha recente viajem ainda estão se recuperando. Eu continuo acreditando que este é um bom hábito. Mas os fatos foram expostos. Cabe ao leitor escolher o seu caminho.

Saúde e bons vinhos!

Foto de abertura obtida no Pexels

A culpa não é dos sulfitos!

Uma das virtudes mais apregoadas pela turma que produz vinhos naturais, sobre a ausência de sulfitos na sua composição impedir as famosas dores de cabeça, está caindo por terra. Segundo contam os mais recentes estudos, mais uma lenda está prestes a ser desmistificada.

Vocês já ouviram falar de Aminas Biogênicas?

Elas formam um grupo bastante conhecido, por exemplo, Histamina, Dopamina e Serotonina, entre outras. São consideradas tóxicas e indesejáveis, principalmente em alimentos e bebidas, vinhos inclusive.

A novidade do momento é que a ausência dos sulfitos na produção dos vinhos, um composto conservante, permite que estas aminas estejam presentes no produto final.

E, sim, são elas que causam a dor de cabeça ou a popular ressaca…

Desta forma, os vinhos “sem sulfitos” causam mais problemas do que os vinhos de produção tradicional. E muita gente se converteu a este estilo por esta razão.

O embate entre os dois “trends” anda bem animado. Não se sabe, ao certo, onde teve início a implicância com os compostos sulfurados. Estatisticamente, apenas 1% da população é sensível a eles, o que nem seria um problema para os apreciadores de um bom vinho, natural ou não.

Mas os naturalistas se apegaram a este fato com todas as forças, é quase um mantra. Não é difícil compreender seus motivos, a filosofia por trás desta linha é a da mínima intervenção – tudo que é necessário já está ali: a uva, as leveduras, nada de agrotóxicos, nada mecanizado. Quase que é só colher e deixar fermentar, sozinho…

Não sabemos se por opção ou por desconhecimento, omitem que, mesmo assim, alguns compostos sulfurados surgem durante o processo de fermentação. Quem segue está linha apenas não acrescenta mais nenhum. Por esta razão, os vinhos naturais, principalmente os brancos, não tem uma vida muito longa.

A discussão pode chegar bem mais longe. Um dos pontos mais polêmicos traz de volta, com outra roupagem, o “representar o terroir”. Os naturalistas afirmam que só os seus vinhos têm esta propriedade e que os demais seriam o resultado de uma grande química.

Nem tanto ao mar e nem tanto à terra!

Contrariar a ciência é complicado, ainda mais quando se usa alguma forma de negacionismo como ferramenta de marketing. Já vimos outras disputas como esta, por exemplo, velho mundo contra novo mundo; a “parkerização” dos vinhos; com madeira e sem madeira. Poderíamos fazer um longo texto somente com estas eternas discussões. Mas não chegaríamos a lugar nenhum, há espaços para todos.

Apenas lembrem-se: não julguem um vinho em função de uma possível dor de cabeça no dia seguinte.

Fiquem atentos:

– menos sulfitos implicam em mais aminas e uma chance maior de problemas, principalmente nos brancos;

– relaxe com preocupações como “terroir bem representado”. Tem que ser muito “bico fino” para entender e perceber o que é isso. Entre os apreciadores de vinho, mundo afora, a taxa de pessoas capazes de compreender este aspecto é ainda menor do que os que sofrem por alergia a sulfitos;

– um bom vinho não é definido apenas pelos aditivos que contém ou não. Há muito mais coisas envolvidas. As generalizações são sempre perigosas. Um dos maiores vinhos do mundo, o Romanée-Conti, não permite nenhuma mecanização em seus vinhedos. Cavalos são utilizados até hoje. E nem por isso se vende como “natural”;

– vinho é um produto comercializado da mesma forma que muitos outros que usamos de forma rotineira. Na maioria das vezes, algumas destas verdades mercadológicas não passam de belas embalagens que, quando abertas, estão vazias;

– vocês podem até não gostar, mas um vinho de 100 pontos é de se tirar o chapéu, seja tradicional, natural, esotérico ou do metaverso;

– e não dá dor de cabeça…

Saúde e bons vinhos!

Foto de abertura: Pixabay

Bodega Vivanco

No último dia do passeio pela Espanha, um domingo, fomos visitar a Bodega Vivanco. Um interessante complexo que inclui uma série de atividades e experiências para todos as idades e gostos. Além dos vinhedos e da área de produção, conta com um formidável museu do vinho que abrange inúmeros aspectos da história desta bebida. Há um ótimo restaurante, área de atividades para crianças, salões para os mais diversos eventos, degustações orientadas, cursos e muito mais.

Só o museu já vale a visita. São 5 salas de exposição permanente, espalhadas por uma área de 4000 metros quadrados. Cobre temas como arqueologia, numismática, saca rolhas e arte. Reservem boa parte do seu dia para poder aproveitar bem. Para completar, há salas com exposições temporárias. Não conseguimos ver tudo, no domingo o museu fecha mais cedo. Mais uma dica!

O passeio começa pelo vinhedo. Desta vez não fomos convidados a provar as uvas ainda nas parreiras. Ao contrário da outra vinícola visitada, esta nos pediu, gentilmente, que permanecêssemos atrás de uma faixa amarela, para preservar as melhores condições sanitárias das plantas.

Em seguida descemos para a espetacular sala dos tanques de fermentação (foto de abertura) que é impactante para qualquer visitante. A empresa usa as mais recentes tecnologias e segue a escola bordalesa onde o atual Enólogo, Rafael Vivanco Sáenz, concluiu seus estudos e se aperfeiçoou trabalhando em algumas das grandes casas de Bordeaux.

O portfólio é grande e está divido em diferentes categorias, Jovénes, Criados etc. Cada uma destas classificações tem sua área. A visita passa por algumas, com o ponto alto na sala da Coleção Vivanco, onde estão seus mais preciosos vinhos.

Seguimos para um gigantesco salão de barricas e saímos pela sala dos saca-rolhas, dentro do museu, para subirmos ao piso de acesso e iniciar a degustação.

A imagem pode sugerir que experimentamos todos estes vinhos, mas foram apenas 2: o Crianza 2018 o Reserva 2014. Ambos estavam corretos, com muita personalidade e boa tipicidade. Estão á venda no nosso país.

Para completar esta experiência, o pacote que havíamos contratado incluía um almoço harmonizado.

Estava tudo delicioso. Foi uma ótima visita. No dia seguinte, cedinho, enfrentamos 8 horas de estrada para retornar à nossa base na Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto.

Hubert, Mônica, Tuty, Claudia, Carol e Tomás

Saúde e bons vinhos!

Bodega Luis Cañas

A última etapa de nosso passeio pela Espanha foi na Rioja Alavessa, uma das mais importantes regiões produtoras de vinhos daquele país. Visitar algumas vinícolas era imperativo, o difícil foi escolher quais.

Apesar dos avisos passados por meu filho, Tomás, que “é melhor reservar logo”, fui postergando esta decisão. O resultado foi um pouco decepcionante: a maioria das bodegas consultadas já estavam com suas agendas lotadas, fruto da recessão turística durante a epidemia. Felizmente conseguimos agendar duas excelentes empresas. A Luis Cañas foi a primeira delas.

São quatro gerações ligadas ao mundo do vinho. Tudo começa há mais de 100 anos, com a produção de vinhos simples, utilizando cachos inteiros e maceração carbônica, na histórica Cueva de los Curas, uma bodega primitiva escavada na terra. Os vinhos a granel ali produzidos eram transportados por Carlos Cañas, em carroças puxadas por mulas, até os arredores de Bilbao e San Sebastian, num trajeto de cerca de 100 Km através da Serra de Cantábria e das montanhas Vitoria-Gasteiz.

Coube a seu filho, Luis, nascido em 1928, iniciar a constante busca por qualidade nos seus vinhedos e vinhos a granel, conquistando o paladar dos comerciantes dos armazéns de Bilbao. Em 1970 começa a engarrafar os seus vinhos de “cosechero”, o equivalente ao nosso vinho de colono. Nesta data, é construída a bodega que leva seu nome, ampliando o conceito de vinhos de qualidade.

Em 1989, assume as rédeas da empresa o seu sucessor, Juan Luis Canas, considerado um dos vinhateiros mais criativos da Espanha. Aumenta o portfólio de vinhos, passando a oferecer vinhos maduros, crianza, reserva e gran reserva, ao mesmo tempo que mantém a quase obsessiva busca pela qualidade e perfeição.

Em 1994 é inaugurada uma moderna instalação, equipada com o que há de melhor no mercado. A recompensa vem nos inúmeros prêmios que tem recebido em todo o mundo. Infelizmente seus vinhos não estão à venda no Brasil.

A visita é formidável, umas das poucas que pudemos fazer durante o período de produção. Normalmente, nessa fase, as atividades de enoturismo são restritas ou mesmo suspensas.

Fomos recebidos com dois pequenos agrados que já nos deixaram no clima: uma bela taça e um “pendural”. Este conjunto nos acompanharia durante todo o percurso e, ao final, poderíamos levar conosco. Um delicioso branco de vinhas velhas, deu início aos trabalhos.

Seguimos por um percurso onde um pouco da história da família é apresentada. Saímos para o pátio de recepção das uvas e descemos até o Mirador, onde acontece a segunda degustação: do tinto Reserva 2015 e do excelente azeite deles, que não é comercializado. Para surpresa de todos, somos convidados a entrar no vinhedo adjacente e provar algumas das diferentes varietais ali plantadas. Os pés estão carregados. Só esta experiência já vale a visita.

Passamos para a área de produção, fervilhando de gente trabalhando. Seleção manual de uvas, desengaço, trasfega para as cubas de fermentação. Alguns dos encarregados simplesmente paravam, momentaneamente, suas tarefas, para nos mostrar como tudo funciona, sem segredos. Uma das pessoas do grupo foi convidada a “operar” a máquina selecionadora.

O trajeto passa pela sala de barricas e termina no que chamam de pequeno museu, um ambiente com estantes abarrotadas de vinhos. Lá estão algumas das históricas primeiras garrafas, ao lado de vinificações feitas para terceiros, com rótulos próprios.

Não resisti e perguntei o óbvio: Ainda seria possível provar uma das garrafas originais?

Com um sorriso, nossa guia, Sandra, diz apenas uma palavrinha: vinagre!

A última degustação, de um vinho topo de linha acompanhada de uma tábua de queijos, embutidos e pães, acontece no salão da casa principal. Novamente, pequenos detalhes fizeram a diferença nesta maravilhosa visita. Uma aula de vinhos e de cortesia.

Voltaremos!

Saúde e bons vinhos.

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