Categoria: O mundo dos vinhos (Page 54 of 84)

Wine Spectator Top100 comentado

Tão certo quanto as festas de natal, a mítica relação dos melhores vinhos, publicada no final de cada ano pela respeitada revista norte americana, Wine Spectator, é um dos eventos mais esperados no mundo da enofilia.

O melhor de 2019 foi um vinho francês, o bordalês Château Léoville Barton, St.-Julien. A França emplacou outros dois vinhos no topo da lista o Château de Beaucastel Châteauneuf-du-Pape na 6ª posição e outro Bordeaux, o Château Pichon Baron, Pauillac em 8º. Completam os Top 10 quatro vinhos dos EUA, um italiano, um australiano e um chileno, o excelente Almaviva.

Os tintos predominaram ocupando 8 posições. Um branco e um espumante completam a relação.

A listagem, completa, pode ser acessada neste site: https://top100.winespectator.com/lists/

Uma análise mais detalhada desta lista nos leva a interessantes conclusões.

O primeiro ponto a ser observado é uma grande regionalidade neste resultado por conta do que é ofertado no mercado norte-americano. Muitos destes vinhos nunca chegarão às nossas prateleiras. Nesta mesma linha, fica fácil perceber a influência cultural do paladar e do poder aquisitivo daquele país. Não é uma lista universal, embora seja um indicador bastante seguro do que está bom, mas nem sempre acessível.

O quadro, acima, é uma prova da influência cultural neste resultado: os vinhos ‘made in USA’ dominaram o cenário. França e Itália completam o pódio, com pequena diferença entre eles.

Com relação à tipicidade não há nenhuma surpresa. Vejam o gráfico a seguir:

Amplo domínio dos tintos, representando 72% do total. 21% são brancos, 5% espumantes e 1 rosado e 1 generoso.

Usando o Google como ferramenta de pesquisa e validando os resultados que incluíam somente comerciantes de vinhos, foi possível obter um quadro do que é vendido no nosso país.

Apresentamos, a seguir, um quadro com estes vinhos que, hipoteticamente, podem estar à venda no nosso mercado. Várias observações se fazem necessárias:

1 – Na maioria dos resultados pesquisados, as safras oferecidas são mais antigas do que a da listagem;

2 – Nos casos em que o produto correspondia exatamente ao da relação, o preço aproximado está indicado;

3 – Podem haver diferenças entre os resultados apresentados por conta de denominações imperfeitas;

4 – O preço em US$ é para o mercado americano, serve como comparação e referência dos impostos que incidem sobre o vinho importado, no Brasil.

Para os que sonham em degustar um destes vinhos, há opções palatáveis, entre elas um ótimo Cabernet chileno.

Na próxima coluna vamos fazer a mesma análise para outra relação de 100 melhores vinhos, desta vez da Wine Enthusiast.

Saúde e bons vinhos!

Enólogos escolhem melhores vinhos argentinos.

Foto por Tatiana Rodriguez para Unsplash

Anualmente a Winifera organiza uma degustação com os principais enólogos argentinos, para selecionar os melhores vinhos do ano.

A edição de 2019 avaliou, por seus próprios produtores, cerca de 40 vinhos de diferentes regiões: Mendoza, San Juan, Rio Negro e Chubut.

Eis a lista dos 10 melhores:

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(*) da região de Los Sauces, próxima a Tunuyán

Como está chegando o Black Friday e a maioria das lojas de vinhos vão oferecer bons descontos, esta relação pode ser uma grande ajuda para os apreciadores dos caldos argentinos. Mas algumas considerações se fazem necessárias:

1 – Antes de comprar, anotem, desde já, os preços atuais para terem certeza que não estão comprando nenhum produto pela “metade do dobro”;

2 – Nem todos os vinhos desta degustação já estão sendo comercializados;

3 – No nosso país, o mais provável é encontrar alguns destes rótulos de outras safras. Por exemplo, o ótimo Kaiken Ultra que está sendo comercializado aqui é o de 2016.

4 – Além deste, os seguintes rótulos estão à venda em lojas nacionais:

– Dedicado Gran Malbec;

– Lamadrid Malbec Reserva;

– Finca Sophenia Roberto Luka;

– Escorihuela Gascón MEG;

Saúde e bons vinhos!

Não cometam estes erros!

Foto de Jakob Rubner para Unsplash

Lojas de vinho são sempre tentadoras. Estas, como a da foto que ilustra este texto, despertam um tipo de curiosidade que vai além do normal. É preciso se conter para não cometer nenhuma insanidade.

Estão em extinção. No meu último passeio em terras portugueses ainda encontrei algumas: pequenas, escuras, com garrafas de vinho num organizado caos. Só faltariam aqueles sacos de cereais, a granel, para serem confundidas com os armazéns de ontem.

Hoje as prateleiras de supermercados dominam as ofertas de vinhos nas grandes cidades. Enófilos mais radicais afirmam que nada de bom vai estar num destes mercados. Para comprar um grande vinho só mesmo em lojas especializadas.

Verdadeiro, mas totalmente fora de contexto. As grandes redes varejistas precisam de enormes volumes de produtos, vinhos inclusive, para poder abastecer suas lojas. Obviamente, quantidade nunca foi sinônimo de qualidade, mas não é uma regra exclusiva.

Dentre as várias opções disponíveis, podemos encontrar bons vinhos. O mais difícil será abrir mão de alguns preconceitos e, quem sabe, criar novos hábitos ou padrões para escolher nossos vinhos do dia a dia, sem problemas.

Pensem nos seguintes tópicos:

1 – Qual a sua opinião sobre tampas de rosca?

Se você é da turma que acha que este tipo de fechamento é indicador, seguro, de um vinho de baixa qualidade, errou feio.

Rolhas de cortiça são caras e só valem a pena, do ponto de vista dos produtores, para os vinhos de ponta. Alguns países, como Austrália e Nova Zelândia, onde o custo de uma rolha é proibitivo, a tampa de rosca é o padrão, até para seus melhores vinhos.

Não é um parâmetro confiável para indicar qualidade.

2 – Se o vinho está em oferta, deve ser bom…

Está é uma técnica bem conhecida para desencalhar o estoque de qualquer produto. Vale para os vinhos, também.

Se forem produtos perecíveis, é importante olhar a data de vencimento. No caso dos vinhos ou outras bebidas alcoólicas isto não é tão importante assim.

Neste caso, o mais provável é que não tenha sido uma boa compra pelo varejista. Na dúvida, leve 1 garrafa e experimente.

3 – Cor, forma e peso da garrafa são bons indicadores?

Negativo!

Outro truque muito comum para impressionar os incautos. Pode incluir os rótulos bonitos também, principalmente aqueles que prendem nossa atenção.

Lembrem-se: a qualidade de um vinho está no equilíbrio entre acidez, taninos, fruta, teor alcoólico etc…

Embalagens bonitas podem estar escondendo uma desagradável e, às vezes, cara surpresa!

Comprar num supermercado não chega a ser uma arte, mas devemos estar atentos para não cair nestas armadilhas.

Para se tornarem peritos nestas compras e perderem o medo ou a vergonha de consumir vinhos desta origem, aconselhamos fazer compras exploratórias.

Procurem por produtores que lhes são familiares ou por países e regiões mais conhecidas. Não se intimidem com castas diferentes ou vinhos de corte: o varietal, via de regra, não é a melhor escolha.

Experimente, experimente e experimente.

Fixe um orçamento e divirta-se.

Em pouco tempo vocês estarão dominando mais esta opção de compra.

Saúde e bons vinhos.

Qual o melhor vinho de sua vida?

A imagem que ilustra este texto (*) é a do famoso Château Mouton Rothschild, localizado na região de Pauillac, Medoc.

Considerado como um dos melhores vinhedos da França, seu bom nome foi, em grande parte, obra de um dos seus donos, Philippe, Baron de Rothschild, uma personalidade cheia de nuances interessantes além de ser um afamado frasista.

Sua resposta para a pergunta que titula esta coluna é simplesmente deliciosa. Todos imaginariam que com sua enorme fortuna e elegante estilo de vida, indicaria algum de seus próprios vinhos ou, então, qualquer dos mais icônicos e caros rótulos do mundo.

Nada disto. Eis sua resposta:

“Recordo que quando era muito jovem, convidei uma bela dama para irmos à praia. No caminho, compramos uma garrafa que não custou mais de cinco francos. Este foi o melhor vinho de minha vida”.

Uma colocação importante que chama a atenção para dois pontos: a simplicidade (do vinho) e a qualidade da companhia com quem vamos desfrutar os bons momentos.

Ao longo da vida de um enófilo sério, o simples gostar de vinhos passa a ser uma arte. O gosto fica mais requintado, as garrafas se tornam, obviamente, mais caras, os acessórios como saca-rolhas, taças, decantadores passam a ser ‘de marca’ e mais outras bobagens que tem, por objetivo, marcar terreno.

A adega torna-se um elemento importante da casa e nela estão guardados os mais preciosos tesouros.

Criam-se regras, não escritas, para abrir cada uma destas preciosidades, a tal ponto que na hora “H” as chances de tudo dar errado se tornam enormes.

Reparem na simplicidade do Barão: um vinho de 5 francos; mas uma bela dama ao seu lado.

Quanta sabedoria e que personalidade forte deste cavalheiro, muito seguro de si mesmo. No fundo, tudo o que ele planejou era cortejar sua dama, sem interferências, nem mesmo a do vinho.

Um momento perfeito!

Na última reunião da Diretoria (uma confraria), o confrade Sr. G, levou em belo vinho italiano, da Toscana, o Casalferro 2004. Lembrou que esta mesma garrafa já havia participado de outras reuniões e nunca fora aberta. Aos 15 anos, estava na hora de sacar a rolha e desfrutarmos de seu excelente conteúdo.

Ao fazer o exame da coloração, na taça, já se percebiam as bordas alaranjadas, primeiro sintoma que anuncia o fim de vida de um vinho.

Fomos degustando e beliscando petiscos árabes. A conversa fluía fácil sobre diversos assuntos e quando nos demos conta, o vinho estava com sinais de oxidação precoce. Morria em nossas taças…

Foi seu último suspiro para nossa alegria.

Entrou para o meu Top Ten.

Caro leitor, a bola está no seu campo.

Qual foi a sua melhor experiência vínica?

Saúde e bons vinhos!

(*) https://www.chateau-mouton-rothschild.com/

Borgonha para os Reis, Champagne para as Duquesas, Bordeaux para os Cavalheiros.

Este provérbio francês, anônimo, faz uma curiosa classificação entre os três maiores vinhos de França:

– Os Pinot, da Borgonha, estariam acima de todos;

– Os Champagne, só para o público feminino;

– Os cortes Bordaleses, seriam para os homens comuns.

Temos um ditado, por aqui, que é bem semelhante, e nos permite fazer uma deliciosa analogia:

“O Sol é para todos, a Sombra, só para os eleitos”.

Questionável é afirmar quem está sob a luz do Sol ou não. Os mais atentos certamente inverteriam a ordem dos vinhos e colocariam alguns “Chateau” acima de qualquer “Domaine”.

Então, o que realmente faz um vinho virar um ícone, um cult wine, o objeto de desejo daqueles que tudo se permitem?

Alguns fatos históricos colocaram os vinhos bordaleses em evidência: a classificação organizada por Napoleão e, antes disto, o consumo desenfreado pela corte inglesa. Leonor da Aquitânia, uma das mulheres mais poderosas de sua época, era proprietária de vários vinhedos em Bordeaux e foi esposa do Rei Henrique II da Inglaterra que também era o Rei Luís VII de França.

Os vinhos da Borgonha têm sua fama intrinsecamente ligada à sua qualidade. Isto se originou durante a incorporação destas terras pela França e a mudança de propriedade que passa das mãos da Igreja Católica para particulares, que vão formando os conhecidos Domaines.

Estes duas denominações resistem ao tempo. Nas lojas, se quisermos um Bordeaux, buscamos por um Chatêau, se a opção for Borgonha, procuramos por um Domaine.

Existem, por outro lado, rótulos em diversos países que, também, se tornaram famosos.

Barca Velha, em Portugal e Vega Sicilia, na Espanha são bem conhecidos nossos. Na Península Ibérica, as marcas são mais conhecidas que os produtores. Só para ilustrar, a Casa Ferreirinha produzia o Barca (agora é a Sogrape) e o Vega é homônimo de sua vinícola.

Na Itália, Barolos, Amarones e Brunellos são reconhecidos pelos seus produtores (Pio Cesare, Pieropan, Soldera…), o que nos dá uma outra pista para o caminho da fama: quem elabora estas preciosidades?

O Continente americano seguiu, por esta rota, com adaptações, para carimbar seus ícones. Por exemplo, alguns vinhos norte-americanos levam uma dupla assinatura, a do Enólogo e a do vinhedo. O famoso e disputado vinhedo, To-Kalon, produz, entre outros o sempre desejado Opus One. A simples sugestão de que as uvas procedem deste lugar torna-se um indicativo poderoso.

Olhando para a realidade sul-americana, o sobrenome Catena Zapata está sempre entre os melhores vinhos argentinos e do mundo. Entretanto, esta primazia é disputada, palmo a palmo, com outros nomes como Zuccardi, Vigil, Ricitelli (a lista é grande…), não descartando dois estrangeiros que ajudaram a moldar estes vinhos: Rolland e Hobbs.

Muito difícil separar seus vinhos de seus sobrenomes.

No Chile é parecido, com a ênfase caindo mais para as vinícolas do que seus enólogos/produtores. A Concha y Toro tem vinhos entre os mais importantes do mundo, alguns em associação com grandes produtores franceses (Almaviva, Don Melchor, Carmim de Peumo).

Lá se percebe outra disputa acirrada: Errazuriz, Lapostole (os donos são franceses), Undurraga, Cousiño Macul… E não podemos esquecer as vinícolas de garagem que fazem um sucesso indiscutível.

Incansável busca pela alta qualidade.

Temos nossos cult wines bem brasileiros também. O Lote 43, da Miolo, certamente entra em qualquer lista de vinhos importantes, assim como o Storia, da família Valduga. Entre os espumantes, Cave Geisse (Mario Geisse é chileno) é a nossa referência.

A estes nomes podem se juntar vários outros: Dal Pizzol, Salton…

Adotamos em nosso país a estratégia dos italianos: o nome do produtor é quem vai indicar a qualidade do vinho. Uma garantia.

Na sua próxima compra, desvie seus olhos do rótulo e avalie os outros parâmetros, como os citados neste texto.

Saúde e bons vinhos!

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