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Vinhos do velho e do novo mundo

Este tema é uma questão fundamental para aqueles que realmente desejam compreender o mundo dos vinhos. Uma simples divisão entre dois continentes, inicialmente, que mais tarde foi ampliada para outras regiões, formou legiões de apreciadores e/ou detratores de um estilo “europeu”, caracterizado pelo “corte bordalês”, ou de um estilo “americano”, caracterizado pelos vinhos varietais.

No final das contas, todos são vinhos, foram elaborados a partir das mesmas castas e, em alguns casos, vinificados pelas mesmas pessoas. Muda, apenas, o endereço ou, no nosso jargão, o terroir. Ainda assim, não é explicação suficiente, dúvidas persistem, algumas muito diretas como “este vinho é melhor que o outro” que, na verdade, se resume a uma questão de gosto pessoal.

Um ponto muito importante nesta discussão é compreender as diferenças entre as diversas normas de elaboração dos vinhos em cada país produtor. Saber ler e interpretar um rótulo é a chave para esclarecer muitas destas dúvidas.

Na França, os vinhos são comercializados enfatizando em seus rótulos as regiões produtoras. As castas utilizadas nem sempre são citadas, cabendo ao consumidor saber, por exemplo, que um Pouilly-Fuissé é um Chardonnay da Borgonha, enquanto um Pouilly-Fumé é um Sauvignon Blanc do Vale do Loire.

Neste link da Wikipedia, há uma extensa lista, em inglês, das regiões que podem aparecer nos rótulos dos vinhos franceses. Ainda assim, é necessário um conhecimento mais detalhado para alguns casos. Bordeaux é o melhor exemplo: são várias sub-regiões, as mais famosas estão nas margens esquerda e direita do rio Garonne. São terroirs bem característicos distribuídos ao longo delas. No caso dos tintos, cada Chateau tem seu corte próprio com as conhecidas castas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec e, eventualmente, Carménère. Nada mais é permitido!

Em 1976, um evento ocorrido em Paris chamou a atenção para os vinhos elaborados na Norte América, até então pouco conhecidos na Europa. O chamado “Julgamento de Paris” foi uma belíssima degustação comparativa entre vinhos dos dois países, com um amplo domínio dos americanos, que se apresentavam de forma direta, sem rodeios: nos rótulos estavam destacadas as castas utilizadas, quase sempre, uma só. Um dos vencedores foi o Chardonnay do Chateau Montelena. Vejam a foto a seguir:

Novamente, as normas de elaboração de vinhos têm papel preponderante no que pode ou deve aparecer nos rótulos. Atualmente, nos EUA, basta que o vinho tenha 75% de uma casta dominante para ser considerado um “varietal” …

Fica fácil entender a razão dos atuais vinhos 100% de uma só casta.

São dois estilos de vinhos muito mais calcados no binômio clima e terreno do que em simplificações como cortes e varietais. Em ambos os continentes, os consumidores se cansaram das tipicidades tradicionais ou dos altos preços de alguns vinhos icônicos. Nas Américas, os cortes estão ficando mais populares, com misturas muito inovadoras que cruzam diversas influências. Na Europa, principalmente na França, os caríssimos vinhos bordaleses e similares vão ganhando novos companheiros, menos sisudos e mais palatáveis no bolso. Até mesmo a rígida regra das “castas permitidas” aqui e acolá está sendo dobrada.

Antigos e tradicionais países produtores no Velho Continente, que caíram no ostracismo, estão sendo redescobertos trazendo de volta alguns prazeres quase esquecidos. São antigas uvas dadas como extintas, técnicas de produção milenares que estavam abandonadas que, agora, estão sendo atualizadas e novas formas de embalar e de consumir a nossa bebida favorita.

No Novo Mundo, as inovações que sempre caracterizaram o estilo de vinhos continuam evoluindo, não esquecendo as inspirações vindas do outro continente. Novos países produtores se valem destas técnicas para trazer ou reviver novas castas e técnicas que resultam em vinhos surpreendentes.

As diferenças são menores a cada nova safra. Quem ganha é o consumidor que souber “ler” corretamente o que tem em mãos: novo mundo é velho mundo e vice-versa.

Saúde e bons vinhos!

Créditos:

Mapa mundi – Imagem criada por macrovetor para Freepik

Chateau Montelena – foto por ayako – Flickr: a bottle from my birth year, CC BY 2.0

Organizando uma adega

Uma das mais interessantes facetas do universo dos vinhos, algo que fascina desde novos enófilos até os mais experientes, é ter sua própria adega. Traz aquela segurança de ter sempre por perto alguns de nossos vinhos favoritos, nos faz sonhar com uma garrafa diligentemente comprada para ser, um dia, degustada e, como se nada disto bastasse, ainda vira uma espécie de vitrine do nosso gosto pessoal.

Montar uma adega em casa, mesmo com poucas garrafas, não é apenas comprar e guardar – isto nem sempre funciona: algum planejamento é necessário.

A nossa primeira recomendação é começar pequeno e com um orçamento aceitável. Investir em grandes vinhos será uma segunda etapa, depois de dominarmos a manhas desta operação.

O segundo ponto é encontrar a localização ideal de guarda, dentro de nosso espaço doméstico. Uma solução, óbvia, é investir numa adega climatizada. Não é mandatório: um canto de um armário, que não receba luz solar, bem ventilado e fresco pode funcionar perfeitamente para este propósito.

A terceira recomendação é decorrente: quantas garrafas devemos manter em estoque?

Um bom ponto de partida é comprar três garrafas de cada tipo de vinho que mais apreciamos: uma será de consumo rápido e servirá de balizador para o destino das outras duas. Devemos acreditar no nosso “feeling” e estabelecer uma data limite para o consumo, degustando a segunda garrafa no meio deste caminho.

Esta sugestão vale para todos os tipos de vinhos: tranquilos, espumantes e generosos. Em linhas gerais, os vinhos mais simples duram entre 1 e 3 anos, os vinhos finos e caros podem durar até 20 anos. Alguns generosos e os de sobremesa podem dobrar este tempo. Vinhos brancos tem vida ligeiramente inferior à dos tintos.

Um detalhe que muitas vezes passa despercebido é fazer o “rol” do nosso estoque, dando baixa em tudo que foi consumido, facilitando a reposição. Para os mais aplicados e organizados, vale incluir uma indicação da posição da garrafa. Colocar etiquetas penduradas nos gargalos é outra boa dica. Não precisam ser sofisticadas, podendo conter apenas o nome do vinho e a safra, ou um código que remeta a listagem.

Qualquer que seja a adega, higiene é fundamental. Periodicamente devemos examinar as garrafas, removendo, da melhor e mais delicada maneira, qualquer mancha de mofo, acúmulo de poeira e, sobretudo, observar se não há indícios de vazamentos ou ressecamentos das rolhas. Este conselho deve ser observado até pelos que optarem por adegas climatizadas.

Desde que começamos a escrever no O Boletim do Vinho, a recomendação de manter um caderno de anotações é periodicamente enfatizada. No caso dos vinhos adegados se torna mais importante e será o instrumento chave para fazer o “giro do estoque”. As informações ali contidas nos orientarão sobre o que deve ser repetido e o que deve ser inovado.

Se o orçamento for generoso, esta é a hora de investir num grande vinho, aquele que nunca provamos e que habita nossos sonhos. Desta vez, não será uma aventura, mas uma compra com a segurança de termos o espaço certo e a disposição de deixá-lo quietinho a espera de um grande dia.

— “A minha adega tem algumas garrafas neste compasso”.

Saúde e bons vinhos, inclusive na adega!

Créditos:

Foto de Amy Chen no Unsplash

Qual a ordem de serviço dos vinhos? – de volta ao básico

A maneira mais fácil de estragar uma refeição harmonizada é não dar a devida importância para a sequência dos vinhos que serão servidos. Muito fácil de perceber o tamanho do possível estrago: sirvam um vinho mais encorpado antes de um mais leve. Ninguém vai gostar do segundo vinho…

Ao contrário da conhecida propriedade da multiplicação, aqui, no mundo dos vinhos, a ordem de serviço altera o resultado.

Há uma regra básica a partir da qual múltiplos corolários se apresentam:

Sirvam primeiro os brancos, seguido dos rosados, dos tintos e para finalizar os de sobremesa e os generosos.

Espumantes podem ser os primeiros vinhos, para preparar o palato antes de uma refeição ou, ao final, para brindar ou celebrar um evento. Neste caso os brut devem ser servidos primeiro deixando os Demi-sec ou doces para o final.

A quantidade de açúcar no vinho é o que está por trás destas regrinhas. Numa relação bem direta, sirvam os vinhos mais secos antes dos mais doces. O que nos leva a mais um ponto a ser considerado: vinhos mais leves vêm antes dos encorpados e os mais jovens, antes dos maduros. Para facilitar, aqui está um prático resuminho:

– Brancos antes dos tintos;

– Secos antes dos doces;

– Vinhos mais frios em primeiro lugar;

– Leves antes dos encorpados;

– Vinhos mais simples antes do mais complexos;

– Jovens antes dos envelhecidos.

Estas não são cláusulas pétreas e devem ser usadas com sabedoria e bom senso. Em sã consciência, ninguém imaginaria servir um leve Pinot Noir da Borgonha na sequência de uma degustação com Cabernet e Malbec. Já ao contrário…

Exceções sempre existem, por exemplo, numa refeição em que o prato principal harmonizaria com um branco encorpado e que tenha passado por madeira, nada impede que o vinho servido com a entrada seja um branco suave ou mesmo tinto ligeiro.

Um corolário importante diz respeito àquelas situações em que um tipo de vinho, apenas, será servido: todos serão brancos ou tintos. Embora não seja mais uma regrinha, é bom lembrar que existem inúmeras variações entre as diversas castas e formas de vinificação, logo, podemos imaginar uma escala de serviço que se aplica nestes casos:

Para os brancos: Riesling seco; Pinot Grigio; Sauvignon Blanc; Gewürztraminer; Chenin Blanc; Viognier; Chardonnay.

Para os tintos: Pinot Noir; Sangiovese; Tempranillo; Grenache; Zinfandel/Primitivo; Merlot; Carménère; Shiraz/Syrah; Malbec; Cabernet Sauvignon.

Para os de sobremesa: Colheita tardia e outros doces (brancos antes dos tintos); Fortificados/Generosos (Porto, Jerez etc.)

Saúde e bons vinhos, na ordem certa!

Ilustração: “Garrafa de vinho”, vetor criado por macrovector para Freepik

Harmonizar – de volta ao básico

A ideia de combinar vinho e comida não é nova, vem de muito tempo atrás, quando beber água não era seguro: naqueles tempos, não existiam tratamentos para água potável e nem filtros caseiros. Beber um vinho ou outra bebida alcoólica durante as refeições diminuía o risco de se contrair alguma doença.

Atualmente, alguns autores e profissionais da gastronomia definem a harmonização de vinho e comida como uma experiência que vai otimizar aromas e sabores de uma refeição. Geralmente quem mais se beneficia desta “experiência” são os “restaurateurs” (Chefs, Sommeliers etc.) que não só vendem a comida como os vinhos que lhes interessam passar adiante.

Não são os vinhateiros que descobriram ou inventaram as regras de harmonização e nem vinhos são produzidos para serem consumidos com este ou aquele prato, isto é coisa dos salões dos restaurantes mundo afora.

Por outro lado, existe uma curiosa raiz, neste capítulo, que nos ajuda a entender como tudo pode ter começado: as comidas típicas das regiões produtoras de vinho. Podemos imaginar livremente que tanto o vinho quanto os pratos tenham se ajustado ao longo da história.

Esta talvez tenha sido a primeira forma de harmonização, digamos, consciente e, quem sabe, tenha originado a mais clássica das “regras”, a que combina a cor da comida com a cor do vinho.

Funciona?

Em certos casos, sim. Mas não é disto que estamos falando.

Harmonizar não é uma ciência, é algo totalmente empírico. Em qualquer curso sobre vinho este é um tema considerado obrigatório, e algumas regras, que eu prefiro chamar de técnicas, vão ser explicadas. Há livros também, muitos, e cada escritor aborda o tema de uma forma diversa.

Em comum, todos tentam criar a tal “experiência” que melhora tudo. Nem sempre acertam. Um dos piores resultados de uma combinação errada é chegar no desagradável sabor metálico, muito comum quando se misturam frutos do mar com alguns vinhos tintos. Neste caso, a proteína dos frutos do mar não reage bem com o tanino do vinho. Para quem quiser se aprofundar mais, visite esta matéria do meu site: “O tal do gosto metálico”.

Qualquer Enófilo de boa cepa tem sempre um caderninho onde faz anotações de tudo que acha relevante, o que pode variar desde uma excepcional garrafa de vinho até locais onde uma formidável experiência gastronômica foi vivenciada. Se algum dos leitores ainda não tem um, aqui vão algumas informações sobre como não errar na hora de combinar vinho e comida e dar partida nestas anotações pessoais. Desta forma, em vez de seguir pétreas normas, podemos nos aventurar em criar nossas próprias elocubrações.

1 – Os principais fatores que serão determinantes nas diversas combinações são: taninos, acidez, doçura, teor alcoólico e passagem (ou não) por madeira.

Para refrescar a memória, quando se fala em “acidez” estamos nos referindo àquela sensação de refrescância no palato. Já tanino é o oposto, uma sensação adstringente. Vinhos, tintos ou brancos, que passaram por madeira tendem a ser mais arredondados e fáceis de beber – menos tânicos no caso dos tintos;

2 – O termo harmonizar é uma pista importante para o que deve acontecer: equilíbrio. Um prato com molhos densos e pesados deve ser combinado com um vinho de características semelhantes: encorpado, marcante. Já um prato como peixe ou salada, pede um vinho mais leve. Cuidado, entretanto, com molhos muito cítricos ou avinagrados. Neste caso, optem por um vinho com maior acidez;

3 – Doces harmonizam com vinhos um pouco mais doces. Algumas combinações são clássicas, como chocolate e Vinho do Porto, mas não é a única opção: vinhos tintos frutados e com taninos domados ficam ótimos com chocolates amargos;

4 – Teores maiores de gordura são compensados por vinhos mais tânicos. Pratos picantes podem se beneficiar de um vinho mais adocicado. Para pratos com maior acidez combinem com vinhos brancos com acidez destacada;

5 – Surgindo dúvidas, harmonizem o molho ou o acompanhamento em vez da proteína principal. Atenção com aspargos, couve de Bruxelas e similares – não se entendem bem com qualquer vinho…

6 – Espumantes são considerados coringas, harmonizando, por contraste, com uma inacreditável quantidade de pratos, inclusive a nossa onipresente Feijoada.

7 – Alguns vinhos chave:

Sauvignon Blanc é mais leve e tem mais acidez que um Chardonnay que é mais encorpado e menos ácido;

Cabernet Sauvignon é mais encorpado e tem mais taninos do que um Pinot Noir que é de corpo leve e pouco tânico;

Saúde, bons vinhos e boas harmonizações!

Foto: Queijo e vinho, criada por master1305 para Freepik

Cristais na rolha – o que é isto?

Para começo de conversa, não é um defeito. Sob um olhar mais detalhado e crítico, pode até ser uma qualidade. Para entender o que acontece neste caso, não basta ser um degustador de vinhos, é preciso ter um pouco de cultura enológica. Esta talvez seja a faceta mais interessante a ser descoberta quando se mergulha neste infinito universo.

Cada região produtora, cada vinícola e cada vinho tem uma história por trás. Conhece-las, mesmo que superficialmente, torna cada gole mais gostoso e nos permite ir um pouco mais além na hora de decidir o que degustar.

Estes cristais são de Bissulfato Tartárico, quimicamente categorizados como um sal. São inofensivos e decorrem da presença do Ácido Tartárico, um dos produtos que surgem na vinificação. Ele é o responsável por dar corpo e cor ao vinho. Em determinadas situações há uma concentração maior deste ácido que acaba se combinando com outro elemento comum nos vinhos, o Potássio, formando os cristais. Ocorrem tanto em vinhos tintos quanto nos brancos, apenas a cor do cristal pode ser mais escura ou clara.

Não existe uma explicação simples para esta reação. Uma multiplicidade de fatores, que incluem desde o tipo de uva até alguns processos de fermentação, pode estar por trás dos cristaizinhos. Vinhos de guarda são mais propensos a apresentar estes sedimentos, algumas vezes surgindo logo após a rolha ser sacada. Em vinhos jovens é sinal de que algum processo de elaboração foi feito de forma desatenta.

Normalmente são mais fáceis de serem percebidos no fundo das garrafas ou em suspensão no líquido, o que é resolvido com uma decantação antes de servir. Quando estão na rolha, é uma indicação sobre a forma como a garrafa foi armazenada durante sua vida, deitada, para não ressecar a cortiça.

Uma das maneiras que os produtores conseguem controlar a concentração do Ácido Tartárico, evitando a formação dos cristais, é trabalhando com maceração a frio, uma técnica que mantém o mosto em baixas temperaturas logo após a fermentação. Não é uma informação que conste de rótulos ou contrarrótulos, apenas das Fichas Técnicas, disponibilizadas pelas vinícolas.

Enófilos, que tem um espírito mais zen, enxergam este fenômeno de uma forma altamente positiva e desejável: são cristais, aos quais podem ser atribuídos diversos poderes, inclusive de cura.

Outro grupo de apreciadores imaginam que sejam verdadeiros diamantes, do vinho, é claro, não se importando com sua presença e valorizando estarem ali.

Qual é o grupo de vocês?

Saúde e bons vinhos!

Créditos das fotos:

Abertura – “1/5/12” por Scott’s Scenes, licenciada sob CC BY 2.0;

Foto 2 – “200810x_064” por Paul A Hernandez, licenciada sob CC BY 2.0;

Foto 3 – “Cork Crystals” por wanderingnome, licenciada sob CC BY-NC-ND.2.0.

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