Autor: Tuty (Page 127 of 153)

Decantar: sim ou não?

 O mundo do vinho tem vários temas que geram discussões infindáveis, por exemplo: vinhos do Velho Mundo e do Novo Mundo, algo como comparar austeros senhores que fumam charutos e jogam Bridge, com uma garotada que vai à praia e ao show de Rock and Roll. Mais questionável ainda é a discussão sobre decantar ou não vinhos e as modernas variantes como aerar e até mesmo agitar com um mixer.
 
A necessidade de decantar um vinho surge quando se vai servir um vinho como um ótimo Bordeaux que foi guardado por 10 ou mais anos. Há um depósito de resíduos na garrafa, a borra, que deve ser evitada ao verter o vinho em uma taça. O melhor truque é usar um decantador, seguindo um bonito ritual em que o Sommelier verte cuidadosamente o líquido no jarro e, com o auxílio de uma vela estrategicamente colocada sob o gargalo da garrafa consegue interromper a operação ao aparecer o primeiro vestígio do resíduo.
 
 
Após esta explicação, parece totalmente sem sentido decantar um vinho jovem, como os produzidos no Novo Mundo. Posso assegurar que estamos entrando num campo cheio de armadilhas com defensores ferrenhos do ‘Sim, devemos!’ e do ‘Não devemos!’. Para complicar, há razões de sobra para apoiar qualquer dos lados.
 
A alegação mais comum dos que defendem a decantação do vinho jovem é que a oxigenação obtida com este processo começa a domá-lo e alegra o nosso paladar. Ponto para eles, mas esta não é a única maneira de aerar um vinho, jovem ou maduro: existe uma grande variedade de acessórios para esta finalidade, o mais famoso talvez seja o Vinturi. Mas não separa sedimentos.
 
 
O que realmente acontece quando decantamos um vinho?
 
A ciência tem explicações interessantes. Um estudo feito pela Escola de Farmácia de Shenyang demonstrou que este procedimento efetivamente altera a composição química do vinho, diminuindo a concentração dos ácidos orgânicos que são importantes agentes na formação dos sabores azedos. A presença de polifenóis, tanino entre eles, também diminui, tornando o vinho mais agradável.
 
Uma descoberta que surpreendeu os especialistas foi a influência da temperatura ambiente e da intensidade luminosa: aumentando significativamente estes dois fatores, o vinho reage rapidamente e pode ser consumido antes do tempo padrão de espera, que gira em torno de 1 hora. Mas nada de exageros, procure o lugar mais quente da sala e acenda todas as luzes…
 
No lado negativo, este mesmo estudo mostrou que se há um ganho no paladar, em contrapartida ocorre uma perda significativa dos famosos antioxidantes que trariam benefícios à saúde de todos. Só por isto já não seria recomendado decantar.
 
Nem mesmo o estudo da Escola de Farmácia fica impune: outra corrente de estudiosos da química afirma que a quantidade de oxigênio incorporada ao vinho pela decantação não seria suficiente para permitir as alterações alegadas. Em lugar de 1 hora seriam necessárias 12 horas ou mais para permitir que todas as reações se completem de modo satisfatório. Isto não é prático…
 
Pode parecer, neste ponto, que apreciadores de um bom vinho estão perdendo a razão. Uma nova corrente, liderada por Nathan Myhrvold, uma polêmica figura que mistura tecnologia com alta gastronomia – ele já foi o Chefe de Tecnologia da Microsoft – introduziu a “hiperdecantação”, um processo radical:
 
– esqueçam delicadezas ou sutilezas, verte-se o vinho num copo cilíndrico e com o auxílio de um mixer de cozinha agita-se vigorosamente por 30 a 60 segundos. Pode-se usar um liquidificador, como alternativa. Aguarda-se a espuma baixar para degustar.
 
Segundo este autor de ‘Modernist Cusine’, o mesmo efeito pode ser obtido fechando a garrafa com uma tampa temporária e submetendo-a a uma agitação intensa. Coisa impensável segundo os cânones do vinho.
 
 
Resumo da ópera: obviamente testamos este inovador processo. Os resultados foram desanimadores, mas ainda não desistimos totalmente de fazer uma nova experiência. O nosso sistema preferido é usar um bom aerador. Vinturi e Vinoair são os preferidos.
 
Como sugestão final, aconselhamos que experimentem estas técnicas radicais e tirem suas conclusões. Mas não estraguem um bom vinho!
 
Dica da Semana: para decantar com todo o requinte!
 
Sessantanni” Farnese Primitivo di Manduria DOC 2009
Elaborado com 100% da casta Primitivo.
Vinho de cor rubi intensa e profundida. Aroma de frutas, com notas de café e doce tabaco. Este é um vinho suave e rico, com sabores de frutas vermelhas, cerejas e toques de frutas secas. É apoiado por um denso e complexo meio, com taninos suficientes para equilibrar os enormes sabores, terminando em um incrivelmente rico e acetinado final.
Harmonização: Acompanha carne vermelha grelhada, caça e massas com molhos intensos.
 

A uva Tannat tem seu genoma desvendado

A dica de vinho da semana passada era um belo vinho uruguaio, com ótima relação custo x benefício. Mas não poderia imaginar que, além disto, descobertas muito recentes de pesquisadores daquele país junto com italianos, acrescentaram mais um fator: ótimo para a saúde!
 
Tudo isto só foi possível com o estudo do DNA desta curiosa casta, originária da região de Madiran, França, aos pés dos Pireneus e bem próxima à Espanha. Aqui no nosso vizinho Uruguai encontrou seu terroir especial.
 
 
Numa recente entrevista, o Professor Francisco Carrau que liderou esta importante pesquisa feita pelo Programa de Biodiversidade na América Latina e Caribe (BIOLAC) da Universidade das Nações Unidas, em Montevidéu, mencionou:
 
“A vinificação sempre foi uma arte; hoje em dia é uma ciência também. Se pudermos determinar, através da biotecnologia, os fatores que determinam a cor e o aroma dos vinhos, poderemos aplicar potencialmente esta informação para criar produtos mais prazerosos e valiosos.”
 
O que torna este estudo particularmente interessante é a carga de taninos que carrega esta uva. Seu nome, Tannat, pode ser traduzido em linhas gerais como “Tânica”: o que poderia ser um fator negativo é seu grande trunfo.
 
Comparada com a Cabernet Sauvignon, Merlot ou Pinot Noir, a quantidade de taninos mais que dobra nos vinhos obtidos com esta uva franco-uruguaia. Isto significa uma alta concentração de agentes antioxidantes que ajudam a combater o envelhecimento das células, propriedade atribuída ao grande número de sementes nos bagos. Os altos níveis detectados de Procianidinas, quatro vezes mais que as encontradas em outros vinhos, ajudam efetivamente a combater a pressão alta, baixar o colesterol e melhorar as condições de coagulação do sangue.
 
Não resisto ao chavão: em lugar de rir, Vinho é o melhor remédio!
 
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Dica da Semana:os vinhos portugueses nunca saem de moda. Mais um belo produto para termos em nossa adega.
 
Pacato 2009 Vinificado no Alentejo com as castas Trincadeira e Syrah é concentrado e cheio de fruta. Um vinho fácil de gostar com ótima relação custo x benefício.
Harmoniza com pizza, churrasco, risotos, massas com molhos à base de tomate e queijos em geral.

Ainda as “Castas Nobres”

Parece que a coluna da semana passada causou mais confusão do que esclarecimentos. Muitos leitores questionaram se existiriam vinhos de qualidade produzidos com castas “não nobres”, uma preocupação válida, mas muito distante do objetivo do texto anterior a este, que pretendia, apenas, discutir a razão do adjetivo Nobre.
 
Para que todos fiquem tranquilos, existem vinhos de alta qualidade produzidos, até mesmo, com castas consideradas como “obscuras”. Também existem vinhos de péssima qualidade, as zurrapas, produzidos com as mais famosas castas do mundo.
 
Conclusão: a qualidade de um vinho não pode ser determinada só pelo tipo de uva que será utilizada na sua produção. Diversos outros fatores têm um peso mais significativo na qualidade final: o binômio terreno e clima; os métodos de vinificação e amadurecimento e até mesmo as técnicas de engarrafamento e selagem da garrafa. A qualidade final de um vinho dependerá, sempre, de um conjunto de fatores.
 
Para auxiliar os leitores na compreensão das razões pelas quais classificaram determinadas castas como superiores às demais, foi sugerido que se pesquisasse em relações de melhores vinhos, quais as varietais empregadas que se destacavam.
 
Na semana passada, um dos sites de maior importância para quem é realmente aficionado e tem recursos financeiros para investir em vinhos de alta qualidade, publicou a relação dos vinhos mais procurados. O site em questão, o Wine Searcher (http://www.wine-searcher.com/) tem como principal objetivo encontrar vinhos raros que são colocados à venda em diversas lojas ou casas de leilão, por todo o planeta. Vamos comentar, em grupos de 10 vinhos, os 50 primeiros apresentando as principais características.
 
1 a 10
 
1. Chateau Margaux, Margaux, Corte Bordalês;
2. Domaines Barons de Rothschild Chateau Lafite Rothschild, Pauillac, Corte Bordalês;
3. Baron Philippe de Rothschild Chateau Mouton Rothschild, Pauillac, Corte Bordalês;
4. Moet & Chandon Dom Perignon Brut, Champagne;
5. Petrus, Pomerol, Corte Bordalês, na verdade quase 100% Merlot;
6. Chateau Latour, Pauillac, Corte Bordalês;
7. Chateau Cos d’Estournel, Saint-Estephe, Corte Bordalês;
8. Chateau d’Yquem, Sauternes, Vinho de Sobremesa;
9. Chateau Haut-Brion, Pessac-Leognan, Corte Bordalês;
10. Opus One, Napa Valley, EUA, Corte Bordalês.
 
Como era de se esperar, completo domínio dos vinhos de Bordeaux, cortes obtidos a partir de Cabernet Sauvignon e Merlot, castas nobres. Três interessantes destaques, um Sauternes obtido a partir da Casta Semillon que nunca foi classificada como nobre, um Champagne vinificado a partir de Chardonnay e Pinot Noir, ambas nobres, e um vinho norte americano produzido ao estilo dos vinhos de Bordeaux.
 
11 a 20
 
11. Domaine de la Romanée-Conti Romanée-Conti Grand Cru, Côte de Nuits, Borgonha;
12. Chateau Lynch-Bages, Pauillac, Corte Bordalês;
13. Tenuta San Guido Sassicaia Bolgheri, Super Toscano;
14. Armand de Brignac Ace of Spades Gold Brut, Champagne;
15. Penfolds Grange Bin 95, Shiraz Australiano;
16. Chateau Cheval Blanc, Saint-Emilion Grand Cru, Corte Bordalês;
17. Chateau Pontet-Canet, Pauillac, Corte Bordalês;
18. Louis Roederer Cristal Brut Millesime, Champagne;
19. Chateau Montrose, Saint-Estephe, Corte Bordalês;
20. Domaine de la Romanee-Conti La Tache Grand Cru Monopole, Cote de Nuits, Borgonha.
 
Continua o pleno domínio dos Bordaleses, com 4 destaques: dois vinhos da Borgonha produzidos com a nobre Pinot Noir, um italiano que é uma das muitas versões italianas de um vinho de Bordeaux. Por último, um potente Shiraz australiano, outra casta que ainda não foi dignificada com um título real, mas deveria.
 
21 a 30
 
21. Chateau Leoville-Las Cases ‘Grand Vin de Leoville du Marquis de Las Cases’, Corte Bordalês;
22. Chateau Pichon Longueville Comtesse de Lalande, Pauillac, Corte Bordalês;
23. Chateau Palmer, Margaux, Corte Bordalês;
24. Chateau Leoville Barton, Saint-Julien, Corte Bordalês;
25. Krug Brut, Champagne;
26. Chateau Pavie, Saint-Emilion Grand Cru, Corte Bordalês;
27. Chateau Ducru-Beaucaillou, Saint-Julien, Corte Bordalês;
28. Marchesi Antinori Tignanello Toscana IGT, Super Toscano;
29. Chateau Angelus, Saint-Emilion Grand Cru, Corte Bordalês;
30. Chateau Pichon-Longueville au Baron de Pichon-Longueville, Pauillac, Corte Bordalês.
 
Dois destaques: outro Champagne e outra versão italiana de um vinho de Bordeaux.
 
31 a 40
 
31. Chateau La Mission Haut-Brion, Pessac-Leognan, Corte Bordalês;
32. Chateau Leoville Poyferre, Saint-Julien, Corte Bordalês;
33. Tenuta dell’Ornellaia ‘Ornellaia’ Bolgheri Superiore, Toscana, Super Toscano;
34. Screaming Eagle Cabernet Sauvignon, Napa Valley, EUA, 100% varietal;
35. Dominus Estate Christian Moueix, Napa Valley, USA, Corte Bordalês;
36. Caymus Vineyards Cabernet Sauvignon, Napa Valley, EUA, 100% varietal;
37. Perrin & Fils Chateau de Beaucastel Chateauneuf-du-Pape, Rhone, França;
38. Chateau Talbot, Saint-Julien, Corte Bordalês;
39. Tenuta dell’Ornellaia Masseto Toscana Igt, varietal 100% Merlot;
40. Joseph Phelps Vineyards Insignia, Napa Valley, EUA, Corte Bordalês.
 
Destacam-se dois italianos vinificados ao modo de Bordeaux e dois 100% Cabernet Sauvignon da América do Norte. Além destes, aparece o primeiro vinho da região do rio Ródano, um Chateneuf–du-Pape, tradicionalmente um corte que envolve até 13 castas diferentes entre tintas e brancas, nenhuma delas consideradas nobres. Por outro lado, o mais respeitado crítico de vinhos do mundo, Robert Parker, cansou de atribuir os almejados 100 pontos aos vinhos desta região…
 
41 a 50
 
41. Chateau Gruaud-Larose, Saint-Julien, Corte Bordalês;
42. Chateau Calon-Segur, Saint-Estephe, Corte Bordalês;
43. Domaines Barons de Rothschild Chateau Lafite Rothschild “Carruades de Lafite”, Pauillac, Corte Bordalês;
44. Chateau Ausone, Saint-Emilion Grand Cru, Corte Bordalês;
45. Vega Sicilia Unico Gran Reserva, Ribera del Duero, varietal 100% Tempranillo;
46. Chateau Beychevelle, Saint-Julien, Corte Bordalês;
47. Domaines Barons de Rothschild Chateau Duhart-Milon, Pauillac, Corte Bordalês;
48. Chateau Grand-Puy-Lacoste, Pauillac, Corte Bordalês;
49. Taylor Fladgate Vintage Port, Portugal, Vinho do Porto;
50. Moet & Chandon Brut, Champagne;
 
Neste último lote temos alguns destaques interessantes. O Vega Sicilia Único, um dos vinhos mais famosos da Espanha e do Mundo, é produzido com uma casta não nobre. Aparece o primeiro Vinho do Porto, produzido com castas exclusivas de Portugal que nunca chegaram perto da “corte”…
 
Com estes exemplos, esperamos que os leitores percebam que a nobreza de uma uva está muito mais ligada ao que é possível se obter a partir dela do que uma simples relação direta do tipo “se a uva é nobre o vinho é bom”.
 
Isto é falso!
 
Um segundo ponto fica claro nesta relação, o pleno domínio dos vinhos franceses, principalmente os produzidos em Bordeaux.
 
Antiguidade é posto, até no mundo dos vinhos.

Dica da Semana: um bom Tannat produzido no Uruguai, para que ninguém duvide das castas ‘não nobres’.
 
Don Pascual Reserve Tannat 
Intensa cor vermelha com reflexos rubi. Aroma onde domina frutas vermelhas e cassis. Muito bem estruturado com presença de taninos revestidos e frutas vermelhas.
Harmonização: Carnes, massas e queijos.

Por que ‘Castas Nobres’?

O uso do adjetivo ‘nobre’ para definir uvas ou vinhos é muito antigo e tem raízes muito interessantes, afinal o que faz uma determinada varietal ser classificada como nobre em detrimento de outras?
 
Uma rápida pesquisa em textos de autores consagrados nos forneceu uma boa definição:
“Uvas nobres são as uvas tradicionalmente associadas com os vinhos da mais alta qualidade”.
Sauvignon Blanc, Riesling, Chardonnay, Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e Merlot, são as eternas castas agraciadas com títulos como Rainha disto ou daquilo. Entretanto, alguns críticos, talvez sentindo a exagerada influência francesa nesta lista, substituem a Sauvignon Blanc e a Merlot pela excelente italiana Nebbiolo.
 
Ainda assim, resta uma dúvida: seriam realmente superiores os vinhos produzidos com estas uvas?
 
Posso ir mais longe: e as castas típicas do Novo Mundo, Zinfandel, Carménère, Malbec, etc., ou as ibéricas Tempranillo e Touriga Nacional, não se enquadram?
 
Apesar de apaixonante, este tema exige um pouco mais de informação para ser compreendido. Por trás da “qualidade” está o que é denominado ‘Estrutura’, algo como o esqueleto do vinho. Aqui está a diferença: só será percebida na hora da vinificação, da elaboração.
 
A mais simples demonstração de que realmente há uma diferença pode ser observada nas relações de grandes vinhos publicadas por revistas especializadas ou nos mais variados guias internacionais: desde que a indústria do vinho existe, esta pequena relação de ‘nobres’ domina o cenário. Não é à toa que a fama dos vinhos franceses perdura por séculos. Na relação apresentada, apenas a Riesling (que existe na Alsácia) e a Nebbiolo não são de Bordeaux ou da Bourgogne…
 
A estrutura de um vinho é difícil de ser explicada e entendida. Envolve múltiplos aspectos e o relacionamento entre eles: acidez, taninos, álcool, etc., que em última análise vai determinar sabores, aromas, capacidade de envelhecimento e outras características.
 
Um dos elementos mais importantes é a Textura. Pode parecer uma ideia um pouco tênue se compararmos com outros materiais como tecidos, madeiras ou cerâmicas, mas definitivamente há diferentes texturas na nossa bebida predileta. Esta qualidade está associada àquelas sensações de grande amplitude (de aromas e sabores), permanência no palato e o gole aveludado ou o seu oposto (áspero), entre outras. Novamente, sobressai o conjunto em vez de valores individuais.
 
Este talvez seja o segredo das castas nobres: bem vinificadas, nos presenteiam com uma formidável estrutura e tudo de bom que dela decorre.
 
Um velho e batido jargão faz muito sentido neste momento: “Antiguidade é posto”.
 
Não há mais como ignorar a qualidade dos vinhos produzidos, hoje, no Chile, na Califórnia, na Argentina e em outros países, alguns europeus. Mas, para que um dia suas castas emblemáticas sejam elevadas de categoria, só há um fator a ser considerado: tempo, muito tempo.

Dica da Semana: não precisa esperar séculos, pode ser consumido já!
 
Hardys Nottage Hill Merlot 2011
Um vinho australiano de muita presença em boca, fresco com leve traço de hortelã, sabores de fruta vermelhas maduras, e noz-moscada.
Sua textura de densidade média o torna versátil para acompanhar diversos pratos.

Quais os seus ritos ao comer ou beber?

Escrever uma coluna semanal sobre vinhos, mesmo para um apaixonado como este autor, pode ser um castigo. Algumas vezes não se consegue um tema interessante para apresentar aos leitores. Resta a opção de comentar este ou aquele produto, o que pode não ser do interesse de todos. Um dos caminhos para contornar estas crises de criatividade é ler muito sobre o tema e assuntos correlatos, quase sempre aparece alguma boa história.
 
Na carona daquelas pesquisas sobre as origens das videiras, descobriram que vinhos eram consumidos há muito mais tempo do que se imaginava. O interessante ficou por conta dos motivos de tal consumo: a água, naquela época, era contaminada, beber vinho era mais seguro e saudável! Mas imaginem o seguinte, o vinho não continha nenhum conservante e nem existia nenhuma forma de refrigeração, ou seja, em 2 ou 3 dias já teria se transformado em vinagre. Bebiam assim mesmo…
 
Outra pesquisa recente foi realizada em conjunto pelas Universidades de Harvard e a de Minnesota em Mineápolis. Os pesquisadores conseguiram demonstrar que determinados ritos que cumprimos antes de consumir este ou aquele alimento os tornam mais saborosos!
 
Do que estão falando?
 
De pequenos hábitos ou manias que estão tão enraizados no nosso dia a dia que se tornaram ritos. Por exemplo: para comer um daqueles biscoitos recheados, que lembram um pequeno sanduíche, o rito padrão é separar as metades, comer o recheio primeiro e depois os dois biscoitinhos. Não conheço ninguém que nunca fez isto.
 
 
Outro exemplo é como consumir uma bela fatia de pizza? Com as mãos, dobrando-a para evitar cair gotas de gordura sobre a roupa ou num prato, usando talheres? (garanto de da primeira forma fica muito melhor!).
 
 
Não podemos esquecer a turma do café da manhã, um fumegante café com leite, pão francês coberto com manteiga e aquela mergulhada na xícara antes de comer. Até o dia fica melhor!
 
 
Um dos experimentos realizados no estudo envolvia uma barra de chocolate. Os voluntários foram divididos em grupos, o primeiro recebeu instruções específicas, algo como dividir a barra ao meio, escolher uma metade, remover o papel laminado e degustar.Ao outro grupo foi sugerido que simplesmente desembrulhassem a barra e a consumissem.
 
Analisadas as impressões descritas, ficou claro que o grupo que cumpriu o ritual de dividir, desembrulhar e comer teve um grau de satisfação muito maior que o outro grupo.
 
Não sou um chocólatra, mas quando ganho uma boa barra de chocolate belga ou suíço me dou o trabalho de dividi-la naqueles quadradinhos e como um por um. Delícia!
 
A pesquisa chegou aos ritos do vinho também, mas deixou a desejar. Formaram dois grupos, um removia a cápsula e sacava a rolha enquanto o outro grupo observava.
 
O resultado foi um pouco decepcionante, apenas o 1º grupo notou alguma satisfação maior. Acho que faltou envolverem pessoas mais ligadas a este universo. Não há ritualística maior do que escolher, abrir e degustar uma boa garrafa. Vamos aos fatos.
 
Escolher o vinho é o primeiro rito. Seja através de um catálogo em que se perdem horas analisando descrição por descrição, ou numa loja especializada onde rótulos são comparados, garrafas são manuseadas e discutidas de forma intensa e prazerosa com os vendedores. Uma boa crítica em revistas pode ser fonte para uma ritualística caçada em busca da ‘presa’ almejada.
 
O segundo passo é múltiplo: armazenar e decidir quando e onde consumir. As possibilidades são inúmeras, tantas quanto as desculpas para adiar a data e continuar curtindo a ideia. (já aconteceu de perder um vinho por conta desta busca da perfeição…).
 
Decidido o dia, a hora, o local e a companhia, chega a vez de escolher as taças. Garanto que os leitores estão achando graça, mas um bom enófilo é capaz de ter formatos de taça e qualidade de cristais específicos para cada tipo de vinho. A loucura não para por aqui, as taças devem estar imaculadamente limpas, o que envolve água quente, álcool e panos que não soltam fiapos…
 
 
Vamos abrir a garrafa. Parece simples não? É só pegar o saca-rolhas e – alto lá! Não é qualquer saca-rolhas não, no mínimo um modelo Sommelier ou um Rabbit, senão estraga a rolha, pode deixar resíduos indesejáveis, etc. Se for uma garrafa de mais idade, deve ser utilizado um de lâminas duplas. Decantar ou não, aerar ou não, harmonizar e finalmente degustar.
 
 
Com todo este cerimonial, não há vinho que não fique ótimo!
 
Quais os seus ritos? Conte para agente, pode ser um bom assunto para as próximas colunas. Até lá fiquem com a…

Dica da Semana: um vinho para beber sem frescura. 
 
Urban Uco Tempranillo 

Elaborado na Argentina com a casta espanhola mais emblemática, o Urban Uco Tempranillo é macio e repleto de notas de fruta madura.

A safra de 2008 arrematou 89 pontos de Robert Parker que se seduziu pelo “cativante bouquet” do vinho e seu “belo apelo varietal”.
Uma das mais saborosas pechinchas da região do Uco, com a prestigiosa assinatura de O.Fournier.
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