Categoria: O mundo dos vinhos (Page 12 of 76)

Que vinho eu levo?

Sempre que somos convidados para a casa de um amigo, não devemos chegar lá “de mãos abanando”. Mesmo que sejam companheiros de longa data, o gesto de levar um presente sempre será bem visto.

Presentear com uma garrafa de vinho está virando um hábito. Para não errar na escolha é preciso avaliar uma série de pequenos detalhes, nem sempre lembrados.

“Que vinho eu levo” se torna uma questão complexa e com múltiplas opções. Para simplificar, existem duas possibilidades que devem ser consideradas, a partir de a uma simples resposta:

Foi sugerido que fosse levado um vinho?

Se a resposta for negativa e, mesmo assim, levamos um vinho, ele automaticamente se torna um presente e não há, por parte do dono da casa, nenhuma obrigação de servi-lo.

Para escolher este vinho existem parâmetros que podem ajudar.

Levem um vinho que vocês gostem e que já tenha sido provado e aprovado pelo seu grupo de amigos. É uma opção segura. Prefiram vinhos que possam ser adegados, dando a chance de serem degustados numa futura reunião. Optem por vinhos tranquilos sempre que possível, reservando os espumantes para comemorações mais marcantes.

A segunda situação ocorre quando somos instados a levar um vinho, na maioria das vezes, um que que será sugerido pelo anfitrião.

Esta informação deve ser a mais completa possível, por exemplo, incluindo o que será servido. A menos que um rótulo específico seja mencionado, sempre há algum espaço para fazermos a nossa escolha.

Para um jantar, algo mais formal, onde carnes serão servidas, a escolha será um bom tinto. Prefiram vinhos mais jovens e de consumo imediato: Malbec, Tannat e Cabernet, de origem sul-americana, sempre agradam.

Para um almoço com base em peixes e frutos do mar prefiram os brancos e rosados. Além do tradicional Sauvignon Blanc chileno e do bom Chardonnay argentino, esta relação deve incluir brancos portugueses como Alvarinho (vinho verde), Arinto e Maria Gomes, ou os italianos Pinot Grigio e Verdicchio.

Os rosados de origem espanhola seja de Tempranillo ou Garnacha são estupendos.

Levem gelados, não se esqueçam.

Espumantes são como coringas e se adaptam a qualquer situação. Os elaborados no Brasil são de alta qualidade e têm preços muito competitivos. Para inovar, optem por um Pet-Nat, também brasileiro. Há muitas opções à venda.

Neste caso, a nossa recomendação é que o espumante seja usado para abrir a degustação, preparando o paladar para os demais vinhos que serão levados por outros convidados.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Imagem de 8photo no Freepik

A influência do rótulo no paladar

Não é fácil, mesmo para um grande vinho, se destacar entre os milhares de rótulos que são disponibilizados nos supermercados e lojas especializadas.

Escritórios de design são contratados para projetar etiquetas que atraiam o olhar do consumidor no meio das intermináveis filas de garrafas justapostas. Até os nomes são pensados como ferramentas de marketing.

Assim como as bulas de medicamentos, os contrarrótulos também são elaborados e redigidos por especialistas em passar, ao consumidor, uma ideia sobre o que ele vai degustar.

Esta é uma técnica de convencimento muito conhecida dos profissionais de publicidade, em geral. Faça com que o cliente pense num tema, sugerindo justamente o oposto, por exemplo: “nem pense nisso!”.

Pronto, está feita a armadilha. Nosso cérebro vai ficar constantemente preocupado com a razão do “não pense nisso”, não dando espaço para outras coisas.

É isto que acontece com o consumidor quando lê uma descrição do tipo “aromas de frutas silvestres, notas cítricas, paladar cremoso e retrogosto marcante. Harmoniza com tais alimentos”.

Uma vez induzida a ideia, fica difícil fugir da tentação de procurar estas características, em detrimento das outras que nos seriam mais óbvias. Há muito que aprender num momento como este.

Degustar um vinho pode ser cheio de rituais ou apenas uma coisa simples. Tudo depende da importância que cada um vai dar a este momento.

Aqueles que bebem vinho apenas para passar uma imagem, não sendo verdadeiros apreciadores, são sempre os mais vulneráveis a este tipo de influência. Enófilos experimentados têm uma atitude bem diferente, preferindo confrontar suas próprias observações com as do elaborado contrarrótulo.

Leva tempo para chegar lá, mas não é uma impossibilidade. Encontrar, ou não, descritores do vinho não deve ser visto como uma obrigação, mas como um prazer, algo que vai nos enriquecer naquele momento.

Alguns nunca vão conseguir, mesmo treinando olfato e paladar, outros parecem que nasceram com um dom e, se não tomarem cuidado, acabam se tornando uns enochatos, por excesso.

Para dominar esta técnica e não se deixar influenciar, é necessário calma e paciência antes de qualquer coisa. Nunca se percebe tudo que um vinho está nos apresentando, num primeiro encontro. Muitas vezes temos que “procurar” por aromas e sabores, estimulando o vinho a entregá-los, seja agitando o líquido ou mudando, levemente, a sua temperatura.

Um segundo fator, muito importante, é a limitação de nossa memória olfativa/degustativa: não tentem encontrar sabor de alcaçuz se vocês nunca provaram esta especiaria. Não tomem como uma limitação. Se aquele marcante aroma/sabor lhes sugere um outro nome, é este que deve ser usado, talvez seja uma experiência única e valiosa!

Não existem regras universais para o que cada indivíduo percebe no olfato e no paladar.

Criem suas próprias observações e habituem-se a discuti-las com os amigos. Todos vão ganhar e, aos poucos, a sensação de segurança sobre o que está sendo provado vai aumentando.

Começa a ficar óbvio o que deve ser consumido com este ou aquele vinho, fica mais fácil presentear os queridos amigos com base no gosto de cada um e muito mais.

Um dia, voltem a ler os tais contrarrótulos descritivos e vejam se “conferem”.

Vai ser uma tremenda experiência.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Imagem de Kerstin Riemer por Pixabay

Bebendo vinho no verão de 40º

Nem pensar, diriam uns, mantenham-se hidratados, diriam outros. Todos sabemos que bebidas alcoólicas e calor intenso não combinam. Até a cervejinha deve ser consumida com muita parcimônia, senão …

Ainda assim, para aqueles apreciadores empedernidos, é possível degustar bons vinhos se observarmos algumas regrinhas e respeitar limites.

O primeiro e talvez mais importante conselho é escolher o ambiente. Esqueçam praias e piscinas, o ideal é criar um “microclima” num confortável e aconchegante salão. Potentes condicionadores de ar são mandatórios, assim como uma iluminação mais suave. Uma temperatura em torno dos 23º é aceitável.

No capítulo dos vinhos, brancos e rosados são as principais escolhas. Existem tintos leves que devem ser bebidos refrescados. Gamay (Beaujolais), Barbera e Pinot Noir são boas opções. Por último, não devemos desprezar os espumantes, de todas as origens; Prosecco, Cava, Sekt, Champagne, Franciacorta e os nacionais. Podem ser brancos, rosados ou um raro tinto. Todos Brut e gelados.

Sugestão de temperaturas de serviço:

Brancos e rosados – entre 7ºC e 13ºC

Espumantes – entre 6ºC e 8ºC

Tintos leves – entre 13ºC e 15ºC

Um acessório indispensável é o balde para gelo e água. Tenha à mão um termômetro de vinhos, mantendo tudo dentro de parâmetros aceitáveis. Mas não precisa ser “olho de santo”, um pouco de imprecisão pode proporcionar outras experiências.

O conselho final é sobre o que servir para harmonizar com estes vinhos. Pratos leves estão na ordem do dia. Fujam de frituras e preparações pesadas.

Queijos brancos são perfeitos com vinhos brancos leves e com acidez mais alta: Sauvignon Blanc, Pinot Grigio, Alvarinho;

Queijos amarelos pedem um vinho mais estruturado: Chardonnay madeirado, Chenin Blanc.

Pães, torradas e frutas secas completam o quadro.

Legumes crus como cenoura, pepino e aipo (salsão), cortados em bastão, e diversos molhos para mergulhar (dip) são acompanhamentos ideais para dias escaldantes. Use e abuse de iogurte natural, ricota, cottage e similares esquecendo a maionese. Tempere com ervas frescas, salsa, cebolinha, coentro, dill (endro), entre outras.

Se o objetivo for uma refeição, carnes brancas e peixes tomam o papel principal. Sempre grelhados e na boa companhia de arroz e legumes cozidos, ou saladas moderadamente temperadas. Passem ao largo de itens picantes.

Para aquele grupo que não abre mão da clássica carne vermelha, oferecemos duas sugestões: Bife Tartar ou Quibe Cru. Um belo Chardonnay no estilo californiano, um Sauvignon Blanc vibrante ou um bom Rosé de Provence vai alegrar o paladar de qualquer comensal que se aventurar por este caminho.

Saúde e bons vinhos!

Se eu gosto, o vinho é bom…

Este pode ser considerado como um parâmetro universal, mas não é suficiente para classificar um vinho como “bom”.

O reverso desta moeda, se me permitem a franqueza, é que existem enófilos que não gostam de vinhos reconhecidamente bons e há outros enófilos que se emocionam com zurrapas feitas a partir de qualquer coisa, inclusive uvas de mesa.

Uma comprovação desta última afirmação é encontrada nas prateleiras de vinhos de qualquer mercado brasileiro. Lá está um campeão de vendas, um grande “meme” e personagem de diversas anedotas entre os amigos do vinho. A qualquer hora destas, aparece como sinônimo de vinho ruim, num dicionário …

Definir o que é um bom vinho não é tarefa fácil, são inúmeros fatores que devem ser considerados.

Quando aprendemos sobre vinhos, somos levados a acreditar que os melhores produtos vêm desta ou daquela região. Que determinadas castas, chamadas “nobres”, vinificam melhor que as outras. Há ainda a imprecisa definição de “terroir”, onde solo, clima, orientação do vinhedo e até a qualidade da mão de obra se tornariam determinantes para a elaboração de um bom vinho.

Obviamente, o “eu gosto” simplifica e resolve toda esta mixórdia, mas qual é o seu verdadeiro alcance?

Vinho não é um produto de prateleira. Um bom amigo, que antes de se iniciar na arte desta bebida, achava que vinhos eram produzidos por encomenda ou necessidade. Na sua imaginação, acreditava que o vinhateiro chegava na cantina e decidia: hoje vou produzir tal vinho.

Nada mais longe da verdade. É exatamente o oposto: um produtor se preocupa, diariamente, com “o que será possível produzir”!

Cada safra é uma história diferente. Sempre haverá muito trabalho e dedicação para se chegar a um “bom vinho”.

Algum tempo depois desta verdadeira epopeia, esta garrafa chega em nossas mãos e vamos provar.

Será que o “eu gosto” basta?

Aqui vai uma pequena verdade quase esquecida por nós, apreciadores: existe uma forma de “terroir” na hora de degustar um vinho. Assim como existem diversos fatores, para o produtor, existem outros tantos, de outras ordens, para os que vão consumir a bebida.

Apenas para citar alguns: o ambiente; a companhia ou a ausência dela; a comida; a temperatura; a taça…

Uma experiência simples e esclarecedora é experimentar um mesmo vinho em duas situações bem diferentes, por exemplo, numa degustação solo e outra, em divertidas companhias. O resultado será bem diferente.

Outra, clássica, envolve camarões e vinho tinto, mistura que, invariavelmente, resulta num desagradável gosto metálico. O vinho, por melhor que seja, fica ruim.

Para acrescentar mais um tempero nesta crônica, existem vinhos que são chamados de “fáceis de beber”. São saborosos, têm boa textura no palato, harmonizam com vários tipos de alimentos, estão numa faixa de preços muito acessível e podem ser consumidos imediatamente.

Quase imbatíveis, mas tudo isto não basta para serem considerados “bons vinhos”. Apenas nos agradam.

Que tal comparar com um vinho clássico?

Um daqueles que só conseguimos comprar depois de um planejamento e poupança. Além disto, temos que adegá-lo por alguns anos.

É uma outra história.

Se um era “imbatível” este é “incomparável”. Há muitos outros fatores envolvidos que podem ser diretamente comparados com a dedicação do enólogo que o produziu.

Perceberam a diferença?

Como bons enófilos, devemos, cada um a seu modo, criar uma noção própria de um “terroir” degustativo. Em lugar de nos adaptar aos vinhos, devemos buscar os produtos que se adequem ao nosso “território”.

Este é o caminho dos bons vinhos.

Saúde e boas degustações.

CRÉDITOS:

Foto de Ion Ceban (@ionelceban) no Pexels

Vinho tem que ser tinto?

Acreditem, há muitos apreciadores de vinho que pensam exatamente assim e são cheios de argumentos para defender esta ideia.

Por exemplo, gostam de alegar, com algum fundamento, que a complexidade de aromas e sabores de um tinto de primeira linha é insuperável. Outra afirmação bastante comum é sobre sua versatilidade para harmonizar com diversos alimentos. Há, ainda, quem ache o aspecto visual muito importante, complementando com a sempre presente ideia de que é mais saudável, o que é um ponto muito questionável.

Excetuando este último fato, não há nada que desabone as demais colocações, mas é preciso levarmos em conta alguns outros aspectos. Os vinhos tintos são bebidas para climas mais frios, o que pode, por si só, explicar boa parte desta preferência. Até sua cor escura e opaca é reconfortante.

Mas enquanto o mundo gira (e a Lusitana roda…), a OIV, Organização Internacional da Vinha e do Vinho, publicou, em 2023, uma pesquisa sobre a produção e consumo de vinho, baseada na sua coloração. (OIV Focus 2023)

Surpreendeu a todos!

A soma dos dados observados para vinhos brancos e rosados, superou a dos vinhos tintos, pela 1ª vez.

Este resultado confirma uma tendência surgida há duas décadas, pelo menos, indicando uma mudança na preferência dos consumidores.

Há um grande peso introduzido pelas novas gerações de consumidores que preferem vinhos mais leves ou mesmo nenhum vinho, optando por outras formas de consumir bebidas alcoólicas. Em alguns segmentos, preferem se manter abstêmios.

Desta atitude, surgem ou ressurgem “velhas novidades”, como uma certa idolatria pelo Gin e seus múltiplos coquetéis, Tequila, Mezcal e até a nossa boa pinga.

Com relação ao vinho, preferem os chamados “naturais”, oriundos de vinhedos manejados de forma orgânica e vinificações elaboradas com a técnica de “mínima intervenção”.

Um comportamento de difícil explicação, algo como uma ida para o futuro com as técnicas e ferramentas do passado.

“Há algo no ar além dos aviões de carreira”, diria o Barão de Itararé, pseudônimo do Jornalista e Escritor, Aparício Torelly. Até nas garrafas de vinho as novas gerações de consumidores estão provocando mudanças. Materiais como papelão e alumínio parecem que vieram para ficar. Vidro, por sua “alta pegada de carbono”, virou o vilão da vez.

Alguns dados da pesquisa

– A produção e demanda de vinhos tintos vem caindo desde 2004. No começo deste século, os tintos eram responsáveis por cerca de 48% do mercado. Hoje respondem por 43%. Uma queda significativa. A maior perda foi na Europa. Nas Américas, Austrália e África do Sul houve um ligeiro acréscimo.

– Com relação aos brancos, a produção e consumo vem crescendo desde o ano 2000. Em 2013 superou as marcas do vinho tinto e, nesta última avaliação, atingiu 49% do mercado.

– O desempenho dos vinhos rosados também é notável. Partindo de uma posição quase insignificante, atingiu a 8% do mercado ao final de 2021. Os maiores produtores estão concentrados no hemisfério norte, França principalmente. Chile e África do Sul também se destacam. Os grandes consumidores são os EUA, Alemanha, Inglaterra e França.

Alguém ainda concorda que “vinho é tinto”?

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Imagem de Freepik

« Older posts Newer posts »

© 2025 O Boletim do Vinho

Theme by Anders NorenUp ↑