Categoria: O mundo dos vinhos (Page 15 of 76)

Alguns vinhos icônicos – Vega Sicilia Unico

Para fechar este giro pela Península Ibérica, apresentando alguns de seus vinhos famosos, escolhemos o Vega Sicilia Unico, o mais famoso tinto da Espanha e um dos mais respeitados no mundo.

Um verdadeiro mito!

Não é para qualquer um. Sua elaboração é extremamente criteriosa e o tempo de amadurecimento ou afinamento, como preferem alguns especialistas, pode durar décadas. Somente 100.000 garrafas são produzidas a cada safra. Bem armazenadas, podem durar de 40 a 60 anos, segundo seus produtores.

Esta história começa em 1864 quando Don Eloy Lecanda y Chaves, um vinhateiro espanhol que foi treinado em Bordeaux, retorna para sua terra natal, Castela e Leão, funda sua vinícola e planta castas francesas, Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, além da Tempranillo, mais conhecida como Tinto Fino naquela região. Algumas destas vinhas produzem até hoje.

As “francesas” eram uvas atípicas para a Ribera del Duero, mas a fama do vinho começa já naquela época.

O nome escolhido para o empreendimento, Vega Sicilia, era comum em diversos documentos espanhóis muito antigos e anteriores à vinícola. Don Eloy nunca explicou as razões de sua escolha.

Entretanto, há um significado embutido:

Vega é a denominação da vegetação típica das margens do Rio Duero, o mesmo que deságua em Portugal.

Sicília, apesar de parecer a famosa ilha da Itália, refere-se à Santa Cecília, padroeira dos músicos e que batiza algumas vilas daquela região.

A empresa mudou de mãos diversas vezes, mas sempre manteve a tradição do Unico. A família Alvares é a atual proprietária, desde 1982, o mesmo ano em que a Ribera del Duero ganha sua Denominação de Origem (DO).

A vinícola foi modernizada e ampliada e novas regiões foram incluídas no portfólio. Surgem rótulos como o Alion, o Pintia, vinificado na região de Toro, o riojano Macan, uma associação com Benjamin de Rothschild, de Bordeaux e o Oremus, um dos melhores Tokaj da Hungria.

No segmento do Vega Sicilia, apenas três rótulos são produzidos: O Valbuena 5º, com menor tempo em madeira, o Unico e o Unico Reserva Especial.

O vinho é um corte de Tempranillo e Cabernet Sauvignon. Tipicamente, a proporção gira em torno de 90% para a primeira casta e 10% para a segunda. Somente elaborado em safras consideradas acima da média.

O Reserva Especial é ainda mais raro: um corte de diferentes safras do Unico, que podem ter cerca de 30 anos entre elas.

Preço médio no Brasil: R$ 7.000,00 (safra 2009)

Reserva Especial: R$ 10.000,00 (não safrado)

Numa de nossas viagens a Portugal, visitamos a mais famosa loja de vinhos de Lisboa, a Garrafeira Nacional.

Numa prateleira estavam, lado a lado, o Barca Velha e o Unico. Questionamos um vendedor, que nos deu a seguinte resposta:

“Este é o Barca Velha da Espanha” …

Bairrismo é isto.

Ressalte que nunca vimos atitude semelhante no país vizinho.

Saúde e bons vinhos!

Alguns vinhos icônicos – Contador

Seria possível que um vinho, elaborado na garagem dos pais de um Enólogo, fosse laureado, não uma, mas duas vezes, com os sonhados 100 pontos Parker? E, de quebra, ser o primeiro vinho espanhol a receber esta pontuação?

Ele existe e se chama Contador, fruto de muita dedicação e paixão de um só homem, Benjamim Romeo, de cativante personalidade que se confunde com a de seu maior vinho.

Filho de uma família de vinhateiros, aprendeu cedo com seu pai que, no pós-guerra, em tempos duros, nunca deixou de correr atrás de seus sonhos, cultivando uvas e fazendo alguns vinhos.

Formou-se em Enologia na prestigiada Escuela de la Vid, em Madrid. Quando pensou em ir trabalhar com os grandes de Bordeaux, foi contratado por uma tradicional vinícola da Rioja, a Artadi, onde permaneceria por 15 anos, desenvolvendo todas as suas habilidades, entre elas, a de ser um transgressor das regras estabelecidas, diga-se de passagem, com muito sucesso.

Dentre as diversas inovações, está uma maior atenção ao vinhedo e fazer vinhos mais tânicos e concentrados, reduzindo drasticamente o corte com varietais brancas, uma antiga tradição. A vinícola Artadi se torna uma das grandes de Espanha.

Em 1999 passa a se dedicar, exclusivamente, ao seu projeto pessoal. Adquire uma velha adega, uma caverna, no subsolo do castelo de San Vicente de la Sonsierra, batizada como “La Cueva del Contador”, onde produz seus primeiros vinhos, com uvas do vinhedo da família. Ganharam reconhecimento rapidamente.

Como a demanda por seus produtos aumenta, começa a adquirir vinhedos de terceiros, em diversas regiões e transforma a garagem da casa de seus pais em uma vinícola. Ali nasceria o reverenciado Contador.

A Cave sob o castelo servia como um local de guarda de vinhos, por suas características de baixa temperatura ao longo do ano. Originalmente, eram transportados em Odres, bolsas feitas com pele de cabra. Não só cada uma destas bolsas tinha diferentes tamanhos, como cada indivíduo que as transportava eram mais ou menos fortes. Assim, um sistema de pesagem era feito na porta da cave, registrando todo o movimento de entrada e saída. Fazer este controle era responsabilidade do “Contador”, sempre a postos na porta de entrada.

O nome do vinho é uma homenagem a este personagem.

Um 100% Tempranillo com uvas vindas de diversos vinhedos diferentes das regiões de San Vicente de la Sonsierra e de Briones. Fermentado em tanques de carvalho e amadurecido em barricas de carvalho francês, de 1º uso, por cerca de 20 meses. Não é clarificado e nem filtrado. Em algumas safras, pode receber um pequeno corte de outras uvas como Garnacha, Graziano, Manzuelo.

A safras que receberam os 100 pontos Parker foram 2004 e 2005.

A produção gira em torno de 5.000 garrafas.

Preço médio no Brasil: R$ 7.000,00

Benjamim Romeo produz outros bons vinhos, tintos e brancos. Um deles se chama Predicador, que tem uma curiosa história:

Ele cria pessoalmente seus rótulos. Predicador significa “Pregador ou Pastor”, em espanhol. A inspiração veio do filme “Cavaleiro Solitário”, de Clint Eastwood, que caracterizava seu personagem com este chapéu.

Para poder usar a imagem, fez um acordo com o ator e produtor norte-americano – os direitos seriam cedidos desde que ele pudesse experimentar uma garrafa de cada safra elaborada.

Recebe, até hoje, uma garrafa Magnum a cada Natal. Um belo presente.

Saúde e bons vinhos!

Alguns vinhos icônicos – Barca Velha

Este vinho é um fenômeno, simplesmente. Conseguiu ser mais famoso e reconhecido internacionalmente do que o – me desculpem – mais famoso produto português, o Vinho do Porto.

Para completar o quadro, o Barca e os Portos são elaborados na mesma região, o Douro.

Que audácia!

Há muito o que contar sobre este vinho, história de pessoas e de lugares.

Começamos com D. Antónia Adelaide Ferreira, a “Ferreirinha” (1811-1896), uma mulher importantíssima na história do vinho português. Abastada e generosa, sempre ajudou as famílias em necessidade e acreditava que a qualidade era o único caminho para o sucesso. Investiu na compra de terras, algumas em locais quase inacessíveis, naquela época, entre elas, o que se tornaria a Quinta do Vale Meão. Era muito inovadora para o seu tempo.

Em 1887 começa a plantar videiras enxertadas (pós-filoxera), já pensando em elaborar Vinho do Porto, o que aconteceu pouco depois, fundando a Casa Ferreira, com seus descendentes. O Vale Meão passa a ser visto como um local de excelência.

Ela tinha um sonho: produzir um tinto fino, não fortificado, coisa impensável no Douro. Este desejo só foi acontecer em 1952, pelas mãos de outro personagem importante, o Enólogo Fernando Nicolau de Almeida, que tinha as mesmas ideias de D.Ferreirinha.

Começou a trabalhar na Casa Ferreira aos 16 anos, em 1929, trazido por seu pai, então Enólogo Chefe. Em 1949, assume o posto máximo e conhece Emile Peynaud, principal winemaker de Bordeaux, que o convida para visitar o Château Calon-Segur, de onde volta para Portugal fervilhando de novas ideias para elaborar um tinto de qualidade.

Matéria-prima não lhe faltava, as uvas do Vale Meão eram formidáveis, só faltava adaptar o método francês de elaboração. Havia um importante diferencial: enquanto lagares abertos eram os preferidos na terrinha, os franceses vinificavam em cubas de carvalho e com temperatura controlada.

Em 1952, a primeira vinificação do Barca foi uma verdadeira aventura. Ainda não havia eletricidade no Meão e o gelo, necessário para manter a temperatura durante o processo, foi trazido de Matozinhos, numa viagem que durava doze horas. Além das uvas locais, outras foram trazidas da região de Meda, de solos graníticos, para dar acidez e equilíbrio.

Pronto o vinho, Nicolau de Almeida introduz mais uma novidade, deixar o vinho amadurecer por alguns anos, neste caso, sete deles. Quando foi lançado, o Barca 1952 se tornou um enorme sucesso, que se mantém até hoje.

São mais de 70 anos e apenas 20 safras foram comercializadas, a mais recente é a de 2011. Não é sempre que as uvas estão no ponto certo para um Barca.

Somente três Enólogos tiveram o privilégio de produzir este vinho: Fernando Nicolau de Almeida – 1952/1998, José Maria Soares Franco – 1998/2003 e Luis Sottomayor, atual Enólogo Chefe.

Em 1987, o Grupo Sogrape comprou a Casa Ferreira. A Quinta do Vale Meão, pertencente a um trineto da Ferreirinha, Francisco Javier de Olazabal, deixa de fornecer suas preciosas uvas, preferindo elaborar seu próprio “Barca”, o Quinta do Vale Meão, carinhosamente apelidado de “Barca Nova”.

A Quinta da Leda passou a desempenhar o principal papel no fornecimento da matéria prima, mantendo a qualidade tão sonhada por D. Antónia Adelaide Ferreira.

Resta explicar a origem do nome.

Nicolau de Almeida tinha uma frase: “É mais fácil ir a Luanda que no Meão”. Eram tempos duros, com poucos recursos e infraestrutura de transportes bastante precária. Os vinhos que precisassem atravessar o rio utilizavam uma antiga balsa, a “Barca Velha”, que um dia foi substituída. Mas o apelido ficou gravado em muitas gerações.

O corte tradicional de um Barca é composto por 50% Touriga Franca, 30% Touriga Nacional, 10% Tinta Roriz e 10% Tinto Cão. Dependendo da safra e do Enólogo, podem acontecer variações. É um vinho artesanal, constantemente testado, sendo comercializado, apenas, quando está num ponto de maturação que outros vinhos nem sonham em atingir.

Uma lenda!

Preço médio no Brasil: R$ 7.000,00 (safra 2011)

Saúde e bons vinhos!

Alguns vinhos icônicos – Pêra Manca

Vinhos famosos existem tanto no Velho Mundo quanto no Novo. Cada um ficou conhecido por diferentes razões. Uns são muito antigos e cheios de lendas, outros apresentam qualidades indiscutíveis e há, claro, os que nos contam histórias curiosas.

Tradicionalmente, Portugal tem dois vinhos famosos, o Barca Velha, produzido na região do Douro e o Pêra-Manca, da região do Alentejo, que é o personagem deste texto.

Uma bela história nos conta que no ano 1300, numa região próxima à cidade de Évora, um pastor teria presenciado uma aparição de Nossa Senhora. Peregrinos adotaram o local como destino de suas viagens, dando origem a uma capela e, depois, a um Convento da Ordem de São Jerônimo, cujos Frades plantaram os vinhedos que teriam dado origem a este vinho.

Em 1517, devido ao alto custo de manutenção, os Frades arrendam os vinhedos, que foram passando por diversas famílias. Coube à Casa Agrícola Soares, já no século XIX, recuperá-los e transformar aquele vinho em um produto de excelência, abrindo caminho para o Pêra-Manca ficar afamado.

O curioso nome é uma deturpação de “pedra manca” ou pedra oscilante, nome dado para blocos arredondados de granito que estão soltos e precisam se equilibrar sobre outras rochas. Este é o terreno típico daquela região.

A crise da filoxera dizimou estes vinhedos e a Casa Soares deixou de produzir o vinho. Em 1987, um dos herdeiros, José António de Oliveira Soares, ofereceu a marca para a Fundação Eugênio de Almeida, proprietária da Adega Cartuxa, que passou a usar o nome em seu melhor vinho, o Cartuxa Garrafeira.

Este excelente corte das castas Trincadeira, nativa de Portugal e Aragonez, nome local para a conhecida Tempranillo, já recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais que o colocaram neste rol exclusivo. Só é elaborado em safras muito boas.

Outra lenda afirma que Pedro Álvarez Cabral trouxe alguns toneis do Pêra-Manca em sua viagem que resultou na descoberta do Brasil. Pero Vaz de Caminha, em uma de suas cartas, relata que um vinho teria sido partilhado com os indígenas. Teria sido o “Pêra”?

Não há como negar que este vinho tem uma forte ligação com o nosso país: somos o maior comprador deste rótulo!

Existe uma versão branca do Pêra-Manca, um corte das castas Arinto e Antão Vaz.

Preços médios no Brasil:

Branco – R$ 600,00

Tinto – R$ 4.000,00

Saúde e bons vinhos!

Cor, transparência e reflexos

Tem muita gente que não sabe o que isto significa, mesmo assim, cumpre o manjado rito de examinar o vinho, seguindo três etapas: visual, aromas e sabores.

Leigos e Enófilos menos experientes, não dão tanta importância a este exame visual, que é o nosso primeiro encontro com o que sai da garrafa. Apenas olham, não procurando especificamente por nada, mas se acharem que o conjunto não combina com suas referências…

A turma mais tarimbada demora um pouco mais nesta etapa. Não basta olhar, é preciso procurar por certos sinais para descobrir e aprender bastante sobre o que será degustado.

Para observar o conteúdo da taça, corretamente, é preciso um local com boa iluminação e um fundo branco, que pode ser facilmente improvisado com um guardanapo ou folha de papel.

A coloração deve ser homogênea, valendo para qualquer tipo de vinho. A tonalidade deve estar dentro dos limites esperados, de acordo com a casta utilizada. Tomando os tintos como exemplo, um Pinot Noir tende a ser mais claro que um Cabernet Sauvignon ou um Syrah. Alguma coisa fora desta linha acende o sinal de alerta.

Cores que tendem ao marrom, âmbar ou similar, já indicam que o produto em análise não está bom para consumo.

O segundo ponto desta avaliação é a transparência. Para observá-la, devemos colocar a taça contra uma boa fonte de luz. Mesmo um tinto bem encorpado vai apresentar algum grau de translucidez.

O que não deve ser encontrado:

– Opacidade – indica que o vinho pode estar contaminado ou mesmo sofreu uma segunda fermentação já na garrafa, sinal de pouco cuidado na elaboração;

– Elementos em suspensão – podem variar desde pedaços da rolha até restos das leveduras usadas. A aparência é turva, dando a impressão de um vinho sujo. Dependo de exames olfativos, uma boa decantação ainda poderá salvar um vinho assim;

– Espuma, bolhas ou efervescência – isto só é desejável nos espumantes. Em vinhos tranquilos é defeito grave e deve ser descartado;

A terceira e última fase do exame visual é a busca pelos “reflexos”, uma estreita faixa que se observa no arco que formado entre o líquido e a lateral da taça, quando a inclinamos, como na foto que ilustra este texto.

À medida que um vinho envelhece, sua cor vai mudando. Um tinto jovem apresenta uma coloração denominada Rubi. Quando estiver mais maduro, esta mesma coloração tende a um Grená. Ao fim da sua vida, a cor será marrom ou tijolo, dependendo da casta.

O exame do reflexo ou nuance vai mostrar em que fase da vida o vinho está. Se jovem, reflexos de outra coloração não serão notados. Se naquela estreita faixa aparecerem tons mais castanhos ou um pouco mais escuros que a cor original, é sinal que o vinho já evoluiu.

Não é uma tarefa fácil exigindo muito treino, mas é um ótimo indicador. Para ajudar a entender as cores básicas, listamos as mais comuns:

Tintos leves – rubi (Pinot Noir, Gamay)

Tintos médios – grená, púrpura (Cab. Franc, Tempranillo, Cab Sauvignon)

Tintos encorpados – vermelho escuro (Malbec, Syrah)

Brancos leves- amarelo palha (pinot grigio)

Brancos médios – amarelo ouro (Sauvignon Blanc, Chardonnay, Alvarinho)

Brancos encorpados – dourado – (Sauternes, Semillon)

Dependendo da região, estas indicações podem variar discretamente. Os Pinot da América do Sul tendem a ser mais escuros que os da Borgonha, e assim por diante.

Que tal dedicar mais tempo ao exame visual?

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS

Imagem de KamranAydinov no Freepik

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