Categoria: O mundo dos vinhos (Page 23 of 76)

Não façam isso!

O fim de ano já está chegando e organizar as comemorações passa ser a palavra de ordem. Além da mesa farta, não podem faltar boas bebidas, entre elas, os espumantes. Pode ser Champagne, Prosecco, Cava, ou um dos nossos bons produtos.

Foi pensando nisto que lembramos de uma coisinha, muito comum, que se vê no cinema e na TV: sacudir uma garrafa de um vinho borbulhante antes de abri-la, tudo para provocar aquele manjado jato.

Depois o autor da façanha degusta um golinho…

Não façam isso!

Este deve ser o pior gole de um espumante.

Querem dar banho de vinho em alguém? Então não invistam em bebidas caras, comprem as mais baratas e nem arrisquem prová-las.

Além deste “mico”, lembramos de outras derrapadas que fazemos, sem nos dar conta da vergonha que estamos passando.

Aqui estão algumas delas:

– Comprar um vinho pelo peso da garrafa. Em nenhuma hipótese o peso ou pelo menos um fundo de garrafa mais “grosso” transfere ao vinho alguma qualidade maior. Quase sempre estes envases mais pesados foram criados para passar uma falsa mensagem, uma “Fake News!!!”.

– Encher a taça até a borda é considerado uma tremenda falta de educação. O particular formato das taças foi pensado para podermos apreciar cores, aromas e sabores. Inclinar, girar e aproximar da face são movimentos habituais. Encham até 1/3 do espaço, no máximo.

Para ajudar a fixar bem isto, façam uma analogia com os copos de cerveja, que precisam de um espaço para o colarinho.

Se quiserem aprender pelo método “São Tomé”, encham até o topo e “girem” a taça para aerar o vinho. (Por favor, enviem fotos do resultado para a nossa coluna das vídeocassetadas …)

– Não acreditar nas tampas de rosca, achando que os vinhos são “baratos”. A melhor explicação são os ótimos vinhos da Nova Zelândia. Se os leitores ainda não experimentaram um, está na hora. Isto nos leva, de carona, para um outro erro muito comum: “bater sempre na mesma tecla” ou, se preferirem, não sair da zona de segurança.

Tampas de rosca estão no mercado, com muito sucesso, há mais de 20 anos. Surgiram como alternativa ao alto custo das rolhas de cortiça. Não só proporcionam as mesmas condições de amadurecimento em garrafa, como são mais fáceis de abrir e permitem a guarda dos vinhos na posição vertical.

– Desempenhar de forma sofrível o papel de anfitrião ao não se preocupar com a correta ordem de serviço dos vinhos. Este disparate pode estragar a noite. Se o objetivo da reunião é apreciar alguns vinhos, temos que seguir uma regrinha muito simples e básica: espumantes, brancos, rosados, tintos e generosos.

Existe uma razão para esta norma ser adotada de forma quase universal: elementos como o açúcar, o álcool e o tanino tendem a embotar o nosso paladar. Desta forma, se servimos um vinho mais encorpado antes de um mais leve, este passará quase despercebido.

Esta regra, que não é um grilhão, tem exceções e variantes. Mas, para percorrer estas vias alternativas, com sucesso, é preciso trilhar o caminho básico com segurança, primeiro.

Corolário: tentar harmonizar com a ordem aleatória…

Nem pensar! Esta é imperdoável, sob pena de bloqueio da sua conta no mundo dos vinhos.

Não façam isso, nada disso.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

– Imagem de abertura por wayhomestudio no Freepik

– Taça cheia, foto de Vics no Pexels

As diferentes formas de amadurecer um vinho

Assim como uma boa fruta, um vinho precisa amadurecer para se tornar uma bebida palatável. Esta fase, que se inicia logo após a fermentação, é considerada como de grande importância, uma verdadeira arte, que os franceses denominam “élevage”.

O principal fator é o tempo. Em alguns casos, muito tempo. O segundo ponto de relevância é como este vinho, bruto, vai ser armazenado durante o longo período de evolução. Existem diferentes materiais e técnicas, cada uma resultando em vinhos com características próprias.

O material mais conhecido são os barricas ou tonéis de madeira, particularmente de carvalho, que pode ser de procedência europeia ou americana. São confeccionados em diversos formatos e volumetria. Os mais comuns, atualmente, são os barris de 225 litros. Alguns produtores tradicionais, como os que elaboram o Barolo, clássico vinho italiano, adotam os “Botti”, grandes tanques que podem chegar a 10.000 litros.

A madeira é o material que mais contribui para adicionar outras camadas de aromas e sabores ao vinho. Permite uma desejável micro-oxigenação, que ajuda na evolução da bebida.

Baunilha é uma das notas mais comuns. Também é fácil perceber aromas de defumado, especiarias e um afinamento da sensação tânica. Em Portugal e Espanha são comuns os barris de castanheiro, neutros, que pouco acrescentam ao vinho. Outras variedades como Cerejeira e Acácia já foram empregados, por poucos produtores, com resultados curiosos.

Aço inoxidável é o material mais utilizado nas vinícolas modernas, principalmente por suas características inertes e pelas possibilidades tecnológicas que oferecem os tanques de parede dupla. Entre eles, o controle de temperatura fica muito preciso. Por outro lado, a oxigenação é inexistente por conta da estanqueidade. Para resolver este problema, ar é injetado em doses controladas através uma válvula. Tudo deve ser muito controlado ou pequenos defeitos passam a ter uma magnitude significativa. Dentro desta mesma filosofia, vamos encontrar tanques de fibra de vidro e até de ferro fundido, revestidos com uma resina sintética.

O próximo material bastante usado é o concreto. Vários formatos são possíveis. Os prismáticos, de seção quadrada ou retangular, são tradicionais. A grande novidade são os tanques de formatos ovais, tulipas, cuboides e similares. A pequena ilustração, abaixo, demonstra algumas possibilidades.

O “ovo de concreto” foi considerado revolucionário quando surgiu. Bastava um tanque para todas as fases da elaboração do vinho. Seu formato permitia que as leveduras permanecessem mais tempo em suspensão no mosto. Ainda, por conta deste perfil ovalado, o líquido estaria sempre em movimento durante a fermentação, algo desejável. Outro ponto a favor destes tanques é a boa oxigenação.

Estes vinhos têm características distintas dos que passaram por madeira ou aço. Em alguns casos se assemelham muito aos que passaram por carvalho.

Como numa volta ao passado, as ânforas de barro estão com toda a força no mundo do vinho. Na Georgia, hoje considerada como o berço do vinho, são chamadas de “qvevri”, na Espanha são as “tinajas”, em Portugal se chamam “talhas” etc.

Existem inúmeras variações neste campo. Podem estar enterradas ou sobre um piso, a cerâmica pode ser crua ou queimada, alguns produtores preferem revesti-las com algum tipo de resina e, no capítulo do fechamento, há um pouco de tudo que começa num simples pano ou tela para impedir insetos até tecnológicas tampas de aço inox ou outro material moderno.

Esta volta parece ser definitiva. Alguns produtores de Itália e França já estão elaborando em recipientes esféricos de cerâmica, o Clayver (foto abaixo), o que aproximaria esta linha com a do concreto. Se observarem a ilustração acima, o último desenho é o de uma ânfora. Há uma convergência.

O mote atual é que um destes vinhos vai estar em sua adega, em breve. São realmente diferentes e muito interessantes. Vale a pena investir num deles.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS: ilustrações por ordem de apresentação

– Foto de Arthur Brognoli

– Botti obtido no site Avvinando

– Formatos em concreto no “Wine Tanks

Clayver

Descritores do vinho – Mineral

Outro descritor enigmático. Alguns especialistas preferem não o utilizar em suas análises. Afirmam que é um conceito muito sutil e sem um consenso sobre o que vem a ser, exatamente, um vinho mineral.

Levante a mão quem, ainda na infância, não levou um tombo e “comeu terra (e algumas pedrinhas …)”!

O conceito de mineralidade começa neste ponto: aquele gosto terroso, a sensação incômoda do pó de giz da professora riscando o quadro negro, o aroma de terra molhada quando chove, o cheiro curioso da pedra de isqueiro quando acionada e até mesmo a diferente sensação ao se consumir uma ostra.

Mas não fica só nisso. Existem mais referências, por exemplo, num parque de águas minerais: temos águas ferruginosas, outras com diversos sais minerais ou com compostos sulfurosos e até com um pouco de hidrocarbonetos, que produzem o inconfundível aroma de querosene.

Trata-se de um conceito muito amplo e cheio de meandros, trazendo, como um corolário, uma comunicação pouco clara: cada um vai interpretar este “mineral” do seu jeito. Pouco efetivo …

Vinhos com sabores e aromas que nos remetem a estas características são bastante comuns. Entre os vinhos brancos, algumas denominações são a própria definição deste descritor: Chablis, Poiully-Fumé e Riesling.

A mineralidade de um vinho pode ser facilmente associada com o intrigante 5º sabor – Umami: não é doce, salgado, azedo ou amargo. Difícil entender, mas é possível perceber.

Entre os tintos, um bom exemplo são os Malbec argentinos, especialmente os elaborados a partir de vinhedos de grande altitude.

Uma conclusão lógica, mas nem sempre correta, é associar o tipo de solo com esta característica do vinho, nos aproximando da definição do “Terroir”. Não existe uma confirmação desta hipótese. O mais perto que os pesquisadores chegaram mostra um caminho bem interessante: estas especiais características parecem ser o resultado da presença de alguns micróbios (no solo) e de leveduras típicas de cada região.

Ainda há muito que pesquisar e descobrir.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto de abertura por Matthew Henry para o Burst

Na vitória e na derrota

Um dos mitos mais conhecidos no universo dos vinhos é uma frase de Napoleão Bonaparte se referindo ao Champagne, bebida que, segundo muitos historiadores, era sempre transportada para as suas batalhas:

“Na vitória eu mereço, na derrota eu preciso!”

Esta é uma de muitas traduções ou adaptações desta máxima, pronunciada em francês, obviamente.

Winston Churchill, famoso Primeiro-ministro inglês durante a Segunda Guerra, também é citado como tendo usado a mesma frase, provavelmente inspirada pelos feitos do conhecido Imperador francês:

“I could not live without Champagne. In victory I deserve it. In defeat I need it.” Winston Churchill, 1946 (Eu não poderia viver sem o Champagne. Na vitória …)

Seguindo nesta mesma linha, Lily Bollinger, uma das famosas “viúvas de Champagne” que comandou a Casa Bollinger por 30 anos, sempre dizia:

“Só bebo Champagne quando estou feliz ou quando estou triste”

Coco Channel, um dos grandes nomes da moda feminina, também tinha sua frase predileta:

“Só bebo Champagne em duas ocasiões: quando estou amando e quando não estou”.

Vinhos espumantes sempre estão associados às celebrações ou, como demonstraram as personalidades citadas, são degustados na alegria e na tristeza, na doença e na saúde, quando o nosso time perde ou ganha.

O monge Dom Perignon, a quem se atribui a descoberta desta deliciosa bebida, não se conteve e gritou para seus companheiros:
“Venham correndo, estou bebendo as estrelas!”

Existem mais curiosidades sobre esta extraordinária bebida do que o espaço desta página. Uma que vale a pena registrar, era a forma como Napoleão abria sua garrafas: com seu sabre, degolando o gargalo e sem sair de seu cavalo.

Churchill, que foi um grande apreciador deste vinho espumante, teria consumido cerca de 42.000 garrafas, segundo seus biógrafos. Até hoje existe a “Cuvée Sir Winston Churchill”, elaborada pela Maison Pol Roger, em sua homenagem.

Napoleão foi derrotado na conhecida batalha de Waterloo, pelo Duque de Wellington. A história relata que as tropas francesas haviam esquecido o Champagne. Foi exilado na ilha de Santa Helena, onde lhe foi permitido manter uma considerável adega. Mas, seu vinho predileto passou a ser o sul africano “Vin de Constance”, um fortificado. Napoleão tomava um cálice diariamente, até sua morte em 1821. Foi um grande consolador da sua derrocada.

Pensando nisto tudo, que tal na próxima vez que fizermos um brinde nos lembrarmos de alguns destes fatos?

Não importa a sua turma: da tubaína, da pinga ou a dos vinhos.

O importante é compreender como outros heróis, do passado, se comportaram em suas vitórias e em sua derrotas. Sempre com elegância e alguma ironia.

Os vinhos, como qualquer outra bebida alcoólica, foram criados pelos humanos. Se consumidos com responsabilidade e no momento certo, vão trazer enorme alegria para os vitoriosos e grandes esperanças para os que não tiveram sucesso.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS

Imagem de abertura por freepic.diller no Freepik

Sabragem: “Sabrage@Preuillac – avant” por epeigne37, licenciada sob CC BY-NC-ND 2.0.

O que significa um vinho Reserva – de volta ao básico

Imaginem a seguinte situação:

Entramos em uma loja e encontramos duas versões e um mesmo vinho. A única diferença é a palavra “Reserva” (ou em outros idiomas) no rótulo de uma delas.

Naturalmente, somos levados a crer que um deles é superior ao outro. A curiosidade fala mais alto e decidimos comprar as duas garrafas para compará-las.

Ao fazer a degustação comparativa, o título de “melhor vinho” acaba ficando para aquela garrafa que não declarou ser um vinho especial…

Surpresos?

Saibam que é mais comum do que se possa imaginar. Vinhos “Reserva” nem sempre seguem regras preestabelecidas. Na maioria das vezes, quem decide é o departamento de Marketing, que pode ter opiniões não muito claras sobre o que é um vinho especial.

Como deveria ser um vinho Reserva?

A ideia é muito simples e direta: um lote de um bom vinho que ficou reservada para o produtor.

Um bom observador logo deduzirá que a quantidade não é grande; a safra foi boa, o mesmo pode ser dito com relação à vinificação e que a decisão foi tomada durante a prova do vinho, digamos, básico. No mínimo esta quantidade reservada passará por um envelhecimento maior.

Caso venha ser comercializada, isto já explicaria o preço maior e algum requinte na embalagem e rotulagem.

Infelizmente não é possível generalizar: poucos países estabeleceram normas que asseguram esta qualidade aos “Reserva”.

Dois deles se destacam e se tornaram referência no setor: Espanha e Itália.

As normas espanholas são as mais famosas. Para poder ostentar este título em seu rótulo, um vinho tinto deve envelhecer por 3 anos, sendo um deles em barricas de carvalho. No caso de brancos ou rosados, o prazo cai para 2 anos, com 6 meses em carvalho.

Na Itália, um Chianti Reserva passa um mínimo de 2 anos envelhecendo antes de ser comercializado. Um Amarone precisa de 4 anos e um Barolo 5 anos, para atender à regra.

Ambos os países são bem rigorosos no cumprimento destas leis.

Portugal, outro grande produtor europeu, tem uma regra bem elástica: basta ter um teor alcoólico 0,5% acima do mínimo legal. Para sermos justos, o termo “reserva” é muito pouco usado por lá. Preferem “Garrafeira” que tem regras mais rígidas.

Nos países produtores do “Novo Mundo” é onde as regras não existem ou são tão genéricas que a palavra “Reserva” passa a não ter nenhum significado: Austrália, Argentina, América do Norte, Nova Zelândia e alguns outros.

O destaque fica para o Chile, que chegou a inventar o (detestável) “Reservado” (para os otários) e para o Brasil que, na tentativa de copiar e adaptar as normas espanholas, criou um monstrengo, sem fundamento, oficializando o tal do “reservado” …

Gente oportunista e inescrupulosa existe em qualquer lugar e em qualquer atividade, inclusive no mundo do vinho.

Agora já sabemos: olho nos vinhos ditos “Reserva”, podemos estar comprando gato por lebre!

Saúde e bons vinhos.

CRÉDITOS:

Imagem de Freepik

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