Categoria: O mundo dos vinhos (Page 24 of 76)

O que significa um vinho Reserva – de volta ao básico

Imaginem a seguinte situação:

Entramos em uma loja e encontramos duas versões e um mesmo vinho. A única diferença é a palavra “Reserva” (ou em outros idiomas) no rótulo de uma delas.

Naturalmente, somos levados a crer que um deles é superior ao outro. A curiosidade fala mais alto e decidimos comprar as duas garrafas para compará-las.

Ao fazer a degustação comparativa, o título de “melhor vinho” acaba ficando para aquela garrafa que não declarou ser um vinho especial…

Surpresos?

Saibam que é mais comum do que se possa imaginar. Vinhos “Reserva” nem sempre seguem regras preestabelecidas. Na maioria das vezes, quem decide é o departamento de Marketing, que pode ter opiniões não muito claras sobre o que é um vinho especial.

Como deveria ser um vinho Reserva?

A ideia é muito simples e direta: um lote de um bom vinho que ficou reservada para o produtor.

Um bom observador logo deduzirá que a quantidade não é grande; a safra foi boa, o mesmo pode ser dito com relação à vinificação e que a decisão foi tomada durante a prova do vinho, digamos, básico. No mínimo esta quantidade reservada passará por um envelhecimento maior.

Caso venha ser comercializada, isto já explicaria o preço maior e algum requinte na embalagem e rotulagem.

Infelizmente não é possível generalizar: poucos países estabeleceram normas que asseguram esta qualidade aos “Reserva”.

Dois deles se destacam e se tornaram referência no setor: Espanha e Itália.

As normas espanholas são as mais famosas. Para poder ostentar este título em seu rótulo, um vinho tinto deve envelhecer por 3 anos, sendo um deles em barricas de carvalho. No caso de brancos ou rosados, o prazo cai para 2 anos, com 6 meses em carvalho.

Na Itália, um Chianti Reserva passa um mínimo de 2 anos envelhecendo antes de ser comercializado. Um Amarone precisa de 4 anos e um Barolo 5 anos, para atender à regra.

Ambos os países são bem rigorosos no cumprimento destas leis.

Portugal, outro grande produtor europeu, tem uma regra bem elástica: basta ter um teor alcoólico 0,5% acima do mínimo legal. Para sermos justos, o termo “reserva” é muito pouco usado por lá. Preferem “Garrafeira” que tem regras mais rígidas.

Nos países produtores do “Novo Mundo” é onde as regras não existem ou são tão genéricas que a palavra “Reserva” passa a não ter nenhum significado: Austrália, Argentina, América do Norte, Nova Zelândia e alguns outros.

O destaque fica para o Chile, que chegou a inventar o (detestável) “Reservado” (para os otários) e para o Brasil que, na tentativa de copiar e adaptar as normas espanholas, criou um monstrengo, sem fundamento, oficializando o tal do “reservado” …

Gente oportunista e inescrupulosa existe em qualquer lugar e em qualquer atividade, inclusive no mundo do vinho.

Agora já sabemos: olho nos vinhos ditos “Reserva”, podemos estar comprando gato por lebre!

Saúde e bons vinhos.

CRÉDITOS:

Imagem de Freepik

Descritores do vinho: “Complexo”

Descrever um vinho nem sempre é uma tarefa fácil e, quase sempre, quem escuta ou lê uma análise feita por um Sommelier ou por especialistas, tem que recorrer a um dicionário para tentar matar a charada.

A grande dificuldade em descrever um vinho está centrada num único ponto: encontrar adjetivos que expliquem o que uma pessoa está sentindo ao degustá-lo. Cada indivíduo tem sensações bem pessoais que dificilmente serão as mesmas do que as de uma pessoa que está ao seu lado.

Alguns destes descritores se tornaram padrões: ácido, tânico, frutado, mineral, equilibrado etc. À medida que vamos naturalmente nos aprofundando neste mundo, aprendemos outros, digamos, menos comuns. Um bom exemplo é “estruturado”, como se o vinho tivesse fundações, pilares, vigas e lajes, usando o jargão da Engenharia Civil.

“Complexo” é outro de difícil compreensão, mas ao mesmo tempo, pode ser usado numa bela frase de efeito quando, na tentativa de descrever múltiplas sensações, algumas naquela categoria do “nunca provei nada igual”, não encontramos nada melhor. A saída é afirmar algo como “este vinho é muito complexo”!

Um bom dicionário traz esta definição: “construção composta de numerosos elementos interligados ou que funcionam como um todo”. Logo, se usarmos a expressão mencionada de forma genérica, não estaríamos errando.

Para profissionais, trata-se de um néctar que apresenta diversas camadas de aromas e sabores, alguns mais evidentes e outros mais sutis. Um vinho poderoso, quase sempre alcoólico, com uma “textura” (outro descritor enigmático) bem particular.

A principal característica para que um vinho possa ser considerado como complexo é o equilíbrio entre os componentes de sua “estrutura”: taninos, ácidos e açúcares – cada um desempenha o seu papel sem se sobrepor aos demais.

Existe uma harmonia que vai dar longevidade a este caldo. Para vinificá-lo, todas as etapas foram cuidadosamente avaliadas: o terroir foi escolhido com precisão, as castas se adaptaram perfeitamente ao ambiente e foram colhidas no ponto de maturação ideal, os processos tiveram mínimas intervenções e a higiene sempre foi a tônica. Nada poderia dar errado.

Não é simples avaliar isto tudo num pequeno gole que passeia pela nossa boca. Não são vinhos óbvios, como os que se dizem frutados ou frescos.

Vinhos complexos são pensados, trabalhados e afinados para atingirem um determinado ponto. Enólogos não estão preocupados com castas emblemáticas ou outras apelações do Marketing. Se um corte for necessário ele é feito. Precisa de outras nuances, deixe envelhecer em barricas de carvalho que podem ser novas, usadas ou uma mistura delas. Tudo será controlado e provado a cada etapa.

Complexidade pode ser criada, adicionada ou manipulada. Mas não é para qualquer “bico”. São vinhos caros por sua própria definição. Nunca estão “prontos” e ter a paciência de esperar a hora certa para degustá-los certamente aumenta sua complexidade.

Resumindo: a expressão “este vinho é complexo” pode ser usada em diversas situações.

1 – Quando não temos nenhum adjetivo em nosso vocabulário para descrever o que estamos experimentando;

2 – Quando Enófilos, Sommeliers e outros profissionais forem surpreendidos, positivamente, com uma qualidade muito acima da esperada;

3 – Quando aquele vinho que compramos despretensiosamente e o guardamos sabe-se lá por que razão, se revela o néctar sempre sonhado.

Neste último caso, apenas, a frase pode ser substituída por um adjetivo único, expressado de forma clara e intensa após uma gole maravilhoso:

Complexo!

Saúde e bons vinhos.

CRÉDITOS:

Foto por jcomp para o Freepik.

Pontuação dos vinhos – de volta ao básico

Vinhos pontuados, premiados ou simplesmente recomendados fazem a cabeça de muita gente. O problema é que não existe uma padronização que permita uma comparação minimente lógica por parte do consumidor interessado em compreender o que significa, realmente, aquela etiqueta com a nota dada por um crítico famoso ou o selo de premiação de um concurso.

Antes de nos aprofundarmos em explicações mais refinadas, é preciso ter em mente que o resultado de uma avaliação crítica ou de um concurso é sempre subjetivo. O gosto pessoal de quem prova um vinho para julgá-lo sempre terá um peso maior, por mais sério que seja, e por mais rígidas que sejam as normas de degustação impostas.

Por esta razão, o corpo de jurados dos grandes concursos internacionais é composto por mais de uma centena de pessoas, de diferentes origens. Os vinhos são avaliados em lotes e passam por várias etapas. Uma boa analogia pode ser feita com uma competição esportiva: eliminatórias, quartas de final, etc.

Com relação aos críticos, cada avaliação é estritamente pessoal. Alguns deles se destacaram por sua imparcialidade e por terem um “gosto” quase universal. Atualmente, poucos ainda trabalham sozinhos. Tornaram-se grandes equipes, com experts em vinhos de diferentes regiões.

Apesar de aposentado, Robert Parker continua sendo a referência. Adotou uma escala de 100 pontos para classificar seus vinhos. Não foi ele quem a inventou, mas foi quem a melhor utilizou e popularizou. Várias revistas especializadas e outros profissionais adotam este sistema, entre elas, a Wine Spectator.

Ninguém questiona um vinho de 100 pontos, algo muito perto da perfeição. Mas os leitores saberiam o significado das notas abaixo da máxima?

Aqui estão elas:

95 a 100 pts – um vinho como deve ser, um clássico;

90 a 94 pts – surpreendente, um vinho de qualidade superior;

85 a 89 pts – muito bom;

80 a 84 pts – bom;

75 a 79 pts – medíocre;

50 a 74 pts – não beba!

Outro tipo de pontuação muito popular é a de 20 pontos. Foi desenvolvida na Universidade de Davis, no final da década de 50, com um propósito bem acadêmico. Até hoje é a preferida pelos cursos de Sommelier, profissionais ou amadores, e a nota é obtida através de uma análise técnica que envolve cor, aromas, sabores e aspectos mais técnicos como acidez, tanicidade, entre outros. Sempre é feita uma ficha onde a pontuação de cada aspecto é anotada.

Cada nota tem um significado:

20 – Um vinho ideal;

19 – Extraordinário;

18 – Um ponto acima;

17 – Superior;

16 – Com personalidade;

15 – Na média;

14 – Sem graça;

13 – Limítrofe;

12 – Com defeitos.

A respeitada crítica Jancis Robinson é defensora desta forma de avaliar.

A última escala que vamos comentar é a de 5 pontos, muito comum em guias de vinhos. Podem ser representadas por algarismos ou simplesmente símbolos como um asterisco ou outro. O mais famoso guia de vinhos italianos, o Gambero Rosso, adota o “bicchiere”, a tacinha de vinho. Outro adepto desta escala é o popular aplicativo Vivino.

Aqui está o significado de cada nota:

5 – O melhor de todos;

4 – Excelente;

3 – Bom, para o dia a dia;

2 – “dá para o gasto” …;

1 – Não presta nem para lavar cachorro.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto de abertura obtida em: Vinosophers

Maturação e envelhecimento

Parecem sinônimos, mas não são, principalmente quando o assunto for vinho. Há uma sutil diferença, muitas vezes não percebida até por enófilos experientes.

Tecnicamente o vinho é o resultado de uma reação química, a fermentação, quando os açúcares que existem naturalmente no mosto são convertidos em álcool. Neste processo, começam a surgir aromas e sabores que vão deliciar o nosso olfato e paladar. Mas tudo isto só será verdadeiro se dermos “tempo ao tempo”. Recém-saído da fermentação, é uma caldo intragável, selvagem, que tem enorme potencial, mas ainda não desenvolveu, plenamente, todas as suas características organolépticas.

Esta é a fase da “afinação”, como num instrumento musical. O vinho é deixado em repouso durante um bom período, a critério do produtor, em grandes recipientes inertes que podem ser de aço, concreto ou algum material sintético.

Madeira também é usada, com um critério maior, pois pode influenciar no resultado, acrescentando novas características. Tudo dependerá do tamanho do recipiente: quanto maior for, menor sua influência. O Carvalho é a madeira mais comum, mas ainda são usadas, para as grandes dornas, o Castanheiro e a Cerejeira.

Este repouso é a fase inicial da maturação de um vinho e dura até o momento de seu engarrafamento. No caso dos grandes vinhos, a vinícola pode decidir não engarrafar o vinho “afinado” e deixá-lo maturando mais um período, desta vez nas barricas de carvalho, menores, com o propósito de receber novas camadas de aromas e sabores, decorrentes do contato direto com a madeira de origem europeia ou americana.

Muitos especialistas preferem usar o termo “envelhecimento” para definir o que acontece a partir deste ponto. É como se fosse uma nova etapa, após a conclusão do processo produtivo. Mesmo engarrafado, um vinho continua sua maturação ou como preferem os “experts”, evoluindo. O gráfico a seguir mostra as fases da vida de um vinho.

Existe um ponto onde o vinho atinge seu máximo potencial, representado no topo da figura do “sino”. Para cada tipo de vinificação, o que inclui as diferentes castas, este ponto será num momento diferente. Não pensem que é fácil acertar na primeira tentativa. Degustadores experientes adotam um critério de tentativa e erro: compram algumas garrafas da mesma safra de um vinho. Após degustarem a primeira, decidem por quanto tempo vão guardar as outras (ou não …)

Durante sua vida, um vinho harmoniza suas características: os taninos suavizam, a acidez se equilibra, a bebida ganha corpo e desenvolve o seu “bouquet”.

Um dos melhores marcadores para avaliar a idade de um vinho é sua cor na taça, principalmente a suave variação da coloração na borda de contato. Deve ser observada num ambiente claro, contra um fundo branco, inclinando-se levemente a taça.

Nos brancos, vamos encontrara variações entre o quase incolor, para um vinho jovem, até um dourado, indicando um vinho já bem maduro. Para os tintos, a escala começa no violeta, rubi, passa por um marrom avermelhado, terminando numa cor de tijolo, indicativo que o vinho passou de seu tempo.

Degustar um vinho no seu ponto ideal é uma experiência inesquecível. Comprar um vinho, deixá-lo envelhecendo na sua adega e acertar o momento de prová-lo, não tem preço.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto de abertura:  Ion Ceban – @ionelceban no Pexels

A importância dos rótulos – de volta ao básico

Compreender a importância dos rótulos é algo muito fácil: basta imaginar como a nossa vida seria difícil sem eles!

Segundo consta nos livros sobre a história dos vinhos, teriam sido os egípcios os primeiros a marcar suas ânforas com dados sobre o que estariam nelas: o ano de produção, o local de origem, o nome do produtor e o tipo do vinho. Tudo gravado na cerâmica, ainda fresca ou em processo de secagem.

Era um produto muito apreciado. Na tumba do Rei Tut (Tutancamon) foram encontradas cerca de 30 ânforas de diferentes vinhos, para que ele pudesse desfrutá-los na eternidade.

Há um longo caminho desde o Egito dos tempos de Faraós e pirâmides até os modernos rótulos impressos que decoram as garrafas de hoje.

Cada país produtor tem suas regras para a rotulagem dos vinhos. Algumas informações são comuns, quase obrigatórias, por exemplo, graduação alcoólica, origem, nome do produtor. Outros dados podem aparecer no contrarrótulo, como os selos de regiões controladas, importadores e demais minúcias burocráticas.

As grandes vinícolas se esmeram em rótulos muito elaborados, com grandes nomes do design por trás de cada um, afinal, este primeiro contato visual é que vai estimular a nossa curiosidade e, eventualmente, comprar a garrafa.

Seguindo por este caminho, estaríamos fazendo uma compra por puro impulso, nada sabendo sobre o conteúdo. Talvez uma pequena pista sugerida pelo formato e cor do vasilhame, e só.

Fica clara a função do rótulo: informar!

A primeira coisa que devemos buscar é o ano de produção, a safra, que deve estar bem destacada. Algumas vezes o autor do rótulo prefere mover esta importante informação para o contrarrótulo, mas ela deve estar sempre presente. Existem vinhos não safrados, os mais comuns deles são os espumantes. Alguns vinhos de corte também podem não apresentar esta data, mas deve haver alguma indicação clara sobe isto. Geralmente são obtidos por “blends” de duas ou mais safras.

A segunda informação é a origem do vinho, principalmente se vier de alguma região de origem controlada ou indicação geográfica. Significa que seguiu normas de produção mais restritas o que, indiretamente, implica numa melhor qualidade e preço mais alto. Mas não é uma garantia.

O terceiro ponto a se buscar no rótulo é o nome do produtor. Alguns se tornaram maiores que seus produtos e, esta menção, pode ser mais destacada que o próprio nome do vinho. Há um eficiente marketing numa decisão destas: muitos apreciadores preferem comprar um Antinori, um Chapoutier, um Rolland…

Por fim, o rótulo deve apresentar a composição do vinho, seja ele um varietal ou um corte, e o teor alcoólico. Infelizmente, as múltiplas regras em vigor nem sempre impõem estas dados. Muito comum em vinhos chamados “de entrada” que conste apenas, no rótulo traseiro, algo como “uvas viníferas europeias”.

Existem complicadores nestas regrinhas básicas. Os mais famosos são os rótulos de origem francesas. Em vez de enfatizarem as castas utilizadas, destacam a região. Além disto, os nomes de cada vinho podem estar associados ao das vinícolas. Os vinhos de Bordeaux são denominados pelos “Chateaux” (há exceções). Já os da Borgonha são mais conhecidos por seus “Domaine” (idem).

O comprador precisa ter alguma cultura para saber que um Sancerre é um Sauvignon Blanc e um Chablis é um Chardonnay. Mas isto já é quase uma lugar comum e acaba virando motivo de bons papos quando se descobre algum inocente neste assunto.

Rótulos também podem se transformar em obras de arte. O famoso Chateau Mouton Rothschild contrata um artista internacional para desenhar sua etiquetas a cada safra. O do milênio se tornou um dos mais conhecidos.

Notem que mesmo num projeto de concepção artística, tudo o que importa está ali: a safra (2000), o nome/local do vinho (Bordeaux) e a região demarcada (AOC Pauillac).

Saúde e bons vinhos!

Créditos:

Foto de abertura obtida do site Wine and Cork no Pinterest

Foto da garrafa obtida no site da vinícola, onde existe uma coleção de todos os seus rótulos: Chateau Mouton Rothschield

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