Categoria: O mundo dos vinhos (Page 84 of 86)
Há cerca de duas semanas, quando publicamos um glossário sobre os termos usados na descrição dos vinhos, houve uma interessante troca de e-mails entre esta coluna e o leitor Laureano Santos que reside em Oeiras, Portugal, distante 5Km da capital, Lisboa.
Com muita propriedade ele chamou a atenção para uma possível confusão entre um dos verbetes, ‘Verde’, algumas vezes empregado para definir um vinho que ainda não está próprio para consumo, com ‘Vinho Verde’, um dos mais típicos e deliciosos vinhos de Portugal. E ele está com toda a razão por um fator muito importante: Vinhos Verdes são produzidos para serem consumidos jovens!
Vamos conhecer um pouco mais sobre esta delícia da ‘terrinha’.
Esta denominação protegida, uma das mais antigas de Portugal (1908), só pode ser produzida numa região específica utilizando castas típicas de lá. Existem Espumantes, Tintos, Rosados e Brancos, estes últimos os mais conhecidos.
A Região demarcada ocupa o noroeste do país, histórica Província do Minho que foi extinta em 1976 e algumas áreas adjacentes. A denominação atual é Entre-Douro-e-Minho. Vinhos desta região foram citados por romanos como Plínio e Sêneca. Pesquisas de documentos mais recentes demonstraram que houve exportação deste produto, no século 12, para a Inglaterra, Alemanha e Bélgica.
Curiosamente foi a introdução do milho na agricultura daquela região que transformou tudo. As vinhas foram quase banidas dos campos para dar lugar à nova cultura, obrigando os vinhateiros a cultivar suas parreiras como se fossem trepadeiras em árvores mais altas. Posteriormente evoluiu para uma estrutura em treliça. Para colher as uvas era preciso usar escadas! Atualmente este antigo sistema convive com técnicas modernas de plantio.
A Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes estabelece:
“Questões de ordem cultural, microclimas, tipos de vinho, encepamentos e modos de condução das vinhas levaram à divisão da Região Demarcada dos Vinhos Verdes em nove sub-regiões”: Amarante; Ave; Baião; Basto; Cávado; Lima; Monção e Melgaço; Paiva; Sousa.
Com relação às castas, são estas as principais reconhecidas pela comissão:
Brancas: Alvarinho; Avesso; Azal; Batoca; Loureiro; Arinto (Pedernã); Trajadura;
Tintas: Amaral (Azal Tinto); Borraçal; Alvarelhão (Brancelho); Espadeiro; Padeiro; Pedral; Rabo-de-Anho (Rabo-de-Ovelha);Vinhão.
Existem outras 20 castas secundárias que são utilizadas.
Vinhos Verdes brancos são muito saborosos e refrescantes apresentando uma característica levemente frisante, resultado da fermentação malolática realizada na garrafa.
O que é um defeito nos vinhos comuns torna-se um importante diferencial neste produto: é desejável. Mas impunha uma curiosa condição: as garrafas deveriam ser escuras, mesmo para os brancos, para esconder uma pequena turbidez decorrente desta segunda fermentação.
Modernamente, a Malolática já está sendo feita antes do engarrafamento. O efeito efervescente é obtido mediante a injeção, posterior, de gás carbônico, como se faz em refrigerantes.
Os Tintos são de coloração muito escura e com fortes taninos. Os rosados se assemelham aos brancos.
No Brasil os Vinhos Verdes sempre foram muito apreciados devido ao baixo teor alcoólico e por suas características organolépticas. Combinam muito bem com o clima e culinária nacional. Ficaram célebres marcas como Casal Garcia, Acácio, Gatão e Calamares com suas garrafas ovais.
Estes vinhos de antigamente não têm mais o mesmo encanto. Como tantos outros produtos, o Verde também mudou, fruto da necessidade de novos mercados e de experimentações de grandes produtores como Anselmo Mendes, Soalheiro e Quinta do Ameal.
Este vinho moderno tem como característica um maior teor alcoólico, mas continuam apresentando uma refrescante acidez, aromas e sabores frutados. São produzidos dentro das mais recentes técnicas e apesar de tradicionalmente serem consumidos jovens, não há nenhum problema em armazená-los por 6 ou 7 anos descobrindo-se uma nova experiência ao consumi-los já adultos, São vinhos incríveis!
Vinho Verde: a qualquer hora, em qualquer lugar.
Produtor: Quinta de Gomariz
Castas: Alvarinho, Loureiro e Trajadura
Coloração palha de média intensidade, cristalina. Intensamente frutado com tangerina, melão maduro e pétalas de rosas. Ligeiro de corpo, impressiona pelo balanço, pela enérgica e prazerosa juventude frutada. Ótima persistência no fim-de-boca.
Harmoniza com Ceviche; Queijo de cabra; Massa com frutos do mar.
Acidez – Sensação pungente introduzida pelos ácidos naturais da fruta. Componente vital do vinho que lhe dá mordida e vitalidade
Adstringente – Amargor, sensação de secura na boca (por excesso de tanino)
Amanteigado – Sabores cremosos e ricos associados à fermentação em barril
Aromas – Odores agradáveis originados pela uva
Aveludado – Vinho macio, profundo, rico em aromas e sabores, normalmente, vinho com muita glicerina
Bouchonné – Termo francês que descreve um vinho com aromas de mofo devido a rolha contaminada por fungos.
Buquê – Reunião dos diversos aromas da vinificação e amadurecimento.
Chato – (achatado, plano) Vinho sem acidez suficiente, aroma tedioso
Caráter – Atributos únicos de um vinho.
Carnudo – Com textura macia, agradável e muito encorpado
Carvalho – Aromas introduzidos durante a fermentação ou envelhecimento em barricas – baunilha, caramelo, chocolate, café, defumado, tostado, etc.
Complexo – Múltiplas camadas de aromas e texturas.
Corpo – Descreve o comportamento do vinho no palato. Pode variar de encorpado a leve. É determinado pelo seu teor de álcool e extrato (Ver Extrato)
Corpo leve – Vinho com sabores, textura e aromas delicados.
Corpo Médio – Vinho sólido que não é rico em presença nem em textura
Cozido – Descreve um defeito que ocorre quando o vinho é exposto a altas temperaturas, estragado.
Defumado/Tostado – Aromas decorrentes do uso de barris com tosta intensa.
Delicado – Vinho de corpo leve, aroma não muito forte e fresco, mas com equilíbrio
Desbalanceado/Desequilibrado – Quando a bebida tende para uma só característica – mais ácida, mais frutada ou mais tânica. Não há harmonia entre os elementos.
Doce – Vinho com maior concentração de açúcar residual
Duro – Com estrutura ou textura que escondem os aromas e sabores
Elegância – Qualidade de um vinho equilibrado com caráter distinto, agradável.
Encorpado – Rico, que enche a boca, repleto de aromas e sabores.
Equilibrado – Todos os componentes estão em harmonia.
Extrato – é a soma das partes sólidas do vinho: taninos; pigmentos; açúcares; minerais e glicerol
Fechado – Um vinho que ainda não está no ponto de consumo, precisa respirar, decantar.
Fermentação Malolática – Conversão do duro ácido málico (maçã ácida), em ácido lático (amanteigado).
Fermentado em Barril – Técnica de fermentação usada no lugar de tanques de aço inox com resultados distintos
Final – Impressão final deixada no palato. Varia de longa a curta
Firme – Típica estrutura de um vinho tinto jovem e tânico
Floral – Prevalecem aromas de flores como rosas, violetas ou gardênias
Frutado – Prevalecem aromas e sabores de frutas. Evita-se usar para sabores cítricos ou de frutas muito doces. Neste caso a fruta é citada.
Gramíneo – Com sabores e aromas que remetem a grama ou ervas cortadas
Herbáceo – Predominam os aromas, de grama e folhas, e sabores que remetem a vegetais
Insípido – Que falta aroma, sabor e textura.
Intenso – Jovem, frutado, vívido.
Lágrimas – Impressões deixadas na lateral taça ao se agitar o vinho.
Limpo – Vinho sem aromas e sabores desagradáveis
Mastigável – Muito encorpado, rico, textura que enche a boca.
Meio Seco – Classificação para vinhos com pouco teor de açúcar residual, entre seco e doce.
Nariz – O cheiro do vinho, aromas.
Pedra de Isqueiro – Aromas e sabores minerais – lembram o aroma da tentativa de acender o isqueiro.
Ralo – Aguado, desagradável, sem aroma ou sabor.
Redondo – Bem equilibrado, sem arestas, boa textura, agradável.
Rico – Intenso, agradável, saboroso.
Safra – Ano em que as uvas foram colhidas para a vinificação
Seco – Sem açúcar ou doçura residual; um vinho frutado pode ser seco
Tanino – Uma característica dos vinhos tintos que traz a sensação de secura no palato, adstringência.
Terroir – Termo francês que descreve a expressão do solo, clima, topografia, ciência e homem num vinho.
Terroso – Com aromas que remetem a elementos do solo, cogumelos, minerais.
Vegetal – Destacam-se aromas herbáceos ou de capim.
Verde – O contrário de maduro, acre, pungente, adstringente.
Dica da Semana: um ótimo rosado que pode ser consumido em dias mais frios.
Memoro Rosato
O site de Jancis Robinson realizou uma grande prova às cegas com 100 dos melhores rosados de todo o mundo. O empolgante Memoro de Piccini arrematou a 3ª melhor nota, sendo superado apenas por vinhos que custam o dobro ou o triplo do Memoro! “Ótima pureza de fruta” e um “delicado equilíbrio” foram alguns dos adjetivos utilizados para descrever o vinho elaborado com uvas de 4 regiões diferentes da Itália. Uma ótima opção para substituir os vinhos brancos nos dias mais frios.
Como em qualquer indústria, a do vinho também tem seus segredos, suas fórmulas mágicas, suas receitas. Nunca são divulgadas, apenas passadas de geração em geração.
O mundo hoje caminha para uma era dos poucos segredos, documentos classificados como secretos pipocam aqui e ali causando espanto a todos. O mesmo está acontecendo na área vitivinícola: existe no mercado um “melhorador de vinho” que todos os produtores conhecem, mas nenhum afirma que o usa.
Nem sempre uma vinificação resulta num produto que atenda às especificações de um enólogo. Pode não ter a cor desejada ou não apresentar aromas e sabores interessantes. Além disto, a utilização de super leveduras na fermentação para extrair o máximo de um mosto pode trazer, como efeitos colaterais, pequenos ‘defeitos’ que normalmente são mascarados pelas boas qualidades do produto final. Se o processo todo não resultar no esperado, o enólogo está cheio de problemas.
Sempre existiram soluções para estes casos, a mais conhecida é utilizar este vinho ‘pobre’ em um corte com outro que faça as correções necessárias. Vinhos obtidos com castas como a Petit Syrah, Alicante Bouschet, Tinta Cão, entre outras, conhecidas como uvas tintureiras, são empregados para efetuar correções de rota, sempre em pequenas quantidades, dentro do que permitem as legislações locais, desobrigando informar isto nos rótulos.
A maior dificuldade, nestes casos, é obter estas ‘tinturas’ caso não fossem produzidas na própria vinícola: tinham que recorrer ao mercado de vinho a granel. Alguns empresários perceberam uma oportunidade e criaram uma “poção mágica” que resolve todos os problemas: melhora a cor, acrescenta alguma doçura, mascara os subprodutos indesejáveis da fermentação e deixa o vinho arredondado no final. Além disto é absolutamente natural e praticamente indetectável. Melhor impossível!
Não há nenhum mistério neste produto. Trata-se de um muito concentrado suco de uvas, obtido a partir de castas selecionadas, algumas criadas especificamente para este fim como a Rubired (Rubi Vermelho) um cruzamento de Alicante Ganzin e Tinta Cão. Existem diversas marcas, a mais conhecida é a Mega Purple, produzida por uma dos maiores conglomerados de bebidas alcoólicas a Constelation Brands (vinhos, destilados e cervejas), proprietaria de quase 40 marcas de vinhos de todo o mundo. Entre elas vamos encontrar a famosa Mondavi da Califórnia, Muton Cadet da França e Ruffino da Itália.
Aqui entra a pergunta que vale 1 milhão de dólares: se produzem este concentrado devem utilizá-lo, mas em que vinhos?
Esta questão certamente vai ficar sem uma resposta, ninguém é ingênuo a ponto de responder que sim e achar que o mercado não vai reagir de forma negativa. Mas podemos especular.
Este recurso só deve ser empregado para aqueles vinhos de menor custo e que se destinam a grandes redes de lojas ou supermercados. Nenhum vinho “Top” vai receber uma gota sequer deste xarope. Bastaria uma suspeita ser publicada numa rede social e o estrago seria definitivo.
Caso algum leitor não tenha se dado conta, a maioria dos grandes vinhos não comercializou uma determinada safra simplesmente porque não atingiu a qualidade necessária. O prejuízo é menor.
Por outro lado, não ter vinho para atender a um pedido de um gigante do varejo pode proporcionar um rombo nas finanças. Neste caso, é melhor “botar água no feijão” do que sair com o pires na mão em busca de recursos.
Mais um motivo para desconfiar de vinhos baratos em prateleiras de mercado.
Dica da Semana: um bom Porto, bem de acordo com o clima frio.
O Fine Tawny é um pouco mais claro e seco que o Ruby devido ao maior tempo de envelhecimento.
O ótimo bouquet lembra nozes e frutas secas. Apresenta grande persistência na boca.
Quando comecei a escrever sobre vinhos para O Boletim decidi seguir alguns cânones, por exemplo, usar o jargão típico dos enófilos, mesmo sabendo que nem sempre isto faria muito sentindo para os leitores. Alguns e-mails até sugeriram a elaboração de um glossário.
Parece que esta linguagem muito específica começou a incomodar alguns pesquisadores que decidiram medir, no mercado inglês que é considerado o maior do mundo, o que realmente valia a pena ou era interessante saber para o consumidor final. O resultado é surpreendente, mostrando do que a força do marketing é capaz: termos restritos à profissão do enólogo acabam na boca do povo que não tem a menor ideia do que estão falando. Mas fica bonito… Eis alguns exemplos.
1 – As Notas de Degustação – honestamente, algum leitor já comprou um vinho por que se sentiu atraído por este tipo de informação? Saber que o que está na garrafa tem “Cor púrpura com reflexos violáceos” é fundamental na hora de comprar um vinho?
O estudo inglês mostrou que não, mais de 55% das respostas foram negativas, muitas apontando que esta descrição nem sempre era clara. Apenas 9% dos entrevistados afirmou que escolheu um rótulo baseado numa descrição do produto.
O resultado desta pesquisa pode ser usado em qualquer mercado sem grandes alterações.
2 – A Madeira dos Barris de Carvalho – saber de qual bosque veio a madeira usada numa barrica se tornou ponto de honra. Se vier de Alliers ou Tronçais tanto melhor, algo como ‘está é “a” barrica’…
Bobagem!
Só os muito ingênuos acham que vão notar alguma diferença se usarem esta ou aquela madeira. Um ponto é fundamental: o carvalho americano e o francês são diferentes acrescentando aromas e sabores distintos ao vinho que neles permaneceu. Mas quem decide o resultado final é o enólogo, que vai dosar o produto até atingir sua meta. Honestamente, é quase impossível saber ao degustar um vinho qual a origem das barricas.
Mais um ponto para pensar: o “carvalho francês” também existe em florestas que por muitos anos ficaram inacessíveis por trás da Cortina de Ferro. Hoje em dia já é possível falar em carvalho esloveno ou romeno. Do ponto de vista científico são exatamente iguais ao francês. Quem se arrisca a identificar um ou outro? Mais uma informação pouco relevante. Mas quanto prestígio…
3 – Vinhedo ou Parcela Únicos – esta frase está na moda e aumenta significativamente o preço dos vinhos que a trazem em seus rótulos. Se for realmente verdade que uma determinada vinícola faz regularmente vinhos somente com frutos obtidos de uma região específica de seu vinhedo, vamos ter que acreditar que o clima, naquela região, é imutável.
Não é bem assim. Ninguém dúvida que as melhores uvas vão para os melhores vinhos. Também é seguro afirmar que esta ou aquela micro região produz frutos de melhor qualidade. A dúvida fica por conta de o volume de uvas ser suficiente para elaborar uma quantidade de vinho que possa ser comercializada.
Este tipo de informação deveria ficar restrita aos Agrônomos e Enólogos, só a eles interessa. Mas vende o produto. O próximo passo vai ser algo como “Parreiras Selecionadas Individualmente”…
Vocês acreditam? Papai Noel existe?
4 – O Melhor Sistema de Fechar a Garrafa – Rolhas de cortiça versus o resto do mundo, uma batalha num ringue internacional: neste corner… e o juiz será o consumidor final.
Há muito para ser dito neste tema. O mais importante é: tampa de rosca vai ser o padrão em pouco tempo. A cortiça está cada vez mais cara, é produzida por um cartel, e para determinadas regiões do mundo é quase inacessível, por exemplo, a Nova Zelândia: mesmo seus vinhos top usam tampas de rosca.
Óbvio que vinhos icônicos e famosos vão continuar com o mesmo sistema que usam há séculos. Sempre funcionou e vai continuar funcionando. Trocar o sistema de fechamento de um vinho destes pode causar estranheza e desconfiança. A chave neste caso é que o preço da rolha não vai alterar em nada o custo final.
Mas o que dizer de um vinho do dia a dia? Para uma garrafa que custe 50 reais num supermercado não importa como ela foi fechada: quanto menor o custo melhor, desde que o sistema empregado cumpra sua função de vedação protegendo a bebida, melhor.
Deixem esta preocupação para os enólogos e aceitem sua decisão. Sempre será a melhor escolha para aquele produto.
5 – Dia e Hora da Colheita – este dado é de um preciosismo e de uma inutilidade assombrosos. Levante a mão o consumidor que for capaz de perceber esta nuance ao consumir um vinho. Nem o famoso Parker, aposto!
Pode parecer inverídico, mas já encontrei, num contra rótulo, um minucioso texto informando que as uvas teriam sido colhidas num dia do mês de Abril, à tarde. Em outro vinho, as uvas foram colhidas numa amena noite de março. Para quem isto é relevante afinal? Acho que a turma do Marketing pegou pesado aqui.
6 – Proporções de um Corte – apesar de ser uma informação relevante, estão levando isto ao extremo. É óbvio que fica frustrante ler um rótulo para descobrir que é um vinho obtido a partir de “uvas viníferas europeias”. Mas também não me adianta nada saber que um corte foi obtido a partir de 11,5% Cabernet, 15,7% de Carmenére, 13,87% de Malbec, 2,34% de Syrah e mais uma infinidade de uvas. Não precisamos nem desta, nem da outra informação; não ajudam em nada, confundem.
A grande maioria dos vinhos ditos varietais, ao contrário do que imaginamos, pode receber uma quantidade pequena de outras uvas que permitem um melhor acabamento do produto: pode melhorar a cor, aroma, tanino etc. Esta adição é legal, não precisa ser declarada e não muda a característica principal da casta, ou seja, um Cabernet com 10% de Merlot continua sendo um Cabernet.
Por outro lado, se um vinho for um corte em que as diferentes castas tiverem pesos semelhantes, está é uma informação válida que deve ser divulgada claramente. Fora disto, deixe para os ‘enochatos’.
7 – Teor Alcoólico – o que se discute aqui é se a quantidade de álcool num vinho tem realmente a importância que se atribui a este dado, que consta dos rótulos por obrigação legal. Países produtores que têm seus vinhedos em regiões de muito sol produzem vinhos mais alcoólicos, os frutos terão maior teor de açúcar para ser convertido. Mas este fator sozinho não torna um vinho melhor ou pior para ser consumido. Se realmente isto for um ponto de discussão válido é melhor esquecer o vinho e beber suco de uva: teor zero!
8 – A Cuba de Fermentação – a mais recente invencionice dos marqueteiros que resolveram distinguir os vinhos pelos recipientes em que são fermentados. Desta forma seriam sensivelmente diferentes vinhos que foram elaborados em tanques de inox, em barricas de madeira, piscinas de concreto (com ou sem epóxi) e até na última novidade um recipiente de forma oval construído em concreto.
Isto faz diferença? Creio que só para o enólogo ou algum especialista do assunto. Em todos os casos o resultado é vinho. Só de curiosidade, acho que seria mais útil saber qual a levedura utilizada, assim poderia esperar pela presença, ou não, de determinados aromas e sabores. O resto é subjetivo e fica a critério do leitor.
Dica da Semana: um excelente Syrah do Chile com uma característica que serve de exemplo para tudo que foi dito acima.
Composição: 94% Syrah, 2% Malbec, 1,5% Tempranillo, 5% Grenache Noir, 1% Viognier
Colheita: 22 de abril – 2 de maio 2007
Álcool: 14,6%; Açúcar: 2,6 g/l; Acidez: 5,9 g/l; PH: 3,62
Cor violáceo profundo. Aromas de pimenta branca e negra, acompanhado de frutas negras, ervas e aniz. Vinho de grande corpo, elegante, com taninos muito intensos, porém suaves. Acidez natural e doçura de álcool bem equilibradas. O vinho é muito complexo, integrando os diversos sabores que emergem no paladar. Final longo.
Precisa disto tudo ou bastaria dizer: Ótimo vinho!
Na semana passada recebemos este e-mail do leitor Francisco Calmon, do Distrito Federal:
“Tuty,
Pela qualidade dos vinhos servidos, deve ter custado uma baba esta reuniãozinha… rs
Montamos uma confraria aqui no DF, contando com suas dicas. Estamos ainda no comecinho e nosso objetivo, em primeiro lugar, é gastar pouco, ou seja, fazer o que vc nos ensinou desde a sua primeira coluna: procurar vinho bom e barato. É claro que com isso provamos vinhos ruins, ainda não aprendemos a classificar os que valem a pena ser experimentados.
Fazemos a nossa reunião no sábado, cada vez na casa de um, já que todos do grupo moramos em casas. Ora fazemos um jantar, ora um comes e bebes, ora um queijos e vinhos, enfim… Já conseguimos achar vinhos muito bons (para nosso gosto) por valores inferiores a 40,00… nosso limite é 80,00 e não é sempre que há vinhos neste valor. Isto vale para brancos ou tintos.
Somos 5 casais de amigos e, tirando uma das mulheres, todas bebem… e bem… Contratamos uma van que nos leva a casa onde será o encontro da semana. O motorista nos espera e nos deixa em casa… sempre o mesmo.
Mas o mais legal de tudo foi o nome da confraria: Confraria do Boletim… rs Espero que o Valter não nos queira cobrar direitos autorais… rs
Abraços e obrigado pelos belos momentos que vc e O Boletim nos está permitindo desfrutar.
Francisco-DF”
Este e-mail nos encheu de satisfação. Se eu, José Paulo e Valter tínhamos alguma pretensão com a Coluna de Vinhos, a mensagem confirmou que “plantamos alguma coisa boa”!
Achamos esta iniciativa espetacular. Valter, que detém o nome ‘O Boletim’, não vai cobrar royalties. Pode ficar tranquilo Francisco.
José Paulo que é o atual presidente da famosa Confraria do Camarão Magro ficou empolgado: “Muito legal! Espetacular! Confraria é isto, não precisa complicar”.
Um detalhe que chamou nossa atenção foi a preocupação com o custo dos vinhos. A maioria dos leitores já percebeu que acreditamos na relação custo x benefício, apesar de algumas reclamações sobre a Dica da Semana que só apresentaria vinhos baratos, o que não é verdade.
Para diminuir significativamente o custo existe um truque que é aproveitar uma viajem para o exterior para trazer ótimos vinhos por preços convidativos, permitindo elevar o cacife. Basta lembrar-se de poucas regras:
1 – a legislação brasileira permite trazer na bagagem até 15 litros de bebidas alcoólicas. No caso do vinho, como cada garrafa guarda 750 ml, isto equivale a 20 delas. Mas não exagerem, além de aumentar o peso de sua mala pode chamar a atenção para outros itens. O ideal é de 6 a 12 garrafas (2 caixas), muito bem embaladas. Isto pode ser solicitado na hora da compra. Para garrafas individuais procure por um Wine Skin (foto);
2 – nas principais capitais do mundo e nas regiões produtoras, existem excelentes lojas de vinho preparadas para atender ao turista. Uma das mecas dos vinhos baratos é os EUA onde encontramos inúmeras lojas especializadas. A Total Wines, por exemplo, permite que os vinhos sejam encomendados com antecedência e enviados para o seu hotel. Melhor impossível! (www.totalwine.com)
3 – escolher os vinhos não é difícil e pode ser até muito divertido. Quase sempre nos guiamos pelos resultados das grandes degustações e concursos publicados na imprensa especializada.
Um exemplo que vai ilustrar bem este ponto é um vinho espanhol, Pétalos del Bierzo, que tem recebido prêmios e elogios por todos os lados: Wine Spectator – 93 pontos (safra 09); Robert Parker – 90 pontos (safra 09); Robert Parker – 90 pontos (safra 08); Wine Spectator – 90 pontos (07).
Custa no importador, Mistral, R$ 111,24 (em 2013) mais frete se não buscar na loja. No site da Total Wines ele sai por US$ 22.99 o que já é uma tremenda pechincha.
Comparamos por inacreditáveis US$ 19.00 numa lojinha ao lado de onde estávamos em Dobbs Ferry, NY;
4 – para terminar estas dicas, uma para deixar todo mundo com água na boca: esta é uma das poucas maneiras de se adquirir vinhos que nunca chegarão por aqui.
Foi o caso do Argyle, um premiadíssimo Pinot Noir do Oregon. Estava na alça de mira havia algum tempo até que, na mesma loja do vinho anterior, o encontramos por US$ 20.00 (já foi devidamente degustado com um belíssimo arroz de pato. O único defeito era a velha história da garrafa única…). Detalhe importante: tampa de rosca!
Um grande auxiliar para as compras é um aplicativo para smartphones e assemelhados o Vivino (http://www.vivino.com.br). Simplesmente fotografe o rótulo e mande para a rede. Após alguns instantes aparecerá uma avaliação do vinho que vai nos ajudar a tomar uma decisão. A base de dados atual é capaz de identificar quase 700.000 vinhos, 14.000 vinícolas de 46 países e 530 castas diferentes. Eis o resultado para o citado Argyle:
Um sistema de classificação bem simples de 5 estrelas onde 1* é um vinho horrível e 5* sensacional. O resultado é a média das notas dos usuários que provaram um determinado vinho. Neste caso, 3.4 de média em 73 avaliações, algo entre bom e ótimo.
Confrarias como as que frequentamos ou iguais a esta que o Francisco Calmon organizou, em Brasília, são palco para diversos experimentos que além de divertir vão aumentar, prazerosamente, a nossa cultura sobre vinhos. Habituem-se a fotografar as garrafas consumidas, as famosas ‘vítimas’, assim terão um registro visual que ajudará a lembrar do que foi bom ou não.
Definitivamente, votem no melhor e pior vinho!
Outra experiência que vale a pena é tematizar um destes encontros, por exemplo: “Vinhos Portugueses”. Estudem o tema com as fontes que conseguirem, escolhendo a harmonização e os vinhos, dentro do orçamento de cada grupo. Para arredondar tudo, indiquem um relator que vai dar uma ‘aula’ sobre o tema, explicando todos os vinhos (origem, casta, elaboração) e a razão da combinação com as comidas que estarão sendo servidas. Todo mundo aprende. Melhor ainda se tocar um fado.
Dica da Semana: um belo vinho do chileno, ótimo companheiro para estes dias mais frios.
De Martino Syrah Reserva 347 Vineyards
Com uma coloração púrpura luminosa, apresenta muita pureza olfativa com cassis maduro, couro, alcaçuz e grafite. Denso, sápido, com taninos arredondados e um longo final de boca.
Harmoniza bem com pratos condimentados como um Steak au Poivre Vert, carne de caça em molho escuro, Marreco recheado e embutidos defumados ou picantes.
















