Categoria: O mundo dos vinhos (Page 14 of 76)

Alguns vinhos icônicos – Dom Pérignon

Quase uma unanimidade: quem lembra de um champagne, automaticamente, pensa num nome: Dom Pérignon!

Uma marca, da Casa Moët & Chandon, que homenageia o célebre Monge Beneditino da Abadia de Hautvillers, em Epérnay (século XVII).

O prédio que sediou esta Abadia e os vinhedos originalmente plantados pelos monges, pertencem, atualmente, à Casa Moët & Chandon (grupo LVMH).

Este champagne é considerado como o melhor vinho espumante do mundo, não só por críticos especializados, como pelos fiéis e apaixonados consumidores. Curiosamente, não se enquadra na categoria dos Grand Crus, tudo por um pequeno detalhe, mas muito importante nesta história: o vinhedo da Abadia.

Para se enquadrar na mais alta categoria entre os champagnes, é preciso que as uvas utilizadas venham de vinhedos também denominados como Gran Crus. Na elaboração do Dom Pérignon, usam frutos de alguns destes vinhedos mas uma parcela, vem do vinhedo original, classificado como Premier Cru.

Sempre um corte de Pinot Noir e Chardonnay, só é elaborado em safras consideradas como perfeitas.

Sua primeira produção remonta ao ano de 1921, vinificada para ser o principal rótulo desta tradicional Maison. Naquela época, era um “blend” dos melhores vinhos base, safrados e envelhecidos, que estivessem disponíveis. A primeira venda ao público foi em 1936, o que o torna o Champagne Premium mais antigo de todos.

A partir de 1940, tornou-se um “blend” dedicado a partir de vinhedos exclusivos. Sempre é safrado e não foi lançado em determinados anos.

Existem diversos mitos que circundam o Monge e a marca. O mais famoso lhe concede o título de “Pai do Champagne”. Num outro relato afirmam que ele seria cego ou lhe atribuem a frase “estou bebendo as estrelas”.

São lendas, bonitas e cativantes, que inspiram os consumidores.

Dom Pérignon não inventou esta deliciosa bebida, mas contribuiu, de forma decisiva, no aperfeiçoamento dos métodos de produção. Não era cego, e tinha boa saúde quando assumiu, muito jovem, a responsabilidade de produzir vinhos na Abadia.

Acreditava que o trabalho o aproximava de Deus, e seu objetivo era produzir o melhor vinho do mundo. A fama de suas vinificações chegou à Versalhes, onde Louis XIV reinava.

A famosa frase apareceu, pela primeira vez, num anúncio em 1880, bem posterior aos tempos do Monge.

Este produto sempre foi considerado como uma obra de arte e, três séculos depois, ainda mantém esta estupenda tradição.

O atual Chefe da Cave, Vincent Chaperon, tem à sua disposição oito vinhedos Gran Cru, além das uvas da Abdia. O segredo desta vinificação está no corte, na forma em que as duas castas são dosadas. Depois de fermentado, o vinho passa cerca de sete anos, em média, amadurecendo sobre as suas borras.

Uma bebida complexa e deliciosa, que é reinventada a cada safra.

Honestamente, não existe nada igual.

Preço médio no Brasil: R$ 2.500,00 (safra 2012)

Saúde e bons vinhos!

Alguns vinhos icônicos – Champagne Cristal

Na coluna sobre o Romanée-Conti, um leitor fez o seguinte comentário:

“bebida é vinho, vinho é tinto …”

Ao que, outro leitor, retrucou:

“Vinho é tinto, mas é branco também, e como é …”

Polêmicas à parte, vinhos podem ser classificados pelas suas cores: tinto, branco, rosado, laranja, ou por seus estilos: tranquilos, espumantes, fortificados ou ainda pela quantidade de açúcar residual: seco, meio seco e doce…

Enfim, denominações não faltam, mas, o que não pode faltar é boa qualidade. Todos os vinhos “icônicos” já apresentados nesta série são, neste quesito, impecáveis!

O Champagne Cristal, é mais um destes ícones incontestáveis. Tem uma curiosa história.

Em 1876, o Tzar Alexander II da Rússia procura a Maison Louis Roederer e faz um pedido muito especial: queria uma cuvée de Champagne exclusiva, só ele poderia servir ou degustar.

Impôs algumas exigências:

– A garrafa deveria ser de cristal, absolutamente transparente o que, mais tarde, daria origem ao seu nome comercial. Isto permitia que o conteúdo fosse examinado antes do consumo. Ele temia ser envenenado;

– O fundo deveria ser chato, sem aquele indentação (punt), para evitar que explosivos fossem, ali, escondidos. (parece que assassinar Tzares era uma prática bem popular na época)

A Louis Roederer começou a elaborar um champagne que se tornaria mundialmente famoso e desejado.

Mesmo com o fim da monarquia russa (1917), a Maison Roederer manteve a sua produção. A comercialização para o resto do mundo iniciou em 1945, com a marca Cristal. Um produto super premium, voltado para as classes mais abastadas.

Sua elaboração é extremamente criteriosa, sendo produzido em safras especiais, apenas. Um corte de Pinot Noir e Chardonnay que fica maturando, sobre as borras, por seis anos. Após a degola (dégorgement), ainda repousa por outros oito meses antes de ser comercializado.

O manejo dos vinhedos, todos próprios e certificados como Grand Cru e biodinâmicos (desde 2012), não emprega meios mecânicos. Cavalos são usados para lavrar a terra. A idade mínima das vinhas gira em torno de vinte e cinco anos.

A luxuosa apresentação traz mais curiosidades sobre esta formidável bebida: o rótulo dourado é uma especial distinção, reservada para champagnes extraordinários, seguindo uma antiga regra (século XIX) que associava cor à qualidade.

O invólucro de celofane dourado não é só um luxo a mais. Foi projetado para proteger o líquido da ação dos raios UV, o que as garrafas escuras fazem naturalmente.

Por conta de sua pouca produção, 300 a 400 mil garrafas por ano, seu preço é considerado como muito elevado.

Custo no Brasil: R$ 4.000,00 a R$ 7.000,00 dependendo da safra.

A Maison Roederer produz, também, um Cristal Rosé.

Quem ainda concorda que “bebida é vinho, vinho é tinto …”?

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Champagne Louis Roederer Cristal 2006 Vintage” por Fareham Wine está licenciada sob CC BY 2.0.

Alguns vinhos icônicos – Romanée-Conti

DRC ou como prefere o seu atual diretor, Aubert de Villaine, “Domaine de La Romanée-Conti”, é um vinhedo místico, na região de Vosne-Romanée, Borgonha, que produz um único vinho.

Um 100% Pinot Noir, raro, extremamente caro e considerado como o melhor da Borgonha, da França e do mundo!

Esta é a “controvérsia” mencionada na coluna da semana passada.

Afinal, qual destes vinhos é o melhor?

Não importa, a decisão será puramente subjetiva. Imaginem que, além destes, a França ainda tem mais ícones para nos oferecer.

A história do DRC começa em 1131 quando o Duque da Borgonha, Hugues II, doa as terras que resultariam neste vinhedo, para o Priorado de Saint-Vivant.

A primeira denominação foi Cros de Cloux. O nome Romanée surge em 1651, após estas terras serem vendidas pela igreja e passarem por diversas famílias. Segundo alguns relatos escritos, a mudança do nome se deve a Philippe de Croonenburg , então proprietário, talvez inspirada numa lenda sobre os romanos terem plantado videiras, naquelas terras, antes dos monges.

Em 1763, o Príncipe de Conti compra os vinhedos e passa a produzir um vinho exclusivamente para ele. Tido como uma personalidade muito arrogante, agregou o Conti ao Romanée.

Após a Revolução Francesa, os vinhedos do Príncipe foram confiscados e leiloados. Sucederam uma série de vendas e revendas. Em 1869, Jacques-Marie Duvault assume o negócio, formando um monopólio (vinhedos de único dono) com outros Grand Crus da Borgonha. A família “Villaine”, atual controladora, descende deste ramo.

A Société Civile du Domaine da La Romanée-Conti, produz 9 vinhos, 7 tintos e 2 brancos, todos com origem em vinhedos Grand Cru: Échezeaux, Grands Échezeaux, Richebourg, Romanée-St-Vivant, Romanée-Conti, La Tâche, Corton, Corton-Charlemagne (branco) e Montrachet (branco).

Todos são espetaculares.

Uma das características mais relevantes desta vinícola é o respeito pela terra e pelas tradições.

1945 foi um ano de grandes mudanças: a última safra pré-filoxera. Pouquíssimas garrafas foram produzidas, 600 apenas, o que gerou muitas falsificações.

Os vinhedos foram replantados em 1947 e a produção do vinho foi retomada em 1952.

Obtiveram a certificação de cultivo orgânico em 1985. Nenhum meio mecânico é utilizado no plantio, manutenção e colheita.

A produção atual do DRC está limitada a 6.000 garrafas que não são vendidas diretamente pela produtora, seja em unidades ou caixas. A venda mais comum (tem lista de espera …) é feita em lotes de 12 unidades de um mix de todos os vinhos produzidos. Apenas uma garrafa do Romanée-Conti é incluída neste pacote.

Preço médio no Brasil: R$ 33.000,00 (*)

(*) este é um valor estimado pelo app Vivino. A Optim, importadora deste vinho, prefere não declarar o preço. Entende que não é para qualquer um, exigindo uma série informações sobre o comprador e impondo outras tantas obrigações, entre as quais, a que não deve “revender” o vinho adquirido.

O renomado crítico inglês, Clive Coates, falecido em 2022, fez a seguinte afirmação sobre o Romanée-Conti:

“O mais raro, o mais caro e, constantemente, melhor vinho do mundo…
Este é o mais puro, aristocrático e intenso exemplo de um Pinot Noir que se possa imaginar. Não é apenas um néctar, mas uma medida, a partir da qual, todos os outros Pinot serão avaliados.”

Saúde e bons vinhos!

Alguns vinhos icônicos – Petrus

Seguindo com está série sobre os vinhos mais conhecidos, chegamos à França. Entre tantos rótulos fabulosos, o mais difícil foi selecionar alguns para escrevermos nossa pequena crônica.

Bordeaux ou Bordéus, no nosso idioma, é considerada como a capital mundial do vinho. Uma região dividida pelo rio Gironde e suas ramificações, o Dordogne e o Garrone.

O Petrus, elaborado no homônimo Chateau, vem da região de Pomerol, na margem direita. É o único produzido nesta vinícola e, curiosamente é, também, um varietal da casta Merlot, algo bem fora do padrão local.

Ninguém duvida que ele seja o melhor vinho da região, apesar dos protestos de seu maior concorrente, o não menos fabuloso Chateau Le Pin. Sendo assim, podemos afirmar que também é considerado o melhor vinho de França e, quiçá, do mundo (embora haja controvérsias).

Apesar dos vinhedos e vinícola serem muito antigos, há registros da compra das terras em 1837, a fama deste vinho começa por volta de 1945, quando Mme. Loubat, que já detinha algumas cotas da sociedade que controlava este Chateau, assume todo o negócio. A ela se junta o experiente negociante Jean-Pierre Moueix, que seria o responsável pela distribuição do vinho, em todo mundo.

Adotaram uma curiosa política de preços: o Petrus seria mais caro, ou igual, aos Grand Crus, embora não fosse classificado desta forma. Não existe uma classificação oficial para a região de Pomerol, como a regra napoleônica de 1855 ou a de St. Emilion, de 1954.

Com a morte de Mme. Loubat em 1961, Moueix compra as cotas dos herdeiros, se tornando o único proprietário. Traz o famoso Enólogo Émile Peynaud para a equipe, definitivamente.

Jean- Francois Moueix, filho de Jean-Pierre, é o atual CEO da empresa.

Deu certo! O Petrus se tornou mais que um vinho, passou a ser um símbolo de status.

Ao longo desta extensa linha do tempo, muitos nomes importantes declararam sua incondicional preferência por este vinho: Onassis, Kennedy, Parker, a Casa Real Inglesa, e muitos outros.

Duas correntes explicam a origem do nome.

Petrus, em Latim, significa apenas uma pedra ou pequena rocha. Assim é chamada uma colina, aos pés da qual, estão localizados alguns dos vinhedos do Petrus. O nome seria, apenas, uma referência a esta localização chamada de “Boutonnière Pétrus”.

A segunda explicação afirma que Petrus é São Pedro. Há diversos registros que confirmam isto. Uma estátua deste santo, na porta da vinícola, atesta esta possível versão.

Como todo vinho muito famoso, o Petrus demanda tempo, 20 a 30 anos, antes de desenvolver todo o seu potencial. Um dos bordaleses mais longevos. Tem personalidade única e não se assemelha a nenhum outro.

Muito aromático, pode apresentar uma impressionante complexidade com notas de especiarias, café, chocolate, canela, ameixa preta, cereja madura, terra úmida, trufas e flores frescas.

No palato tem textura aveludada e quase licorosa, em algumas safras.

Por ser muito visado por falsários, a vinícola mantém uma página na Internet para certificar as garrafas. Mas só para vinhos elaborados a partir de 1975.

Preço médio no Brasil: R$ 14.000,00 (safra 1994)

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto da estátua obtida em Best of Wines

Alguns vinhos icônicos – Vega Sicilia Unico

Para fechar este giro pela Península Ibérica, apresentando alguns de seus vinhos famosos, escolhemos o Vega Sicilia Unico, o mais famoso tinto da Espanha e um dos mais respeitados no mundo.

Um verdadeiro mito!

Não é para qualquer um. Sua elaboração é extremamente criteriosa e o tempo de amadurecimento ou afinamento, como preferem alguns especialistas, pode durar décadas. Somente 100.000 garrafas são produzidas a cada safra. Bem armazenadas, podem durar de 40 a 60 anos, segundo seus produtores.

Esta história começa em 1864 quando Don Eloy Lecanda y Chaves, um vinhateiro espanhol que foi treinado em Bordeaux, retorna para sua terra natal, Castela e Leão, funda sua vinícola e planta castas francesas, Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, além da Tempranillo, mais conhecida como Tinto Fino naquela região. Algumas destas vinhas produzem até hoje.

As “francesas” eram uvas atípicas para a Ribera del Duero, mas a fama do vinho começa já naquela época.

O nome escolhido para o empreendimento, Vega Sicilia, era comum em diversos documentos espanhóis muito antigos e anteriores à vinícola. Don Eloy nunca explicou as razões de sua escolha.

Entretanto, há um significado embutido:

Vega é a denominação da vegetação típica das margens do Rio Duero, o mesmo que deságua em Portugal.

Sicília, apesar de parecer a famosa ilha da Itália, refere-se à Santa Cecília, padroeira dos músicos e que batiza algumas vilas daquela região.

A empresa mudou de mãos diversas vezes, mas sempre manteve a tradição do Unico. A família Alvares é a atual proprietária, desde 1982, o mesmo ano em que a Ribera del Duero ganha sua Denominação de Origem (DO).

A vinícola foi modernizada e ampliada e novas regiões foram incluídas no portfólio. Surgem rótulos como o Alion, o Pintia, vinificado na região de Toro, o riojano Macan, uma associação com Benjamin de Rothschild, de Bordeaux e o Oremus, um dos melhores Tokaj da Hungria.

No segmento do Vega Sicilia, apenas três rótulos são produzidos: O Valbuena 5º, com menor tempo em madeira, o Unico e o Unico Reserva Especial.

O vinho é um corte de Tempranillo e Cabernet Sauvignon. Tipicamente, a proporção gira em torno de 90% para a primeira casta e 10% para a segunda. Somente elaborado em safras consideradas acima da média.

O Reserva Especial é ainda mais raro: um corte de diferentes safras do Unico, que podem ter cerca de 30 anos entre elas.

Preço médio no Brasil: R$ 7.000,00 (safra 2009)

Reserva Especial: R$ 10.000,00 (não safrado)

Numa de nossas viagens a Portugal, visitamos a mais famosa loja de vinhos de Lisboa, a Garrafeira Nacional.

Numa prateleira estavam, lado a lado, o Barca Velha e o Unico. Questionamos um vendedor, que nos deu a seguinte resposta:

“Este é o Barca Velha da Espanha” …

Bairrismo é isto.

Ressalte que nunca vimos atitude semelhante no país vizinho.

Saúde e bons vinhos!

« Older posts Newer posts »

© 2025 O Boletim do Vinho

Theme by Anders NorenUp ↑