Categoria: O mundo dos vinhos (Page 16 of 76)

Notícia da semana: derramamento de vinho

Acho que esta foto, ou similar, esteve presente nas manchetes dos jornais mundo afora. Afinal, foram derramados algo em torno de 2.2 milhões de litros de “um” vinho ou quase três milhões de garrafas. Dois tanques de armazenamento teriam se rompido. As razões ainda não foram explicadas.

Colocamos o artigo indefinido – um – entre aspas, propositadamente, para chamar a atenção: não é um vinho como aqueles que estamos habituados a consumir. Trata-se de uma vinificação específica para ser destilada, ou seja, transformada em aguardente vínica ou mesmo álcool farmacêutico.

A empresa responsável pelo vazamento foi a Destilaria Levira, situada em São Lourenço do Bairro, Anadia, região da Bairrada. Existe desde 1923, e tem uma reconhecida linha de produtos, que abrange desde diversos tipos de aguardentes, licores e produtos farmacêuticos, entre outros.

A empresa é certificada como sustentável e, rapidamente, assumiu total responsabilidade sobre o episódio. Não houve vítimas. A grande preocupação era que este volume de vinho não atingisse o Rio Certima, o que foi evitado pela rápida ação da empresa e dos órgãos de controle ambiental. O despejo foi desviado para um terreno vazio de onde foi dragado e enviado para uma estação de tratamento de resíduos.

Quem teve o maior dano foi uma residência: seu porão ficou inundado. A Destilaria assumiu todos os custos.

Curioso notar que nesta mesma semana, outra notícia do mesmo calibre chamou a atenção dos Enófilos: A França pretende transformar cerca de 300 milhões de litros de vinho em Etanol.

O consumo de vinhos naquele país teve acentuada queda e o volume que será convertido foi considerado como excedente. Há uma outra versão que está sendo muito citada: esta operação teria como principal objetivo garantir os altos preços de seus grandes vinhos.

Derramamentos de vinhos são eventos bastantes frequentes no mundo do vinho, embora nem sempre causem o impacto deste último. Aqui estão alguns que conseguimos lembrar:

Em junho deste ano, um tanque se rompeu na vinícola espanhola Vitivinos, derramando 50 mil litros de bons vinhos;

Em abril de 2016, alguns vinhateiros franceses sequestraram cinco caminhões tanques carregados de vinhos espanhóis. Abriram os tanques e desperdiçaram 68.000 litros de vinhos, em protesto pela manobra de trazer vinhos não franceses para o mercado. Aparentemente seriam usados para fraudar vinhos locais;

Em 2012, um empregado que foi demitido de uma vinícola italiana fez uma ato de sabotagem, abrindo as válvulas de esgotamento de 10 dornas de armazenamento de um Brunello di Montalcino, deixando ir para o ralo, literalmente, o equivalente a 80 mil garrafas.

Procurando podemos encontrar mais eventos semelhantes. Motivos não faltam e acidentes podem acontecer.

Mas é lamentável, sempre.

Saúde e bons vinhos!

Vegetarianismo e o vinho

Pode parecer estranho, mas o vinho não é, necessariamente, um produto estritamente vegetariano e menos ainda vegano, uma filosofia de vida que vai muito além de uma dieta isenta de alimentos de origem animal.

Embora em sua composição só existam uva e leveduras, ambos 100% vegetais, nos diversos processos de elaboração de um vinho podem ser empregados produtos de origem animal. Acreditem, a lista é grande e, em alguns casos, altamente insuspeitos.

Depois de fermentado, o mosto tem aparência muito turva com muita coisa em suspensão no líquido. São restos das cascas das uvas, algumas proteínas decorrentes da reação e resíduos das leveduras que precisam ser removidos para assegurar uma boa aparência e qualidade de aromas e sabores ao final.

Um dos produtos mais simples e antigos usados no processo de clarificação de um vinho é a clara de ovo, que não se enquadra nas regras da dieta vegetal. Além dela, mais subprodutos de origem animal podem ser usados: sangue, medula óssea, gelatina, cola e óleo de peixe, quitosana e caseína.

Todos estes produtos citados cumprem a mesma função: auxiliar na filtração e clarificação do vinho. A escolha fica a critério do produtor.

Existem alternativas que se enquadram nas regras do vegetarianismo e veganismo. A primeira e quase óbvia, é não filtrar o vinho, optando por deixá-lo em repouso por um longo tempo, decantando e sedimentando. Produtores de vinhos naturais seguem esta linha. A aparência pode não ser a mais comercial, mas o vinho está com tudo que lhe pertence dentro da garrafa.

Outra técnica emprega produtos de origem mineral como bentonita, sílica gel, caulim, calcário e de origem vegetal como algas e caseína obtida a partir de plantas. Algumas destas técnicas tem influência direta no preço final do vinho.

Para o grupo que segue a filosofia vegana, ainda há mais pontos a serem considerados. Algumas rolhas de cortiça são produzidas a partir de resíduos aglomerados com uma cola de origem animal. O encapsulamento das garrafas, se feito com cera de abelhas, é mais um item a ser observado. Os que seguem este regime de forma mais restrita se preocupam, também, com o manejo do vinhedo: nada de fertilizantes de origem animal.

Na legislação brasileira não há nenhuma obrigatoriedade de mencionar se um vinho é vegetariano ou vegano. Entretanto, muitos produtores, que já perceberam um bom potencial neste mercado, incluem estas informações em seus vinhos, seja no rótulo ou contrarrótulo.

A Sociedade Vegetariana Brasileira criou, em 2013, o “Certificado Produto Vegano SVB”, um programa de reconhecimento já adotado por boas vinícolas nacionais, que exibem o selo (foto) em seus produtos.

Lojas on line costumam colocar um marcador, ao lado da foto de cada produto, indicando se é adequado para consumo por quem segue uma destas dietas. Nas lojas presenciais, o melhor caminho é perguntar ao vendedor.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto por Lisa Davies no StockSnap

Vinhos com altas pontuações valem a pena?

Na recente viagem a Mendoza, foi possível constatar alguns fatos sobre a relação do consumidor brasileiro com o vinho.

Em linhas gerais, a nossa cultura sobre esta bebida ainda é incipiente, salvo em algumas regiões onde o vinho sempre foi parte do dia a dia. São poucos os cursos de formação de Enófilos, os mais comuns formam Sommeliers.

A mídia especializada ainda é pouca, duas publicações são marcantes, as revistas Adega e Gula. Há um bom guia de vinhos sul-americanos, o Descorchados e outro só dos nacionais, publicado pela Adega. O resto são colunistas nos principais jornais, uns bons e outros nem tanto.

Nas redes, há de tudo. É tanta informação ou desinformação que fica difícil separar o joio do trigo.

Um mecanismo bastante popular é se orientar pelas pontuações atribuídas, aos vinhos, por diferentes críticos. Esta peculiaridade ficou bastante evidente na viagem citada. Todas as vinícolas que eram constantemente premiadas estavam com suas agendas lotadas e os visitantes em busca daquele que seria o seu melhor vinho, nem sempre disponível para degustações.

São poucas garrafas e muito caras…

Já as vinícolas de pequeno porte, com vinhos requintadíssimos e difíceis de serem adquiridos nas lojas, estavam vazias, principalmente por serem quase desconhecidas do público em geral.

O marketing dos “100 pontos” é avassalador.

Avaliar um vinho não é tarefa fácil. Um crítico, para ser respeitado, precisa de muito conhecimento, paladar e olfato apuradíssimos, no mesmo nível de um perfumista e ser o mais isento possível.

Convenhamos, esta última qualidade é quase utópica. Robert Parker Jr. foi um que conseguiu deixar isto bem claro: sempre adquiriu as garrafas que iam ser degustadas, nada de aceitar remessas não solicitadas. Talvez tenha sido a chave do seu sucesso.

Ninguém o substituiu, ainda. Parker não era uma unanimidade. Seu estilo predileto de vinhos, era dirigido a um público muito específico, o consumidor norte americano. Gostava de vinhos intensos, encorpados e madeirados. Apelidaram, maldosamente, de “fruit bomb” (bomba frutada, em tradução livre).

Embora não tenha sido o inventor da escala de 100 pontos, foi quem a tonou popular. Existem outras, numéricas ou não, mas nenhuma representa melhor o ideal de um consumidor: 100 pontos é um senhor vinho!

Curiosamente, alguns aplicativos sobre vinhos, como o conhecido Vivino, estão, lentamente, mudando este quadro ao adotarem uma escala de 5 (cinco) pontos. Honestamente é mais simples e não é difícil fazer uma correlação entre as duas: 5 pts = 100 pts.

(Em passant, sempre lembro da apuração do desfile de escolas de samba aqui no Rio. De acordo com a regra vigente, a menor nota é 9 (nove) e a maior 10 (dez), valendo os décimos. Será que alguém já fez a correlação 9=0?)

Para compreender o que significa uma pontuação, não importando qual escala foi empregada, precisamos observar alguns fatores, o mais importante, é quem atribuiu a nota e qual o seu grau de comprometimento com o mercado de vinhos. Fica subentendido que os críticos locais são os que tem a maior chance de harmonizar com o nosso paladar.

Um segundo ponto, bastante interessante, mas quase sempre pouco divulgado, é como se subdivide uma escala e quais os parâmetros que são usados na hora de analisar.

Tomamos como exemplo a escala de 100 pontos.

Um crítico tem que analisar os seguintes aspectos:

– Cor, 15 pontos;

– Aroma, 25 pontos;

– Estrutura, 25 pontos;

– Qualidade como um todo, valendo 35 pontos (este item é muito subjetivo e o que agrega a maior pontuação).

Há também (como nas Escolas de Samba) limites para os menores valores, embora existam 100 pontos disponíveis:

– As melhores notas se situam entre 90 e 100 pontos;

– As notas médias estão entre 80 e 89 pontos;

– As notas aceitáveis ficam entre 70 e 79.

Fora deste escopo, notas não são mais atribuídas e nem os vinhos são recomendados.

Aqui vai o truque que ninguém explica: as diferenças são mínimas dentro destas faixas. Para o consumidor final, mesmo sendo alguém muito tarimbado, um vinho de 90 pontos é muito perto de outro com 100 pontos.

Tanto é verdade que se tornou comum classificar pela faixa de notas do que pela pontuação exata. Exemplo, “este é um vinho de mais de 90 pontos”.

Se a escala for outra, basta fazer uma correlação. Não importa se são os “bicchieri” (taças) do Gambero Rosso, as estrelinhas do Hugh Johnson ou outra simbologia, há muita qualidade nos vinhos que, por algum motivo, não obtiveram nota máxima.

Pensem nisto na próxima compra.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Imagem de Freepik

Usar gelo na taça vinho é aceitável?

Uma resposta adequada seria: “não se deve fazer isto”.

Mas o que fazer quando já existem vinhos próprios para serem resfriados com pedras de gelo, um modismo que, dizem, é coisa das novas gerações.

Na ponta do lápis, colocar gelo na sua taça é um gesto de total desrespeito ao produtor do vinho, que esperou, pacientemente, as uvas do seu parreiral amadurecerem.

Depois as colheu, selecionou, fermentou, macerou, filtrou, esperou o vinho maturar no ponto certo, engarrafou, vendeu; e você, desavisado, jogou um cubinho na taça, mudando completamente aromas e sabores. Pense nisto antes de repetir esta proeza, principalmente se for um vinho de qualidade.

Se, ainda assim, você insiste em transformar uma taça de vinho num reles coquetel, acrescentado mais coisas como gominhos disto ou daquilo, folhinhas diversas e até fatias de pepino, lamento, mas pediu a bebida errada.

Honestamente, uma Sangria não seria uma escolha perfeita? (ótimas receitas neste link: Sangria e Clericot)

Curiosamente, existem algumas razões para se colocar uma ou mais pedrinhas de gelo na nossa taça:

– Quando o vinho é ruim. Neste caso, a diluição pode ajudar a deixá-lo mais palatável. A temperatura mais baixa inibe as nossas papilas gustativas, fazendo com que taninos mais agressivos sejam menos percebidos;

– O mesmo raciocínio vale para quando o vinho está muito adocicado;

– No preparo de um Tinto de Verano, uma refrescante mistura de vinho tinto, muito gelo e água gasosa ou soda limonada;

Se de alguma forma for inevitável gelar um vinho desta forma, aqui vão outros conselhos úteis:

– Alguns vinhos brancos (Sauvignon Blanc e Riesling) e os rosados, toleram melhor o gelo;

– Use gelo fresco, feito com água mineral e recém-saído do congelador;

– Um bom truque é utilizar cubos de materiais como aço inox, pedras ou cápsulas plásticas que contenham um líquido refrigerador (etilenoglicol);

– Bagos de uva também podem ser congelados para este fim. Fica bem elegante;

Não podemos esquecer alternativas menos radicais como resfriar a garrafa ou as taças. Neste caso, deixe-as na geladeira por algumas horas antes de usá-las. Podem ser embrulhadas em papel filme, evitando odores desagradáveis.

Podemos, ainda, colocar os cubos de gelo num saquinho plástico para removê-los depois que a temperatura ficar agradável ao seu paladar …

Mas, se vocês estiverem degustando uma Moët Ice Impérial Rosé ou uma Veuve Clicquot’s Rich, o gelo é obrigatório. Foram elaboradas com este objetivo.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS

Ice-Cube-Splash” por Andrew 3457 está licenciada sob CC BY 2.0.

Uma casta, um vinho, cinco estilos

Dizia uma antiga professora:

“Quem acertar a resposta ganha um doce da Colombo”!

A casta, em questão, é a uva Palomino e o vinho, o Jerez, um dos grandes produtos da Espanha, adorado e reverenciado em todo o mundo.

Um vinho fortificado, ou seja, em algum momento de sua elaboração, aguardente vínica é acrescentada ao mosto até que a graduação alcoólica, desejada, seja atingida.

Além da Palomino, que produz os vinhos secos, outras duas uvas são utilizadas, a Moscatel e a Pedro Ximenes, para o estilo adocicado.

A ilustração mostra a Palomino, também conhecida como Bianco, no Piemonte, Fransdruif, na África do Sul, Golden Chasselas, na Califórnia, Listan, na França e algumas outras denominações, mundo afora. Embora seja originária da Andaluzia, foi plantada em diversos países.

Mas na Espanha, em Sanlúcar de Barrameda, brilha, a tal ponto, que é mais conhecida como “uva Jerez”, uma identidade que explica tudo.

O grande enigma por trás desta casta e o seu magnifico vinho está na maneira como é elaborado, até os dias atuais. Alguns registros diligentemente guardados em algumas bodegas, demonstram que desde o final do século XVIII, vinhos brancos espanhóis já eram exportados para a Inglaterra. Para que aguentassem a viagem, um processo, idêntico ao que era feito em Portugal, foi adotado: acrescentava-se aguardente.

Nascia o Jerez, Xeréz, Sherry ou Sack, como preferia Shakespeare.

O processo de elaboração é atípico. Após a primeira fermentação, aguarda-se a formação de uma “flor”, uma espécie de véu que vai cobrir todo o mosto em repouso, na barrica parcialmente cheia.

O bodegueiro faz uma prova que vai decidir o destino do vinho: pode acrescentar aguardente, buscando um mínimo de teor alcoólico de 15% e máximo em torno de 17%. Deve decidir, também, sobre o tipo de envelhecimento ou amadurecimento, que pode ser biológico (a flor continua) ou um processo oxidativo (sem a flor).

Interessante notar que são decisões extremamente pessoais. Cada produtor tem suas razões para escolher que rumos seguir. Uma das preocupações atuais, de diversas empresas, é treinar novos “provadores” para continuar a tradição. As novas gerações, aparentemente, não estão interessadas neste assunto.

Aqui estão explicados, de modo suscinto, os cinco tipos:

Fino – 15% álcool. Maturação biológica (flor) e dois anos, no mínimo, em madeira;

Manzanilla – idêntico ao Fino, mas só pode ser elaborado na região de Sanlúcar de Barrameda (D.O.). As notas aromáticas são características;

Amontillado – começa sua vida como um fino e a flor se encarrega de sua maturação até um período, quando, por decisão do produtor, a graduação alcoólica é elevada para 17%, matando o véu de leveduras. Segue-se um processo oxidativo. É um dos preferidos para harmonizar com comida. Existem algumas variações deste tipo, como o Manzanilla Amontillada ou o Amontillado del Puerto;

Oloroso – quando o mosto já demonstra qualidades acima da média, é encabeçado com aguardente até 17% ou um pouco mais, e passa por maturação oxidativa. As barricas são marcadas, primeiro com um traço (ver foto de abertura) e, se a maturação toma o rumo previsto, recebe a letra “o”, sobre ele. Um grande vinho. As barricas usadas são disputadíssimas pelos produtores de Whisky;

Palo Cortado – para muitos, o grande Jerez. Dizem que não pode ser elaborado, simplesmente, acontece. Sua origem é, até hoje, um intrigante mistério. Segundos as regulamentações, ele deve ter as notas aromáticas de um Amontillado e, no palato, ser confundido com um Oloroso.

A explicação mais aceita é que a flor, que ocorre após a primeira fermentação, desaparece de maneira natural, por conta de fatores não compreendidos. A barrica, antes marcada com um traço inclinado (palo) é cortada por outro risco, na perpendicular.

Novamente, a decisão sobre se este vinho é ou não uma raridade é 100% do vinhateiro. São elaboradas, anualmente, cerca de 100.000 garrafas. Os demais tipos chegam a 60 milhões de envases.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Fotos obtidas nos seguintes sites:

Bodegas Lustau

Wein plus

Wine Scholar Guild

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