Autor: Tuty (Page 117 of 153)

10 Anos do Camarão Magro (50 encontros!)

Meu comparsa de coluna, José Paulo Gils, é um verdadeiro homem dos mil instrumentos. Além de ser um dos diretores da ABS do Rio de Janeiro é o atual presidente da tradicional e atuante Confraria do Camarão Magro, cargo de muita importância, pois cabe a ele organizar os encontros, o que significa escolher o restaurante, discutir o cardápio, selecionar e comprar os vinhos, resumir a ficha técnica de cada um, elaborar os convites e cobrar dos participantes.
 
Esta comemoração dos 10 anos ou 50 encontros teria que ser muito especial: os confrades são exigentes e não escondem a insatisfação se tudo não estiver dentro dos padrões. É muita responsabilidade! Parte dela foi dividida comigo, embora não seja um dos confrades, quando me encarregou de escrever esta coluna comemorativa.
 
Agora, um pouco de história – texto de Trajano Viana, um dos fundadores:
 
“Ao final do Curso realizado na Associação Brasileira de Sommelliers – ABS – no Rio de Janeiro, durante a degustação de vinhos no término da aula, alguns dos participantes sugeriram fazer uma comemoração de “formatura”. Após alguma conversa, com a participação do nosso instrutor Kawasaki, foi acertado que seria um almoço. Sugeri o Restaurante Marius, em Charitas, Niterói, com frutos do mar e vinhos brancos. A sugestão foi aceita e fiquei encarregado de organizar o encontro.
Assim, após contato com o Sommelier do Restaurante e feita a reserva, na terça-feira, dia 13 de abril de 2004, às 13 horas, o pequeno grupo se reuniu, “sem hora para sair”. Estavam presentes: Aguinaldo Aldighieri, Benedito Mendonça, Carlos Cabral, Edgar Kawasaki, Rodrigo Mota, Trajano Viana e William Souza.
 
O almoço transcorria maravilhosamente, apesar do pouco conhecimento pessoal entre os participantes. A boa mesa – inesquecíveis frutos do mar, preparados à moda da casa ou conforme solicitássemos e os bons vinhos, levados pelo Rodrigo – unia o grupo.
 
Em dado momento, nosso instrutor Kawasaki, que já nos havia brindado com muitas informações, falou que o grupo estava muito bom e que poderia se reunir periodicamente, como uma confraria. O grupo se animou, surgiram vários comentários, e Kawasaki disse: “Só falta o nome para a confraria”. Nesse momento eu lidava no meu prato com uns grandes e lindos camarões ao bafo e, sem muito pensar, falei: “Confraria do Camarão Magro”!
 
Kawasaki imediatamente falou: “É um bom nome”. Eu logo argumentei que deveríamos ouvir sugestões dos outros, mas ele falou que “o primeiro nome é o que fica”. Assim nasceu a “Confraria do Camarão Magro”. Fui eleito o primeiro Presidente da Confraria e já fiquei encarregado de organizar nosso próximo encontro”.
 
 
Atualmente o Camarão Magro conta com 39 confrades, a maioria de assíduos, o que faz esta confraria ser realmente especial. Com característica itinerante, já visitaram alguns dos melhores restaurantes do Rio de Janeiro e adjacências.
 
 
Escolher bem o local para esta singular comemoração era o ponto mais sensível, nada poderia dar errado: decidiram pela Enoteca DOC que fica na Rua Marechal Floriano, 32, no centro da cidade, capitaneada pelo simpático e competente Fabio Soares.
 
Vejam o que ele e José Paulo prepararam:
 
BOAS-VINDAS
Pães Especiais e Acepipes.
 
Espumante: FRANCIACORTA LE MARCHESINE D.O.C.G. ROSÈ BRUT – MILLESIMATO (Método clássico, Chardonnay 50%, Pino Nero 50%, Teor alcoólico: 12,5%)
 
PRIMEIRO PRATO
Cherne com Arroz de Polvo.
 
Vinho Branco: ANDREZA GRAN RESERVA (Viosinho, Verdelho, Rabigato, Arinto, Pedernã, Teor Alcoólico: 14%).
 
PRATO PRINCIPAL
Ragu de Javali com Nhoque de Batata Baroa.
 
Vinho Tinto: I BALZINI BLACK LABEL (Cabernet Sauvignon, Sangiovese e Merlot, Teor alcóolico: 14%)
 
SOBREMESA
Mousse de Chocolate 70% Cacau ou Brownie de Chocolate ou Pannacotta com Caldas de Frutas Vermelhas
 
Vinho: VAN ZELLERS PORTO 10 ANOS TAWNY (Teor Alcoólico: 20%)
 
 
O violino de Evandro Marendaz animou o encontro convidando os casais para uma improvisada pista de dança, criando um clima agradável e propício para este tipo de celebração.
 
 
Ainda dentro da programação, o mestre Kawasaki comentou as harmonizações, aumentando as expectativas de todos, que foram plenamente satisfeitas.
 
 
Excelente encontro. A Confraria do Camarão Magro é um exemplo a ser seguido. Na foto abaixo alguns dos participantes desta reunião:
 
 
Alice, Ângela e Agnaldo, Anna e Daniel, Antônio Dantas, Cristina e William, Denise e Bené, Eliane e Luiz Carlos, Heloisa e José Flávio, Emília Leandro, Grace e Simioni, Liane Rangel, Lígia Peçanha, Maria e Kawasaki, Maria Ilda, Mercedes e José Paulo, Michel, Maria da Glória.
 
As fotos e legendas foram feitas por Anna Roberta e Grace.
 
Dica da Semana:  um dos excelentes vinhos servidos nesta festa.
 

I Balzini Black Label

Produtor: Azienda Agrícola I Balzani (Itália – Toscana)
Castas: Cabernet Sauvignon, Sangiovese e Merlot
Vinho de cor rubi intenso com reflexos violáceos. Possui aroma de frutas silvestres e frutas vermelhas, violeta, especiarias, baunilha, couro, café e chocolate. No paladar é seco, encorpado, muito intenso, com ótima acidez, taninos finos, final de grande complexidade e longa persistência.

Harmonização: carnes em geral, carnes de caça, massas com molhos estruturados.

Uma comemoração diferente

Nas nossas colunas sobre vinhos usamos o termo “confraria” para representar um grupo de pessoas que promovem encontros em torno do tema vinho. Mas pode ser usado para caracterizar outros grupos também. Segundo um dicionário consultado, confraria é “um conjunto de pessoas da mesma categoria, com os mesmos interesses ou com a mesma profissão”.

Uma destas confrarias tem como interesse praticar o Spinning, modalidade de ginástica realizada em cima de uma bicicleta estacionária. Frequentam a mesma academia, sediada num tradicional clube do Rio de Janeiro e gostam de comemorar os aniversários de cada participante (a maioria é feminina) em criativos e deliciosos programas, sugeridos pelo aniversariante e sempre realizados aos sábados. Contratam uma van e saem em aventuras culturais, gastronômicas ou até para cuidar da beleza. Um dos mais divertidos foi um tour, guiado por um jornalista especializado, aos mais representativos botequins da boemia carioca (foto).

Apesar da grande criatividade, à medida que acontecem os programas diminuem as possibilidades de um acontecimento fora do que é batido ou manjado, em bom “carioquês”.

Desta vez coube à minha esposa, Claudia, organizar o evento junto com Lilian, a outra aniversariante. Como todas gostam de boa gastronomia e bons vinhos, embora nenhuma delas seja exatamente uma expert, Claudia sendo a exceção, sugeriu que eu preparasse uma palestra de introdução ao mundo do vinho, que foi carinhosamente apelidada de “Um Papo sobre Vinhos”.

A aula seria complementada por um almoço harmonizado no BARSA, um dos bons restaurantes do CADEG, atual centro gastronômico do Rio, que o nosso “alegre” Prefeito decidiu renomear para “Mercado Municipal do Rio de Janeiro” (é uma organização privada), tudo para atender a um capricho da D. FIFA (o que os políticos não fazem para ganhar um troco… aliás, seria um bom slogan de campanha: “tudo por um trocado”).

Alguns contratempos inesperados exigiram alterações no programa original o que acabou sendo muito positivo. A sala do clube onde seria ministrada a aula não estava disponível na data prevista. Lilian ofereceu sua residência e nos recebeu com uma deliciosa mesa de frios, queijos e pães. Cada participante deveria levar uma garrafa de vinho, que seriam consumidas durante a aula e no almoço.

Outro fato que implicou em ajustes no programa foi o BARSA não aceitar reservas num sábado. Conseguimos, depois de intensas negociações, que, se comunicássemos, por telefone, após às 14h, a nossa partida da zona sul em direção ao CADEG, teriam uma mesa à nossa espera quando chegássemos lá, em Benfica. Isto criou um limite de tempo para a minha apresentação: não poderia passar de 1 hora e 30 minutos. Confesso, nunca tinha feito nada parecido em tão pouco tempo. Um bom curso básico é ministrado em 4 aulas pelo menos.

Teria à minha disposição uma boa TV e um tablet que poderia gerar as imagens com os tópicos que seriam abordados. Meu filho, Tomás, se encarregou de preparar os slides que ficaram, usando seu jargão predileto, “show de pelota”. A foto a seguir ilustra bem este ponto:

Munido de diversos acessórios e de algumas das garrafas de vinhos levadas que serviram para ilustrar o papo e animar o professor e as alunas, expliquei os seguintes pontos:

1 – O que é um vinho? (definição, composição química);

2 – Tipos de Vinho (brancos, tintos, etc.);

3 – Uvas Viníferas e Comuns;

4 – Corte e Varietal – Velho e Novo Mundo;

5 – Champagne x Espumante;

6 – Serviço do Vinho (abrir uma garrafa, acessórios, os 5 sentidos);

7 – Harmonização (noções clássicas e modernas, queijos e vinhos).

O grupo: Claudia, Aída, Cris, Lilian, Teresa, Denise e Carol. Álvaro e Marcelo formaram comigo o trio de maridos.

O “papo” foi muito animado, com diversas perguntas e intervenções que só enriqueceram esta aula. Programamos alguns intervalos para a turma provar as delícias oferecidas e reabastecer suas taças.

Este clima continuou no almoço, uma boa oportunidade de testar o que foi aprendido. Os pratos compartilhados foram um Arroz de Pato e o Bacalhau Rei, especialidade do Chef Marcelo Barcellos.

 
 

Agora é esperar pelo próximo convite.

Dica da Semana:  com a volta dos dias mais quentes, um bom branco.
Chablis Louis Latour


Apresenta coloração amarela com reflexos dourados e brilhantes.
O leque aromático revela notas minerais, frutas cítricas maduras e flores.
No paladar é muito saboroso, puro, vivaz, com final refrescante e persistente.
Harmoniza com ostras, crustáceos, carnes brancas, sopas e saladas.

Uma taça para cada tipo de vinho. Verdade?

Mais um mito, moderno, aceito por enófilos apaixonados. Este foi criado pelo fabricante de taças de cristal Riedel, em 1973.
Claus Riedel, em busca de aumentar o volume de vendas, desenvolveu uma linha de taças denominada Sommelier com 10 modelos diferentes, projetados de acordo com o caráter de determinados vinhos. Nascia a ideia das taças específicas. Atualmente o seu sucessor na empresa, Georg Riedel, se encarrega de manter viva esta ideia, viajando o mundo com uma interessante apresentação midiática que causa grande impacto: uma degustação feita nestas taças exclusivas. Quem já participou sai convencido que elas melhoram o vinho…
Grandes nomes endossam esta afirmação, entre eles Robert Parker: “O efeito que a taça exerce sobre um vinho fino é profundo”; ou o crítico francês Michael Bettane: “as taças de Riedel permitem que apreciemos os melhores vinhos do mundo com todas as suas nuances de aromas e sabores”.
Mas nem todo o mundo se convenceu disto e alguns grupos de pesquisadores se dedicaram a descobrir o quanto de ciência existe neste fato. O resultado não chega a ser surpreendente, mas traz o vinho de volta ao papel principal, temporariamente ocupado pela taça. A melhor síntese disto tudo esta nesta frase:
“O que importa é o vinho e não o cristal.” (o resto é puro marketing…)
Em 2004 a Gourmet Magazine publicou um artigo apresentando os resultados de pesquisas realizadas na Europa e nos Estados Unidos, sugerindo que as alegações de Riedel eram infundadas (cientificamente). Segundo a psicóloga Dra. Linda Bartoshuk, da Universidade de Yale, “O cérebro não se importa de onde está vindo o sabor que se sente na boca, e a comunidade científica sabe disto há pelo menos 30 anos”.
Duas outras pesquisadoras, Jeannine Delwiche e Marcia Pelchat, do “Monell Chemical Senses Center” realizaram um extenso trabalho que foi publicado no “Journal of Sensory Studies” (Jornal de Estudos Sensoriais – http://www.tastingscience.info/publications/Glass_shape.pdf), envolvendo quatro tipos diferentes de taças: um copo para água de formato quadrado, uma taça comum de vidro como as usadas nos restaurantes, uma taça Riedel para Chardonnay e outra para Bordeaux. 
Para reduzir qualquer influência dos formatos na pesquisa, foi criada uma estrutura de apoio, como a da foto abaixo, copiada do relatório final:
O teste era “às cegas”, cada participante recebia uma máscara opaca e as taças eram mantidas em distâncias constantes do nariz de cada voluntário. Um sistema de vórtice de baixa velocidade garantia uma suave agitação do vinho, simulando o movimento feito habitualmente ao se girar a taça.
Os resultados derrubaram a teoria de Riedel. Segundo o artigo mencionado: “Com relação à intensidade dos atributos testados não foram encontradas diferenças significativas entre as diferentes taças”. Houve um curioso resultado secundário: quando a taça para Bordeaux foi testada, os aromas foram considerados como “menos intensos”. Este resultado foi atribuído ao fato desta taça ser mais alta que as demais.
Nenhum estudo pode ser considerado como definitivo. Em 2012, num artigo publicado no New York Times, o jornalista Eric Pfanner escreveu: “Apesar de conhecer as pesquisas que questionam a validade desta tese, as taças Riedel parecem deixar o vinho melhor”.
A explicação pode estar ligada a algumas questões psicológicas, como já comentamos numa coluna anterior. (O que estamos bebendo …)
Uma boa explicação seria: “Taças de fino cristal podem tornar qualquer bebida melhor, por que são bonitas, delicadas, caras e por que temos a expectativa que vão melhorar o vinho”.
Difícil decisão!
O tema taças ou copos não tem fim. Um grupo de estudantes franceses de design, preocupados com a lenda que se deve beber um copo de água para cada copo de vinho degustado, desenvolveu um curioso conjunto de taça/copo encaixados, como na foto:
Engenhoso, pode ser segurado com uma única mão, facilitando o consumo de um ou outro. A pegadinha fica por conta da conhecida lenda que afirma que proporção de água mencionada manteria a hidratação do corpo diminuindo os efeitos da ressaca.
Não é bem assim. No livro “Proof: Science of Booze”, literalmente “Prova: Ciência da Birita”, o autor Adam Rogers explica que nenhuma pesquisa acadêmica sobre a ressaca conseguiu demonstrar que a desidratação ou níveis baixos de eletrólitos seriam a causa deste desagradável mal-estar.
Este inovador conjunto ainda não é o remédio miraculoso.
Dica da Semana:  vamos para o Alentejo, sem ressacas e com a taça certa…
Cortes de Cima
Um corte de Aragonez, Syrah e Trincadeira que estagiou por 12 meses em barricas de carvalho francês.
Apresenta aroma de frutos maduros e notas florais bem integradas, eucalipto e noz moscada.
No palato tem bom corpo, é macio, cheio e redondo, rico em fruto e sabores de chocolate e carvalho, bem equilibrado com taninos maduros.

Tanques ovais na elaboração de vinhos

Um dos aspectos que mais chamou a atenção nas vinícolas visitadas durante a recente viagem foi observar o emprego dos tanques ovais construídos em concreto. Não é exatamente uma tecnologia nova, as notícias sobre a existência destes tanques datam de 2001, quando apareceu o primeiro deles na vinícola de Michel Chapoutier no Vale do Rhône. Seu proprietário discutiu exaustivamente este formato com a empresa Marc Nomblot que fornece tanques em concreto, para vinificação, desde 1922.
 
A novidade, aparentemente, seria o formato oval, mas nem isto se mostrou verdadeiro. Segundo o fabricante, as ânforas romanas inspiraram o curioso formato. A foto a seguir mostra, lado a lado, modernos tanques tipo ânfora e os ovais.
 
 
Como diria o Velho Guerreiro, “Nada se cria, tudo se copia”…
 
Concreto é uma mistura de cimento e agregados (areia, brita, etc.) e tem sido usado na fabricação de tanques há bastante tempo. Existe, até hoje, uma clara divisão entre os que preferem este material e os adeptos do aço inoxidável para os tanques de fermentação. O aço é conhecido por ser neutro e não alterar as características do mosto. O concreto precisa ser tratado para obter o mesmo grau isolamento, o mais conhecido é aplicar um revestimento com resina sintética (epóxi, poliuretano, etc.).
 
O tanque oval foi projetado para aproveitar uma característica particular do concreto, sua porosidade, que o aproxima das barricas de carvalho. Por que não tentar elaborar um vinho num único recipiente que possa fermentar e amadurecer o vinho?
 
Vinhos brancos seriam os candidatos perfeitos para este tipo de tanque, mas logo perceberam que poderia ser usado, incialmente, para a maturação dos tintos também. Alguns produtores já experimentam com a fermentação, com bons resultados.
 
Para permitir uma avaliação deste processo, estão relacionados, a seguir, alguns tópicos interessantes.
 
1 – Na construção destes tanques não pode ser usado nenhum material metálico e nem aditivos químicos. Somente areia, brita, água não clorada e cimento. Excetuam-se as portas de carga e descarga, feitas em aço inoxidável.
 
 
2 – Para garantir a neutralidade da parede interna, esta deve ser tratada com uma solução de ácido tartárico antes do 1º uso. Muitos produtores estão conseguindo este efeito através de uma vinificação inicial que será descartada: forma-se uma camada de tartarato, subproduto do processo, isolando o concreto.
 
3 – O isolamento térmico é outra característica que torna o ovo vantajoso. As paredes são muito espessas permitindo resistir tanto ao frio quanto ao calor. Isto diminui sensivelmente a necessidade de controles de temperatura. Entretanto, já existem fabricantes que oferecem este recurso opcionalmente.
 
 
4 – Existe, efetivamente, uma diferença de temperatura entre a base do tanque e o topo que em combinação com ausência de cantos morto, cria um fluxo líquido contínuo, o que é desejável.
 
5 – A porosidade do material permite uma efetiva micro-oxigenação nos mesmo moldes da obtida com a utilização de carvalho, sem a introdução de novos aromas e sabores.
 
6 – Permite a maturação dos tintos sobre suas borras, o fluxo contínuo do líquido elimina a necessidade da “bâtonnage” (agitação manual recolocando as borras em suspensão).
 
Nas conversas com enólogos e produtores que estão experimentando o “ovo” foi possível perceber que os resultados iniciais foram animadores, tanto para brancos como para tintos. Mas o caminho será longo, são novas variáveis para serem controladas. Mas este é o verdadeiro trabalho de um enólogo: inovar.

Dica da Semana:  para tirar conclusões.
 
Zorzal EGGO Blend 2012
 
Um vinho que é um luxo do enólogo: desde o inicio ele nunca revelou o que pretendia obter ou o que representaria. Puro zêlo, puro ego: um produto onde o vinificador empenhou sua alma, 100% vinificado no “ovo”. (Egg, em inglês significa ovo)
Este corte de 92% Malbec, 5% Cabernet Franc e 3% Cabernet Sauvignon possui grande característica mineral. Estagiou em grandes ovos de concreto, atingindo um potencial natural sem precedentes.
Com ótima estrutura e volume em boca, apresenta textura cremosa, taninos macios, acidez vibrante que proporciona frescor.
Conquistou 96 pontos no guia Descorchados e 94 pontos por Robert Parker

Mendoza 2014 – Epílogo

Muita coisa divertida acontece numa viagem como a que relatamos nas três colunas anteriores. O grupo era muito unido proporcionando bons momentos durante os deslocamentos ou nas visitas às lojas de vinho da cidade de Mendoza. Vamos contar alguns destes “causos”…
 
1 – Os grandes vinhos provados
 
Houve, sem dúvida, um vinho que foi escolhido como o melhor de todos. Esta honraria foi concedida, por unanimidade, ao Paradigma elaborado no Domaine St. Diego pelo enólogo Angel Mendoza, que também foi eleita como a “melhor visita”. O problema foi que qualquer outro vinho provado depois deste ficou em segundo plano…
 
Para permitir uma avaliação, destacamos os seguintes vinhos degustados:
 
Bodega Sinfin Guarda de Família – 93 pontos Descorchados
 
 
Bodega Melipal Nazarenas Vineyard Malbec – 93 pontos Wine Enthusiast
 
 
Dominio del Plata Brioso – 93 pontos Descorchados (mesma pontuação do Bem Marco Expressivo)
 
 
Ainda de acordo com o Guia Descorchados o campeão Paradigma recebeu 94 pontos. Outro grande vinho provado, o Mariflor Camille de Michel Roland ainda não foi cotado por nenhum crítico. O Malbec Gran Reserva da Dolium, cotado com 92 pontos por Robert Parker, foi o que menos nos impressionou.
 
Se a St. Diego não tivesse sido a 1ª visita do dia este resultado poderia ser outro. Estratégias a serem pensadas na próxima viagem…
 
2 – Quase uma debandada
 
Estávamos a caminho da última visita do dia onde seria o nosso almoço. Atrasados, como de hábito, pois a cada vinícola multiplicavam-se os interesses, o nosso simpático motorista se perdeu e resolveu fazer uma paradinha para perguntar qual seria o melhor caminho até nosso destino. Vejam onde ele resolveu parar:
 
(jamon crudo = presunto crú)
 
O que vocês estão vendo sobre o balcão do reboque é um enorme filão de pão caseiro com uma aparência estupenda. Some a nossa fome e…
 
Pena que não deu tempo de provar, mas ficou anotado para uma visita futura. A foto é do Fábio.
 
3 – Final de tarde na cidade
 
No mesmo quarteirão de nosso hotel, bastando virar a esquina, estava localizada uma das melhores lojas de vinho de Mendoza, a Sol y Vino. Muito sofisticada é mais que uma simples loja de bebidas incluindo no seu leque de produtos itens como conservas, chás, objetos de decoração, etc. Ao contrário do nosso país, onde vinho é considerado um artigo de luxo e taxado de acordo, na Argentina faz parte da cesta básica, é um alimento! A seguir uma foto do salão principal para os leitores avaliarem.
 
 
Toda noite havia um evento, aberto, com vinícolas boutiques, degustação de novos produtos ou até mesmo eventos privados como o que fizemos. O grupo resolveu degustar um dos meus vinhos favoritos, o Lagrima Canela da vinícola Bréssia, um excelente corte branco de Chardonay e Semillon escolhido pelo Guia Descorchados como o melhor em sua categoria, recebendo 94 pontos.
 
 
Outros vinhos foram provados e várias compras efetuadas: os preços eram ótimos. Não existe nada parecido por aqui, pena… (foto do Marcio)
 
4 – As opiniões de cada um
 
Pedi aos companheiros de viagem que resumissem os melhores momentos: reproduzo a seguir alguns comentários:
 
“Para mim, os harmonizados, todos, foram o alto da viagem. Excepcionais. A qualidade dos pratos aliada à perfeita harmonização dos vinhos, em ambiente extremamente agradável e exclusivo superou todas as expectativas.
 
A visita ao Angel Mendoza foi também legal, especialmente pela qualidade dos vinhos.
 
A visita à Dolium me pareceu o ponto baixo. Não era bonita e o vinho não era bom. A Sin Fin, ao menos, tem belíssimas instalações”.
 
Fábio
 
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“Concordo com o Fábio, as harmonizações foram o forte: na Melipal, onde a carne estava deliciosa; na Suzana Balbo o lugar é fantástico. A vinícola do Angél Mendonça é realmente especial.
 
Toda viagem foi muito bem balanceada entre lugares arquitetônicos e produção artesanal”.
 
Gustavo
 
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“Nossa viagem foi recheada de momentos especiais, vou destacar alguns:
 
– Parada em Buenos Aires com almoço relâmpago no Sucre. No retorno, o Ronald resolveu encarnar no taxista que, vendo o grupo de trás rindo aos borbotões, não deixou barato. Os dois, trocando farpas em espanhol, protagonizaram uma cena hilária, impagável!
 
– Jantar no restaurante Ana Bistrô. Tive a sorte ao escolher um cordeiro fantástico, o melhor prato da viagem.
 
 
– Ponto alto da viagem foi a visita ao Domaine St. Diego, local belíssimo e os melhores vinhos da viagem. Considero este vinho (Paradigma) o melhor da viagem, deveria ter comprado mais.
 
– Gostei muito da loja de vinhos próxima ao nosso hotel, infelizmente não temos algo parecido por aqui, até porque os preços assustam e o vinho ainda é encarado como algo elitizado, uma pena.
 
– Por fim, não posso deixar de destacar a nossa visita a Susana Balbo. O local é muito bonito, bons vinhos e comida excelente, melhor harmonizado da viagem”. 
 
(Lobianco, Ronald, Márcio e Fábio)
Márcio
 
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Ronald preferiu dividir com todos os leitores alguns instantâneos especiais. Segundo suas palavras, “pura diversão”:
 
(Borrachera = Bebedeira)
5 – as “últimas” garrafas
 
Numa das minhas visitas anteriores provei um vinho chamado Oportuno, uma das muitas aproximações a um Vinho do Porto (o nome é uma referência) produzido em Mendoza. Ficou na memória e sempre o mencionava quanto o assunto era harmonizar sobremesas.
 
Fiquei todo animado pois visitaríamos a vinícola que o produzia (Domaine St. Diego) e comecei a tecer loas a respeito dele. Todos se interessaram, especialmente o Ronald, apreciador deste tipo de vinho. Para aumentar as nossas expectativas, lá estava ele na carta de vinhos do Ana Bistró, no nosso jantar de boas vindas a Mendoza. Nem pedimos, queríamos provar na fonte!
 
Mal sabíamos que não era mais produzido. Foi aquele banho de água fria. As uvas originalmente destinadas ao Oportuno são usadas atualmente para o Pura Sangre Nueve Lunas.
 
Inconformado, pedi ajuda a nossa guia para saber se o Ana Bistró me venderia uma garrafa. María José descobriu que restavam apenas duas na adega do restaurante e as arrematou, me presenteando com elas.
 
Para não deixar de cumprir a minha promessa, repeti a gentileza entregando uma garrafa para o Ronald.
 
Provavelmente as últimas deste raro vinho que deixou de ser produzido há quatro anos.
 
 
Houve outro episódio semelhante. Tínhamos uma encomenda de um licor Triple Sec (à base de laranja), produzido por uma destilaria mendocina, a Tapaus, localizada do outro lado da rua em frente à Domaine St. Diego. Seria uma compra fácil, era só atravessar a rua…
 
Não foi bem assim! A destilaria não existe mais, os sócios se desentenderam, venderam todos os equipamentos e o antigo prédio está sendo convertido para uma olivícola e um restaurante. Outra ducha fria…
 
Lembramo-nos de uma lojinha, em Mendoza, que há muito tempo atrás vendia os produtos desta finada empresa e fomos até lá. Encontramos uma única garrafa à venda. Segundo a vendedora, a última…
 
 
6 – A esticada em Buenos Aires
 
A capital da Argentina tem outros encantos bem diferentes da “capital do vinho”. Sempre vale a pena passar alguns dias desfrutando das boas tradições Portenhas. Não tínhamos uma programação definida como em Mendoza, apenas alguns desejos e uma boa lista de encomendas, inclusive de vinhos.
 
Os que viajaram para o Rio no próprio domingo compraram seus vinhos nas vinícolas, nas lojas da cidade ou no free shop do aeroporto. Como só retornaríamos no meio da semana, não tinha sentido chegar a Buenos Aires com as malas cheias. Aproveitamos para garimpar em lojas que não conhecíamos. Tivemos boas surpresas.
 
A primeira delas foi a Alma Terra, localizada em Palermo Soho (Thames 1653 – https://es-es.facebook.com/pages/Alma-Terra/198966506860063), uma “Wine Boutique and Organic Delicatessen”.
 
 
Sua proprietária, a simpática Tamara Evans, tem a preocupação de manter um leque de produtos muito interessantes que mistura o que ela classifica como “os mais procurados” e algumas garrafas especiais para os enófilos em busca de vinhos mais exóticos. Boas compras por lá.
 
A outra descoberta foi ao acaso. Uma das encomendas da nossa lista era o Linda Flor Chardonnay, geralmente uma compra fácil na Tonel Privado ou na Winery, duas lojas tradicionais. Estava em falta o que nos obrigou a pesquisar em outros estabelecimentos. Já estávamos quase desistindo quando descobrimos, ao lado de nosso hotel, uma loja de artigos de couro e vinhos, a Alpataco (Quintana 450 – www.alpatacoweb.com.ar), onde fomos muito bem atendidos e encontramos o que buscávamos. Aproveitei e fiz mais umas comprinhas… Duas novas descobertas que vão entrar na nossa lista de recomendações.
 
Mais dois destaques, desta vez puro entretenimento:
 
– na 2ª feira saímos em busca de um show de música folclórica que acontecem nas Peñas, misto de restaurante e casa de show. Neste dia, só havia na La Peña del Colorado (http://www.lapeniadelcolorado.com/) oferecendo um espetáculo “Afro-Peruano”. Sem ter bem certeza do que se tratava, lá fomos nós 4 atrás de boa diversão. Valeu a pena! Apesar do vinho…
 
Ambiente rústico e familiar, cardápio típico, boa música e uma minúscula carta de vinhos quase desconhecidos. Para não arriscar, optamos por um Malbec Penedo Borges, que depois de todos os bons vinhos provados em Mendoza nos pareceu fora de contexto. Para acompanhar, empanadas (deliciosas) e Choripan (pão com linguiça).
 
Divertimo-nos muito. “Afro-Peruano” provou ser uma série de boleros e uma pitada de salsa (pista de dança aberta), muito bem interpretados pelo grupo musical que absorvia todos os músicos que apareciam por ali, com especial ênfase nos que tocavam o “cajon peruano”, uma caixa de madeira que se encarregava da percussão. Excelente. Vamos voltar lá sem dúvida.
 
 
– Para não perder o ritmo de Mendoza continuamos nossa maratona enogastronômica. Um dos destaques foi um restaurante que reabriu, em novo endereço, agraciado com o título de “melhor cozinha de Buenos Aires – 2013”, o Freud & Fahler (Cabrera y Godoy Cruz – Palermo). Como era hora do almoço, optamos pelo menu executivo da casa, 180 pesos (R$ 36,00) com entrada, prato principal, sobremesa e 1 taça de vinho. Dentre as várias opções escolhemos saladas, carne e massa, escoltados por um bom Chardonnay patagônico (o nome se perdeu em minha anotações).
 
O restaurante é bem simples e confortável. A base é uma padaria, a cesta de pães oferecidas como couvert era de comer rezando. A tudo estava delicioso e as porções eram mais que suficientes. Muito bom, na próxima visita vamos para o jantar que tem um cardápio muito elaborado. 
 
 
Na manhã seguinte partimos de volta ao Rio de Janeiro, já sonhando com a próxima viagem. Estamos pensando seriamente em inaugurar o “Boletim Eno Tours”, muita gente interessada.
 
Cartas para a redação!
 
Dica da Semana:  para não fugir do tema, mais um bom argentino, desta vez branco.

 
Crios Chardonnay 2012
 
Vinho muito versátil que apresenta aromas de frutas brancas maduras, abacaxi e maçã, notas de baunilha.
 Paladar frutado, refrescante, com bom corpo e estrutura.
 Harmonização: peixe assado com tomilho e alecrim, espaguete com molho cremoso de queijo, salada de bacalhau, torta de palmito, quiche de alho poro, moqueca, bolinho de arroz.
 88 pontos no Guia Descorchados
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