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Vinhos oxidativos e vinhos oxidados

Uma qualidade e um defeito, ambos relacionados com a presença de oxigênio durante o processo de vinificação.

Os vinhos oxidativos são deliberadamente expostos ao oxigênio em busca de um resultado diferente do que se obtém nos processos convencionais. Já um vinho oxidado é um vinho que estragou por superexposição ao oxigênio, seja por defeito em alguma etapa do processo ou mesmo depois de engarrafado, por exemplo, por culpa de uma rolha de má qualidade.

Alguns vinhos oxidativos são famosos e muito especiais: Madeira, Jerez e o “Vin Jaune” da região do Jura, na França.

Cada um destes vinhos, embora pertencentes a uma mesma categoria, usam diferentes técnicas para atingir seus estilos peculiares: aromas mais intensos, paladar marcante, cor mais escura e opaca, notas de maçãs muito maduras, avelãs e uva passa.

A elaboração tradicional do vinho Madeira pode parecer um ato de loucura para os menos avisados: os barriletes contendo o precioso líquido são deixados ao efeito de sol e chuva. As vinícolas mais modernas adotaram um sistema de estufas, onde tudo é controlado para obter o mesmo efeito. Para saber um pouco mais, cliquem aqui: Madeira

O Jerez é elaborado segundo um sofisticado sistema denominado Solera. Vejam, na foto a seguir, a estrutura que está ao fundo:

O vinho mais novo é depositado no barrilete mais alto enquanto o vinho considerado pronto é retirado da parte mais baixa. Cada barrica destas está parcialmente cheia e protegida por um “veu” que vai controlar a oxidação da bebida na medida certa. Saibam mais clicando aqui: Jerez

O “Vin Jaune”, do Jura, que podemos traduzir como “vinho amarelado”, também passa por um período de oxidação controlada: as barricas de amadurecimento não são completadas ao longo do período de seis anos, permitindo, como no Jerez, a formação de um “véu”. Tipicamente são perdidos cerca de 40% do volume neste estágio, o “angels share” ou a parte dos anjos.

Existem outros vinhos oxidativos. Um que está sendo revivido, com muito sucesso é o “vinho de talha”. Se a fermentação for “aberta” o resultado é oxidativo. O mais famoso vinho doce, da Itália, o “Vin Santo” também se inclui neste estilo.

Quando outros fatores entram em ação e ocorre uma exagerada de exposição ao oxigênio temos um vinho oxidado, estragado, impróprio para o consumo. Lado a lado ambos têm aparência semelhante, mas no aroma e paladar são diametralmente opostos.

A oxidação é irreversível, este vinho não serve para mais nada. Entretanto, alguns poucos especialistas acreditam num mito: colocar uma moeda de cobre, extremamente limpa, no fundo da taça e verter o líquido. Agitar suavemente até os aromas desagradáveis desaparecerem…

Há uma explicação, o cobre reagiria com os compostos sulfurosos decorrentes da oxidação, mascarando os aromas (eu não arriscaria).

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto de abertura por Andrew Ian Halloway no Pixabay

Solera por Derek Law

Na vitória e na derrota

Um dos mitos mais conhecidos no universo dos vinhos é uma frase de Napoleão Bonaparte se referindo ao Champagne, bebida que, segundo muitos historiadores, era sempre transportada para as suas batalhas:

“Na vitória eu mereço, na derrota eu preciso!”

Esta é uma de muitas traduções ou adaptações desta máxima, pronunciada em francês, obviamente.

Winston Churchill, famoso Primeiro-ministro inglês durante a Segunda Guerra, também é citado como tendo usado a mesma frase, provavelmente inspirada pelos feitos do conhecido Imperador francês:

“I could not live without Champagne. In victory I deserve it. In defeat I need it.” Winston Churchill, 1946 (Eu não poderia viver sem o Champagne. Na vitória …)

Seguindo nesta mesma linha, Lily Bollinger, uma das famosas “viúvas de Champagne” que comandou a Casa Bollinger por 30 anos, sempre dizia:

“Só bebo Champagne quando estou feliz ou quando estou triste”

Coco Channel, um dos grandes nomes da moda feminina, também tinha sua frase predileta:

“Só bebo Champagne em duas ocasiões: quando estou amando e quando não estou”.

Vinhos espumantes sempre estão associados às celebrações ou, como demonstraram as personalidades citadas, são degustados na alegria e na tristeza, na doença e na saúde, quando o nosso time perde ou ganha.

O monge Dom Perignon, a quem se atribui a descoberta desta deliciosa bebida, não se conteve e gritou para seus companheiros:
“Venham correndo, estou bebendo as estrelas!”

Existem mais curiosidades sobre esta extraordinária bebida do que o espaço desta página. Uma que vale a pena registrar, era a forma como Napoleão abria sua garrafas: com seu sabre, degolando o gargalo e sem sair de seu cavalo.

Churchill, que foi um grande apreciador deste vinho espumante, teria consumido cerca de 42.000 garrafas, segundo seus biógrafos. Até hoje existe a “Cuvée Sir Winston Churchill”, elaborada pela Maison Pol Roger, em sua homenagem.

Napoleão foi derrotado na conhecida batalha de Waterloo, pelo Duque de Wellington. A história relata que as tropas francesas haviam esquecido o Champagne. Foi exilado na ilha de Santa Helena, onde lhe foi permitido manter uma considerável adega. Mas, seu vinho predileto passou a ser o sul africano “Vin de Constance”, um fortificado. Napoleão tomava um cálice diariamente, até sua morte em 1821. Foi um grande consolador da sua derrocada.

Pensando nisto tudo, que tal na próxima vez que fizermos um brinde nos lembrarmos de alguns destes fatos?

Não importa a sua turma: da tubaína, da pinga ou a dos vinhos.

O importante é compreender como outros heróis, do passado, se comportaram em suas vitórias e em sua derrotas. Sempre com elegância e alguma ironia.

Os vinhos, como qualquer outra bebida alcoólica, foram criados pelos humanos. Se consumidos com responsabilidade e no momento certo, vão trazer enorme alegria para os vitoriosos e grandes esperanças para os que não tiveram sucesso.

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS

Imagem de abertura por freepic.diller no Freepik

Sabragem: “Sabrage@Preuillac – avant” por epeigne37, licenciada sob CC BY-NC-ND 2.0.

Esquisitices do mundo do vinho

Quem chamou a atenção para este tema foi um amigo e eventual colaborador, Pedro Arthur Sant’Anna: enviou um destes vídeos que correm na internet, mostrando como sacar a rolha de uma garrafa esquentando o gargalo.

Do ponto de vista da física, tudo deveria funcionar: o ar é aquecido, expande e expulsa a rolha.

Mas há limites, o que torna esta prática um tanto arriscada. Muita coisa pode dar errada, por exemplo, quebrar a garrafa ou mesmo esquentar demais o vinho e estragá-lo. Agora imaginem fazer isto num vinho de 1ª linha.

Existem outras técnicas incomuns para se conseguir o mesmo objetivo, coisas como usar parafusos e chaves de fenda, empurrar a rolha para dentro ou, acreditem, bater com o fundo da garrafa numa parede, apoiado no calcanhar de um sapato, até que o “vinho” empurre a rolha para fora. Será que o que ficou na garrafa ainda pode ser bebido depois de tanta agitação?

O mais seguro é ter um saca rolha sempre à mão!

Enófilos muito chiques e hábeis, amantes de bons espumantes, gostam de se exibir degolando a garrafa com um sabre ou algo semelhante. Novamente, ou estamos bastante treinados nesta arte ou o improvável vai se fazer presente. Por favor, não tentem isto em casa…

Existe uma outra técnica, igualmente arriscada, muito usada nas caves de Vinho do Porto, para degolar garrafas muito antigas. Neste caso, qualquer tentativa de tirar uma rolha centenária poderia ser um desastre ainda maior.

Uma tenaz específica para este fim é aquecida em brasa e, em seguida, aplicada no gargalo. O vidro trinca, liberando o preciosos líquido.

Há mais coisas pitorescas no mundo do vinho que podemos incluir nesta lista, entre elas, a “hiper decantação” ou se preferirem, a “hiper aeração”: consiste em bater o vinho num liquidificador, por uns poucos segundos. Esta curiosa ideia surgiu no livro “Modernist Cuisine” de Nathan Myhrvold, um antigo chefe de tecnologia da Microsoft que abandonou tudo pela arte de cozinhar…

Aqui só cabe um comentário: não se deve misturar alta tecnologia com vinho. Simplifiquem!

Outra novidade que pode parecer estranha, mas tem uma certa lógica, são os vinhos que envelhecem submersos, isto mesmo, embaixo d’água, seja em lagos, rios ou nos oceanos. Existe uma certa tendência aqui. Tudo começa com a descoberta do naufrágio de um antigo cargueiro com milhares de garrafas de, até onde se sabe, um ótimo vinho. Estavam naufragadas por um par de décadas, pelo menos. Quem provou achou tudo maravilhoso. Por alguma razão o vinho não teria sido contaminado com água salgada.

Pronto, foi a senha para vários vinhateiros tentarem a sorte com algo semelhante, afinal, uma boa cave de amadurecimento fica no subsolo e a baixa temperatura. Tudo a ver. Parece mais um bom marketing do que técnica de elaboração.

Os barris de carvalho, onde vinhos são produzidos ou envelhecidos é a mais nova fonte destas incomuns experiências. Após terminarem seu ciclo útil nas vinícolas, são disputadíssimos por fabricantes de destilados para “acrescentar mais uma camada de sabor” aos seus produtos. Até produtores de café estão usando barricas antigas para dar novos aromas e sabores para uma das bebidas mais populares do mundo.

Existem destilados que sempre usaram barris de carvalho, o Whisky e o Bourbon são dois deles. Alguns produtores de vinhos resolveram inverter o ciclo: já que usam os nosso tonéis, por que não usar os deles?

Surge o vinho envelhecido em tonel de Bourbon, de Rum…

Tem empresas do porte da californiana Robert Mondavi apostando nesta novidade.

Seguindo nesta linha, não é exatamente uma novidade voltar a usar recipientes de barro, as ânforas, para produzir ou amadurecer vinhos. Para muita gente parece algo estranho, um passo para trás.

Estas técnicas ficaram esquecidas, substituídas por modernas tecnologias que permitem um total controle na vinificação. Felizmente sempre tem algum abnegado disposto a reviver antigas metodologias. Neste caso foi surpreendente, diversos produtores tradicionais voltaram a empregar este método com muito sucesso. Novos e velhos ceramistas estão reaprendendo a fazer ânforas, “qvevris” e assemelhados. Parece que veio para ficar.

Os poucos vinhos que já provamos, dentro deste estilo, eram bem diferentes do que estamos habituados.

O emprego de madeira na elaboração de um vinho, para diversos fins, sempre despertou alguma curiosidade. Vão desde tanques de fermentação, armazenamento, envelhecimento e transporte. Muito versátil.

O vinho é uma bebida milenar e vem sendo produzida, basicamente, da mesma forma desde então. Nunca lembramos, por outro lado, de um pequeno detalhe: onde produzir, em que recipientes?

Estudos arqueológicos têm mostrado que lagares de pedra e os potes de barro, não cozidos, sempre foram usados para este fim. Em Portugal e na Geórgia ainda vinificam assim. O uso de madeira é quase tão antigo. Não só era capaz de produzir um tonel razoavelmente impermeável, como era um isolante térmico o que ajudava a conservar o vinho em seu transporte. Na Grécia há um estilo de vinho, muito apreciado até hoje, que combina sabores de madeira e da resina de pinho que era usada para selar as barricas. Chama-se “Retsina”.

Usar só Carvalho veio com o tempo. Antes dele, outras madeiras foram empregadas. Ainda hoje buscam-se alternativas, afinal, não existem florestas de carvalho “infinitas”. Aqui no Brasil, uma vinícola artesanal já produz vinho em barricas que misturam madeiras brasileiras, emprestando um pouco da filosofia de trabalho dos alambiques nacionais que envelhecem suas pingas em amburana, bálsamo, jequitibá rosa, entre outras.

Devem existir mais coisas que soam estranhas no mundo dos vinhos. Um velho provérbio diz: “a diversidade é o tempero da vida”. Degustar bons vinhos vai ao encontro deste adágio.

Há tantos caminhos a seguir que pode tornar nossas escolhas meio complicadas, às vezes. Então, se o vinho não lhe agradou, use-o para temperar a carne ou a salada e abra outra garrafa.

Meio que “se lhe deram limões, faça uma limonada”!

Saúde e bons vinhos!

CRÉDITOS:

Foto de abertura por Maksim Goncharenok

Sacando a rolha, obtida no “The Telegraph

Sabragem, obtida no site “Wine News

Tenaz, obtida no “Mercado Livre

Links para alguns dos métodos mencionados:

Uso da tenaz

Sacando a rolha 1

Sacando a rolha 2

Hiper decantação

Sabrando um espumante

Vinhos do velho e do novo mundo

Este tema é uma questão fundamental para aqueles que realmente desejam compreender o mundo dos vinhos. Uma simples divisão entre dois continentes, inicialmente, que mais tarde foi ampliada para outras regiões, formou legiões de apreciadores e/ou detratores de um estilo “europeu”, caracterizado pelo “corte bordalês”, ou de um estilo “americano”, caracterizado pelos vinhos varietais.

No final das contas, todos são vinhos, foram elaborados a partir das mesmas castas e, em alguns casos, vinificados pelas mesmas pessoas. Muda, apenas, o endereço ou, no nosso jargão, o terroir. Ainda assim, não é explicação suficiente, dúvidas persistem, algumas muito diretas como “este vinho é melhor que o outro” que, na verdade, se resume a uma questão de gosto pessoal.

Um ponto muito importante nesta discussão é compreender as diferenças entre as diversas normas de elaboração dos vinhos em cada país produtor. Saber ler e interpretar um rótulo é a chave para esclarecer muitas destas dúvidas.

Na França, os vinhos são comercializados enfatizando em seus rótulos as regiões produtoras. As castas utilizadas nem sempre são citadas, cabendo ao consumidor saber, por exemplo, que um Pouilly-Fuissé é um Chardonnay da Borgonha, enquanto um Pouilly-Fumé é um Sauvignon Blanc do Vale do Loire.

Neste link da Wikipedia, há uma extensa lista, em inglês, das regiões que podem aparecer nos rótulos dos vinhos franceses. Ainda assim, é necessário um conhecimento mais detalhado para alguns casos. Bordeaux é o melhor exemplo: são várias sub-regiões, as mais famosas estão nas margens esquerda e direita do rio Garonne. São terroirs bem característicos distribuídos ao longo delas. No caso dos tintos, cada Chateau tem seu corte próprio com as conhecidas castas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Malbec e, eventualmente, Carménère. Nada mais é permitido!

Em 1976, um evento ocorrido em Paris chamou a atenção para os vinhos elaborados na Norte América, até então pouco conhecidos na Europa. O chamado “Julgamento de Paris” foi uma belíssima degustação comparativa entre vinhos dos dois países, com um amplo domínio dos americanos, que se apresentavam de forma direta, sem rodeios: nos rótulos estavam destacadas as castas utilizadas, quase sempre, uma só. Um dos vencedores foi o Chardonnay do Chateau Montelena. Vejam a foto a seguir:

Novamente, as normas de elaboração de vinhos têm papel preponderante no que pode ou deve aparecer nos rótulos. Atualmente, nos EUA, basta que o vinho tenha 75% de uma casta dominante para ser considerado um “varietal” …

Fica fácil entender a razão dos atuais vinhos 100% de uma só casta.

São dois estilos de vinhos muito mais calcados no binômio clima e terreno do que em simplificações como cortes e varietais. Em ambos os continentes, os consumidores se cansaram das tipicidades tradicionais ou dos altos preços de alguns vinhos icônicos. Nas Américas, os cortes estão ficando mais populares, com misturas muito inovadoras que cruzam diversas influências. Na Europa, principalmente na França, os caríssimos vinhos bordaleses e similares vão ganhando novos companheiros, menos sisudos e mais palatáveis no bolso. Até mesmo a rígida regra das “castas permitidas” aqui e acolá está sendo dobrada.

Antigos e tradicionais países produtores no Velho Continente, que caíram no ostracismo, estão sendo redescobertos trazendo de volta alguns prazeres quase esquecidos. São antigas uvas dadas como extintas, técnicas de produção milenares que estavam abandonadas que, agora, estão sendo atualizadas e novas formas de embalar e de consumir a nossa bebida favorita.

No Novo Mundo, as inovações que sempre caracterizaram o estilo de vinhos continuam evoluindo, não esquecendo as inspirações vindas do outro continente. Novos países produtores se valem destas técnicas para trazer ou reviver novas castas e técnicas que resultam em vinhos surpreendentes.

As diferenças são menores a cada nova safra. Quem ganha é o consumidor que souber “ler” corretamente o que tem em mãos: novo mundo é velho mundo e vice-versa.

Saúde e bons vinhos!

Créditos:

Mapa mundi – Imagem criada por macrovetor para Freepik

Chateau Montelena – foto por ayako – Flickr: a bottle from my birth year, CC BY 2.0

A Copa Jonia

O recipiente apresentado na foto é uma reprodução da “taça” de vinho usada no século VI aC. Foi presentada aos assinantes de um clube de vinhos europeu e a história por trás deste brinde é muito interessante.

A próxima foto mostra uma peça original que está no Museu de Huelva, na Andaluzia.

Eram produzidas na cidade grega de Ionia e comercializadas em diversos entrepostos do Mediterrâneo. Pesquisas arqueológicas recentes, encontraram peças como estas na região de espanhola de Jaen, alta Andaluzia, o que acabou inspirando alguns ceramistas, entre eles, Joan Carles Llarch, autor da peça moderna.

Llarch foi além. Produz as novamente famosas ânforas, garrafas, copas e fermenta o seu próprio vinho.

A argila branca utilizada vem do leito do Rio Llobregat, próximo a Barcelona. O design atual é mais liso e menos decorado que o original. A borda foi suavizada para facilitar o contato com os lábios na degustação.

Na hora de beber um vinho, a copa deve ser segurada com as duas mãos. Para manter sua coloração original, o artista aconselha que só seja usada para os vinhos brancos.

Quanta diferença para os dias de hoje!

O que mais chama a atenção é o modo de empunhar a taça. Partimos de uma composição de utensílios e movimentos que seria mais adequada para consumir um alimento e chegamos nas elegantes e refinadas taças de cristal, que se dão ao luxo de terem formatos estudados para cada tipo de vinho com finas e delicadas hastes que mantem nossas mãos, supostas fontes de calor, a uma distância segura do precioso líquido que está no bojo…

Dava para escrever um tratado sobre isso. Séculos atrás não existia refrigeração, a cor do vinho não era ponto de discussão entre os degustadores, a temperatura de serviço era a “do dia” e, imaginem só, os vinhos eram bem rudimentares, não tinham nenhum tipo de conservante e estragavam rapidamente. Não estaríamos errados afirmando que eram consumidos, no máximo, em 1 ou 2 dias após ficarem prontos. Depois, viravam vinagre… (e alguns consumiam mesmo assim)

A história do vinho acompanhou o desenvolvimento das “boas maneiras” da sociedade. Na mesma proporção que as diferentes culturas foram ficando mais civilizadas, utilizando um termo bem atual, o serviço do vinho foi se sofisticando. Em alguns casos ficou irritantemente complicado e isso fez com que a nossa bebida predileta recebesse a pecha de “esnobe”.

A Copa Jonia é a prova que o vinho era uma bebida descompromissada, sem as complicadas etiquetas. O que se buscava era ter uma alegria, um momento de pequeno prazer. Ninguém se incomodava de bebê-lo numa cumbuca de cerâmica, segurando com as duas mãos. Nenhuma preocupação com ritos de abrir a garrafa, servir, aerar, observar cor, aromas, retrogosto, ou saber qual era a casta, safra, produtor etc.

Beber um vinho era uma coisa mundana. Pensem nisso antes de degustar a próxima taça.

Saúde e bons vinhos!

Créditos:

Foto de abertura e da taça de cristal por Tomás Pinheiro;

Foto da Copa original obtida no site do Museu de Huelva;

Foto do ceramista Carles Llarch obtida no site de Linda Silva.

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